"O monstro é maior do que eles mostraram"

O ano de 2010 começou estampando o Conjunto Ceará nas principais manchetes de jornais do país ao noticiar o assassinato bárbaro da menina Alanis Maria, de apenas 5 anos, que foi sequestrada, violentada sexualmente e morta, sendo abandonada em um matagal. A equipe do Jornal Inverta conversou com a professora Verônica Machado, da Rede Estadual de ensino, moradora e lotada em uma escola do Conjunto Ceará, sobre o abandono da região pelo estado.

O ano de 2010 começou estampando o Conjunto Ceará nas principais manchetes de jornais do país ao noticiar o assassinato bárbaro da menina Alanis Maria, de apenas 5 anos, que foi sequestrada, violentada sexualmente e morta, sendo abandonada em um matagal. O crime abalou profundamente a todos na capital cearense, principalmente a comunidade proletária do conjunto onde a menina morava com seus pais. A polícia mais uma vez tratou os casos que revoltam o povo pobre com total descaso, inclusive declarando publicamente suspeitas indevidas, mas enfim deteve Antônio Carlos dos Santos Xavier, que assumiu a autoria do crime. Passado quase um mês, os moradores do Conjunto Ceará tentam voltar à normalidade, mas que normalidade é essa a que é submetida a classe trabalhadora em seus locais de moradia?

A equipe do Jornal Inverta conversou com a professora Verônica Machado, da Rede Estadual de ensino, moradora e lotada em uma escola do Conjunto Ceará.


IN - Boa Noite professora. Primeiramente gostaríamos de saber que tipo de relação você tem com o bairro.

VM - Tenho uma relação profissional e afetiva com o bairro, pois nasci, fui criada, constitui minha família no bairro e hoje trabalho na formação dos jovens do Conjunto Ceará.


IN - Como moradora, faça uma breve análise da repercussão do caso do assassinato da menina Alanis.

VM - O Conjunto Ceará é considerado um dos maiores bairros da América Latina, onde se vive em comunidade, então houve uma comoção e uma mobilização muito grande nos moradores, dada a brutalidade do crime. A revolta ficou estampada no rosto das pessoas, principalmente com a negligência da polícia, que se limitou a fazer guarda no matagal vizinho à Igreja...


IN - Você relatou a existência de matagais. Fale um pouco mais sobre a estrutura física do bairro e se o caso da menina Alanis foi um caso isolado, ou se as crianças do Conjunto Ceará convivem com algumas outras formas de violência.

VM - Aquele matagal próximo a Avenida Central não é o único não, tem outros, além de campos abandonados, terrenos baldios...Na 3ª Etapa tem uma escola que os garotos tem que passar por dentro de um lixão, praticamente, para poder chegar na escola. Ah e essa Escola fica em frente a outra que fica praticamente dentro de um buraco e vizinha a um matagal onde outras jovens já foram vítimas de estupro. Mas esse matagal é sempre cortado pelos moradores. Que fique bem claro, pelos moradores! A relação do Poder Público com o Conjunto Ceará é de completo descaso.


IN - Como educadora, você acredita que a violência nos bairros de Fortaleza é fruto das desigualdades sociais?

VM - Claro. Muitas vezes os meus alunos já chegaram pra mim e disseram assim: - Tia, por que o mauricinho pode ter um tênis de marca e eu não? Por que eu moro na favela e ele mora numa mansão? O meu pai, tia, vende droga, mas eu aposto como ele ganha mais do que a senhora que fica o dia todinho aí.


IN - Como você analisa a forma como a grande mídia passou a retratar o bairro?

VM - A Globo só pensa em vender a desgraça. O monstro é maior do que eles mostraram. Eu trabalho com jovens de 14 a 17 anos, uma fase difícil da vida, uma fase importante pra formação do ser humano, e a realidade é que, muitas vezes, a nossa clientela, que não é só do Conjunto Ceará, mas de bairros vizinhos, como Granja Portugal, Genibaú, Bom Jardim, é deixada a margem, é realmente pobre. Na escola onde eu trabalho, dois jovens foram agredidos pelos policiais sem motivo algum, apenas por aparentarem com “vagabundos”, mas a polícia tem que lembrar que meus alunos, independente dos atos deles, no espaço da escola eles são estudantes e tem que ser respeitados... Sabe o que aconteceu? Um desses jovens deixou de ir a escola, e isso não sai na TV.

 

 

Jairo Cubano e Luiza Garcia – Sucursal /CE