Dados maquiam realidade do povo em 2009

Divulgou-se exemplo, que o desemprego, em novembro de 2009, foi de “apenas” 7,4%. Este dado, no entanto, calculado pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, além de considerar como “ocupados” todos aqueles que exercem qualquer atividade, inclusive bicos autônomos, exclui do universo de pesquisa todos os brasileiros em idade ativa que não tenham procurado por emprego nos últimos três meses. Leia mais.

Quando a crise eclodiu em setembro de 2008, o governo Lula anunciou que seu “pacote” anti-crise seria o próprio Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), que teria ação anti-cíclica. O interesse eleitoral na promoção do PAC como salvador da pátria é óbvio, uma vez que o programa está sob o auspício de Dilma. Ainda em 2008, o governo tomou uma série de medidas para conter a crise, entre elas a realização de leilões de compra e venda de dólares e de swap (troca) cambial, no valor de pelo menos US$ 5,8 bilhões, apenas no primeiro mês. Mesmo assim, o dólar subiu até R$ 2,48, quando o BC decidiu queimar parte de suas reservas e abre uma linha de swap com o Fed de mais U$ 30 bilhões. Através da flexibilização de compulsórios, o BC garantiu pelo menos outros R$ 112 bilhões, ainda em 2008, além de cerca de R$ 15 bilhões em crédito do BB, BNDES e Caixa.

Tais medidas, junto à regulamentação da centralização financeira privada e estatal, abriram caminho para grande socialização de perdas e centralização bancária materializada em 2009 (Itaú e Unibanco, Banco do Brasil e Nossa Caixa). Além do controle cambial e do incentivo à centralização, o governo também realizou, em alguma medida, política fiscal, através dos projetos do PAC – em especial o “Minha Casa, Minha Vida”, que beneficia principalmente as grandes empreiteiras, e do corte do IPI dos carros e da “linha branca” dos eletrodomésticos. O IOF (sobre as operações financeiras) também foi zerado, buscando atrair divisas para o país sem a realização de leilões. As ações calçaram as iniciativas de projeção internacional de Lula, em disputa por hegemonia regional, pelo próximo mandato e por influência na ONU, desfilando habilidosamente, desde o recebimento de Zelaya até a Conferência de Coppenhagen. A imagem de um Brasil próspero, que venceu a crise e inclusive empresta dinheiro aos países mais ricos, foi vendida aos quatro ventos.

Divulgou-se, por exemplo, que o desemprego, em novembro de 2009, foi de “apenas” 7,4%. Este dado, no entanto, calculado pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME) do IBGE, além de considerar como “ocupados” todos aqueles que exercem qualquer atividade, inclusive bicos autônomos, exclui do universo de pesquisa todos os brasileiros em idade ativa que não tenham procurado por emprego nos últimos três meses. Segundo o IBGE, o quadro da população desocupada (1,7 milhão de pessoas) e da população ocupada (21,6 milhões) manteve-se estável. Os próprios dados revelam a irrealidade da pesquisa, como se apenas 23,3 milhões de brasileiros estivessem em idade ativa.

O rendimento médio real dos trabalhadores também foi anunciado como o maior desde 2002 (R$ 1.353,60, em novembro), tendo aumentado 2,2% em relação a novembro de 2008. A massa de rendimento real efetivo dos ocupados (R$ 29,4 bilhões) teria aumentado, segundo o IBGE, 0,5% no mês e 3,2% no ano. Os lucros, em alguns setores, por sua vez, chegaram a aumentar cerca de 10%. Ainda segundo o IBGE, cerca de 44,5% da população ocupada tem carteira assinada, 12,7% não, sendo os demais funcionários públicos, militares ou trabalhadores autônomos. No entanto, além deste dado considerar o mesmo universo duvidoso da população ocupada descrito anteriormente, ele estabelece ainda a média entre todas as remunerações, de modo que uma estrutura de renda em que apenas uma pessoa recebe R$ 99.000,00 e 99 pessoas recebem R$ 10,10  aparece como idêntica a uma estrutura de renda em que 100 pessoas recebam R$ 1.000,00 cada uma, sem variações de renda. Este dado reflete, portanto, muito pouco ou quase nada a realidade do trabalhador brasileiro.

No caso dos aposentados, os segurados do INSS que contribuem pelo teto perderam, em 2009, pelo menos 6,6% (R$ 206,03) do valor do benefício, devido à “atualização do cálculo”. A perda ocorre antes do fator previdenciário, que encolherá ainda mais o benefício.

Na realidade, o desempenho do Brasil, apesar de melhor que o de muitos países, não foi tão bom como divulgado: segundo o próprio IBGE, o crescimento do PIB brasileiro, no 3o trimestre, foi de 1,3%, somando R$ 797 bilhões no período, sendo 26,47% (R$ 181,9 bilhões) correspondente à indústria, 67,69% (R$ 465,2 bilhões) aos serviços e apenas 5,83% (R$ 40,1 bilhões) à agropecuária, antes tida como menina-dos-olhos no “Projeto Etanol”. O PIB, portanto, caiu 1,2%, em relação ao mesmo período de 2008, e deve fechar 2009 em queda de cerca de 0,26%, a primeira contração anual desde 1992. O país precisaria crescer cerca de 5% no 4º trimestre apenas para fechar o ano estagnado. Tentando anular os efeitos da crise no Brasil, o governo atribuiu a queda às “diferenças metodológicas recém-adotadas pelo IBGE”. Em relação ao 2º trimestre, o setor industrial teria crescido 2,9%. Mas, de janeiro a setembro, a queda foi de 8,6% e, no acumulado em 12 meses, houve retrocesso de 7,1%. Os serviços cresceram 1,6% desde o 2º trimestre e 2,1%, em relação ao mesmo período do ano passado. Já a agropecuária, caiu 2,5% em relação ao 2o trimestre, 9% em relação a 2008 e atinge -5,3% no acumulado do ano.

Pode haver algum aquecimento da economia em 2010, uma vez que houve alta no 3º tri de 6,5% na formação bruta de capital fixo, que aponta o nível de investimento no setor produtivo, chegando a R$ 140,9 bilhões. No entanto, em relação a 2008, houve queda de 12,5% e, no acumulado do ano, a queda atinge 14,2%. A taxa de investimento no 3º trimestre representou 17,7% da formação do PIB, contra 20,1% no mesmo período de 2008. O aquecimento, portanto, terá como primeira tarefa a retomada dos níveis pré-crise.

A estimativa é de que a inflação feche o ano em 4,31%, pelo IPCA. Pelo IPC, deve ficar em cerca de 3,87%. Pelo IGP-DI e o IGP-M (usados no reajuste da maioria dos contratos e aluguéis), deverá haver queda de, respectivamente, até 1,02% e 1,08% no ano. Com relação aos juros, apesar da Selic estar em seu menor patamar na história, tendo sido mantida em 8,75% pela terceira vez (após cinco cortes seguidos entre janeiro e julho), o Brasil seria atualmente o segundo país no mundo com maiores juros reais (4,2%), atrás apenas da China (5,8%) e seguido pela Indonésia (4%) e Malásia (3,7%). Venezuela (-8,8%), Índia (-7,4%), Israel (-1,8%), Hong Kong (-1,7%) e Inglaterra (-1%) têm juros negativos.

O dólar deve fechar o ano entre R$1,70 e R$1,75. Para 2010, o Tesouro Nacional reabriu, em outubro, a captação de recursos nos EUA e Europa, através de títulos de dívida com prazo para 2019 e taxa de 5,80% ao ano, aumentando a dívida externa. Haverá, ainda, captação de US$ 1,275 bilhão em papéis, com prazo até janeiro de 2041, demonstrando claramente a estratégia de promoção internacional da estabilidade no Brasil, refletida nos longos prazos de maturação dos títulos. A previsão para o superávit da balança comercial em 2009 foi mantida em U$ 25 bilhões, com déficit de U$ 18 bilhões nas transações correntes. A relação dívida/PIB aumentou para 44,5%.

A pressão pela depreciação do dólar deve permanecer, enquanto os EUA seguirem emitindo moeda para financiar seu déficit em conta corrente, que aumentou no final de 2009, principalmente devido à balança comercial, chegando, em setembro, a US$ 108 bilhões, ou 3% do PIB. A manutenção da alta na demanda por títulos dos EUA - que diminuiu em 2009 - é fundamental para a rolagem de sua dívida pública, no que o Brasil cumpre um papel significativo, sendo o sexto maior detentor de títulos dos EUA, com US$ 156,2 bilhões, atrás da China (US$ 798,9 bilhões), Japão (US$ 746,5 bilhões), Reino Unido (US$ 230,7 bilhões), países-membros da Opep (US$ 188,4 bilhões) e os paraísos fiscais do Caribe (US$ 169,3 bilhões).

Não é verdade, portanto, que o pior da crise já tenha passado. Por um lado, novas ondas de crise podem precipitar-se, com epicentro nos EUA ou em outros países, aprofundando a situação no Brasil. Por outro, a realidade do povo brasileiro é muito diferente do que mostram os dados oficiais. Sem terra, sem teto, sem emprego digno, sem saúde e educação públicas, sem comida na mesa e sem dinheiro para comprar o tal peru de natal que deveria reaquecer a economia...

As medidas de isenção fiscal do governo Lula contribuíram para o aumento do consumo em 2% no 3º trimestre, consumo das famílias, puxando também a alta no PIB.

Após a fusão com a Nossa Caixa e as negociações com o BRB (Banco de Brasília), o Banco do Brasil, por exemplo, pretende aumentar em 20% sua carteira de crédito em 2010, emprestando R$ 60 bilhões no próximo ano. O BB também estuda emitir ações no mercado primário e secundário para aumentar a capacidade de financiamento do banco, o que significaria ampliação de sua desnacionalização.


MM

 

Karla Sant'Anna de Moura Coutinho
Karla Sant'Anna de Moura Coutinho disse:
13/01/2011 17h31
Prezados senhores:

É um grande serviço o que prestam com artigos como esse, abordando dados econômicos com simplicidade e objetividade e, mais que tudo, efetivamente abordando-os, o que não costuma ocorrer na imprensa tradicional. Obrigada por seu empenho em esclarecer os leitores.
Atenciosamente,
Karla Sant'Anna
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