Reflexões sobre a Crise Financeira

A crise financeira se tornou assunto corrente na ordem do dia. Repercutiu pelo globo terrestre. Nenhum terráqueo conseguiu escapar. E de alguma maneira foi afetado. Diferiu apenas a magnitude da colisão. Mais ainda assombrou pelo foco originário. Rompeu-se pelo que, nas aparências, seria o elo mais rígido da corrente. Ao menos era esta, por assim dizer, a percepção coletiva da maioria dos espectadores. Em 2006, dá as caras certa dificuldade de inadimplência de mutuários da casa própria nos EUA, a mais gigantesca das economias. Não aparentava gravidade incomum. No evoluir dos acontecimentos, desocultou dimensões assustadoras a revelar antigo problema conduzido de arrasto.

Grandes bancos enveredaram na direção da falência. O maior deles na área dos investimentos era o Lehman Brothers e afundou com ativos que não cobriam o passivo. A empresa símbolo do capitalismo sinalizava no decidido caminho da ruína. Era a General Motors. Caso não fosse a intervenção do governo, com estatização temporária, teria sucumbido. Em estalo de dedos, o mundo foi invadido por uma pandemia financeira, dado que os tentáculos interbancários se enrodilhavam pelos continentes.

Serviria de metáfora a violenta tempestade que ninguém acredita ter principiado por inofensiva brisa do mar. E o gigante estadunidense, a transfiguração do invencível, ajoelhou-se. Lições antigas meio esquecidas ficaram ainda mais transparentes, arrancadas à força do baú das recordações. As economias estão interligadas e não mais conseguem existir países independentes. A economia é global e o capital é a forma social universal de sua organização enraizado por todos os recantos. Ele é o fio condutor, ente planetário a vingar onde maiores as compensações e andeja em ciclos econômicos de ascensão e queda a cada 10 anos aproximadamente.

Ao menos dois ensinamentos se destacam deste movimento cíclico. O primeiro reflete os diferentes graus de impacto de uma economia sobre a outra, a revelar o quanto estão mais ou menos amarradas entre si, até que ponto se emaranharam nos castelos de cartas financeiros que em seguida desabaram ante o menor sopro. Isso mostra o quanto podem contagiar uma a outra e mergulhar juntas em crise. O segundo, de um ciclo econômico para o outro, traz o sinal de que as crises não se equacionam. Apenas migram de local de manifestação, ora crises comerciais, ora financeiras, ora produtivas, com diferentes maneiras de exprimir esses desajustes, com maior ou menor intensidade.

Por mais dez anos ainda vai se discutir essa crise financeira, a receber atenção quase diuturna da mídia. O epicentro foi o crédito, movimentador do consumo. As dimensões atingidas com facilidade envolveram trilhões de dólares. De segunda a segunda, esse fantasma arrasta suas correntes. De diversas paragens do mundo, range números tenebrosos de falências, desemprego e socorro às instituições financeiras e empresas produtivas. O cidadão comum deve olhar para tudo isso meio zonzo, sem entender ao certo o que é, diante das fantásticas cifras pronunciadas, somas incomensuráveis aos olhos de quem manipula no cotidiano valores no máximo na casa da centena. Somente sente as agruras dos desdobramentos da crise quando o desemprego bate à porta ou de algum amigo ou vizinho. Percebe que há um cerco a seu redor. Mais inacreditável ainda é que não se trata de dinheiro palpável, como o que se manuseia no dia-a-dia para comprar pão, cerveja ou pacote de leite. São montanhas de dinheiro fictício, números contábeis cintilantes digitados nos computadores, que saltitaram da esfera do Poder Público em socorro do capital privado. No jargão da economia, são as dívidas públicas e emissões monetárias que se esgarçaram e que vão necessitar ser pagas principalmente pelos trabalhadores. Endividamento antigo tapado com endividamento novo. O socorro público em prol do capital privado, engalanado com a promessa de dias melhores.

Os profissionais do ramo – os economistas – estão acenando com certo otimismo diante do provável fato do declínio ter cessado. Não há queda livre, em algum ponto deve estacar. O fundo do poço indica ter sido tocado. O que permanece ainda nebuloso é a mensuração do tamanho dessa queda, a distância da boca por onde entra a luz até o fundo, onde é só breu. Medir quantos empregos foram perdidos e quanto de capital financeiro fictício foi desbaratado em questão de vertiginosos dois anos. Aí, forma-se a dimensão da catástrofe. Na prática, só mesmo se sabe com certeza quem a experimentou. Perdeu o emprego, a casa, a autoestima. E acabou por morar com a família dentro do carro. Tragédias de costume nos EUA. Aos olhos dos economistas das prestigiadas academias, correspondem às vicissitudes da contração do ciclo econômico. Para quem tece elocubrações de dentro de gabinete com ar condicionado, o ser humano virou mero artif)cio de desajuste matemático. De qualquer modo, o flagelo também apareceu nos trópicos. Seria pedagógico vasculhar o Brasil, haja vista terem propalado nas terras verde-amarelas a crise ter sucedido mais amena. E é isto o que de primeira vista convém aos trabalhadores curiosos de saber até que altura o abutre do desemprego entrou pela porta da sala.

Mas não se esgotam aí as incertezas nesse cavoucar soturno. Os anos necessários à recuperação do emprego perdido lança a primeira dúvida. Para escalar de volta por dentro até a boca do poço, a sociedade lá embaixo, ao pé da escada, levará determinado tempo. O ponto em que vai estacionar ao subir também gera incógnitas. Regressa aos números do emprego antigo pré-crise ou permanece abaixo dele? Quando o  crescimento mundial atravessou faceiro mais de 10 anos foi pelo financiamento artificial do consumo, a custa de endividamento sem garantias. Para regressar a este patamar algo terá de ser colocado no lugar desse mesmo financiamento para alcançar o mesmo efeito, haja vista ter sido esse artificialismo o estopim da riqueza e de igual modo da penúria. A liberalidade dos financiamentos e das aplicações financeiras trouxe a fase ascendente do ciclo, mas depois, como não havia como pagar, trouxe a fase descendente. A mesma riqueza se transformou em penúria. Parecia zombar dos homens. A última questão a pairar é simples: o que esta crise trará como novidade para voltar a impulsionar o crescimento? As pessoas necessitam sobreviver. Possuem necessidades urgentes a serem atendidas, e isto somente acontece se houver emprego em número satisfatório a quem precisa e busca ocupação. Quando perdem emprego, aceitam qualquer salário rebaixado. O orgulho baixa a crista.

Algumas verdades olvidadas deverão ser reconfirmadas. O Estado intervirá ainda mais para regular e produzir. O protecionismo já reforça sua presença para preservar postos de trabalho. No entanto, são reformas e remendos gerais. A sobrevivência dos trabalhadores ainda poderá estar muito aquém de ser provida, embora utilizados todos os expedientes conhecidos e admitidos no âmbito capitalista. O que mais aparece agora é a redução de imposto indireto na situação brasileira.

Neste breve espaço foram formuladas três questões entrelaçadas para intrigar a imaginação do vivente. O mundo não é mais o mesmo, quando no passado ainda recente as coisas pareciam tão claras. Nossos avós reuniam bem menos dúvidas e muito mais certezas do que nós. Hoje é como andar no nevoeiro e faz-se necessário acender focos de luz. Para agir melhor é preciso compreender em traços gerais e simples.

O que carece a todos nós são as cintilações de teorias coerentes e bem elaboradas.  A teoria nada mais é do que a reflexão consistente e generalizada sobre a experiência da humanidade. E eclodiram em pouco tempo novas experiências num grau insólito. Desafios igualmente gigantescos a superar acotovelados um ao lado do outro para modificar a fisionomia da produção e do consumo. Procedem da geração de energia para prover o consumo extraordinário de algumas nações, fora da capacidade da natureza conseguir saciar. Em contrapartida, há dezenas de outras que não consomem e se debatem com a pobreza extrema. Os EUA possuem 250 milhões de automóveis, número quase equivalente à sua população, a Europa idem, e a China quer ter quantos, com seus 1,3 bilhões de habitantes? 20% disto seriam outros 260 milhões de autos. Caso esta  soma inclua os demais continentes e países não mencionados (América Latina, restante da Ásia, Oriente, África, Rússia, Índia), pode se chegar a 1 bilhão. E esse 1 bilhão vai virar 2 bilhões para atender aos gostos da indústria automobilística?! Pouco interessa se movidos a etanol, hidrogênio, eletricidade...

Está em consideração também o relacionamento do homem com a natureza numa visão diferenciada de progresso. Agora progredir implica em reconstruir o meio ambiente, tal o estado de degradação atingido. O aquecimento global, que agora muito pouco se contesta, está aí evidenciando os desequilíbrios que colocam em risco a manifestação da vida vegetal e animal. A vida é um fenômeno delicado e sensível para os seres mais desenvolvidos como os mamíferos. E o homem é decerto uma ave? O homem descobriu genialmente que não consegue reinventar a natureza. São estes alguns dos desafios maiores em relevo que farão desta crise longa travessia de percalços, questionamentos, choques, novas atitudes, rarefeitas taxas de crescimento econômico, contradições e revoluções. Em lugar de fim, é transformação. O que aqui se deixou cair das mãos são apenas algumas sementes da curiosidade para germinar a reflexão e novas atitudes.

O capitalismo entrou em clara decadência. Encolheu diante do gigantismo dos problemas que para si criou.  Seu envoltório de relações sociais de exploração, de alguns homens contra milhões de seus semelhantes, traduzido sob a forma de lucro, não mais encontra solução. Todavia, o socialismo revolucionário ainda não seduziu corações e mentes como necessidade de reconstrução da existência produtiva a ser levada a cabo pelos trabalhadores.


  José da Silveira Filho