A crise mundial em 2009

Até agora, com a crise, o “valor de mercado” do setor bancário no mundo todo caiu de US$ 8,3 trilhões, no fim de 2007, para US$ 5,7 trilhões. Estes 2,6 trilhões perdidos, na verdade, eram capital fictício, valor que parecia sólido e se desmanchou no ar. A crise eliminou quase três anos de crescimento inflado e de bolha especulativa. Mas os piores efeitos não estão no mercado financeiro, e sim na economia real, e bilhões de pessoas ao redor do mundo sofrem com o desemprego, a fome e a miséria.

O primeiro trimestre de 2009 foi de quebradeira geral e quedas abismais nos índices de emprego e qualidade de vida. A maior parte do Centro Dinâmico do Capitalismo ainda está em recessão. Sequer a pujança dos xeiques árabes permaneceu inabalada frente à crise, com a falência virtual do consórcio estatal Dubai World, com US$ 26 bilhões de dívidas. Ao final deste ano, os EUA completam um ano de juros próximos a zero, estacionados entre zero a 0,25%, o menor patamar desde 1913. Apesar do saldo no corte de empregos no país ter diminuído de 111 mil, em outubro, para 11 mil, em novembro, puxado pelo crescimento de 0,8% na produção industrial, a taxa de desemprego se mantém em 10%, contra 6,8% em novembro de 2008 e a utilização da capacidade instalada ainda está em 71,3% (9,6 p.p. abaixo da média do período de 1972 a 2008). O PIB cresceu 2,8% no 3º trimestre, após queda de 5,4% no final de 2008, mas a previsão para o ano é de contração de cerca de 2,4%.

O próprio presidente do Fed (banco central dos EUA), Ben Bernanke, admitiu, no último dia 7, que “Ainda temos algum caminho a percorrer antes de termos certeza de que a recuperação será sustentável”, destacando “desafios formidáveis” para o fim da crise. Como “teste”, o Fed retirou US$ 180 milhões de circulação, cedendo títulos a bancos. Obama, por sua vez, prometeu aumentar o emprego, num momento em que sua popularidade caiu abaixo de 50%, em meio a ataques políticos, à farsa do Nobel da Paz e à escalada da guerra no Afeganistão.

O ano foi marcado pela eleição de Obama, que conseguiu aprovar em fevereiro pacote de US$ 787 bilhões, inspirado no New Deal de Roosevelt, porém muito menos ousado. O governo utilizou também recursos do pacote anterior, o Tarp, “plano de ajuda” de US$ 700 bilhões aprovado em novembro de 2008 por Bush para a compra de títulos podres, além de US$ 150 bilhões em corte de impostos e benefícios fiscais. A extensão do Tarp foi solicitada pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner, no último dia 9.

Apesar do BCE (Banco Central Europeu) ter melhorado sua previsão de crescimento da zona do euro em 2010, aprovou novo pacote de US$ 500 bilhões e manteve sua taxa básica de juros em 1%. A economia européia poderia estar estancando, após 5 trimestres seguidos de contração. A produção industrial da zona do euro, no entanto, caiu 0,6% em outubro. Em relação a outubro de 2008, houve queda de 11,1%. Segundo a Eurostat, o emprego na região diminuiu 0,5% no 3º trimestre, caindo 2,1% frente ao mesmo período do ano passado, de modo que 22,5 milhões de pessoas estavam sem emprego na EU, em outubro. Em relação ao 3º trimestre de 2008, houve queda de 4,1% do PIB, na zona do euro, e de 4,3%, na UE. Na comparação anual do 2º trimestre, as quedas foram de 4,8% e 5%. As exportações e importações cresceram entre 2,4% e 2,9%, após quedas acentuadas, mas os investimentos seguem caindo (0,4% a 0,5% no 2º e 3º trimestres de 2009). Apesar de ligeira melhora, as encomendas feitas à indústria europeia caíram 16,5%, na zona do euro, e 16,4%, na UE, em relação a setembro de 2008. A taxa de desemprego na zona do euro ficou em 9,8%, em outubro, enquanto, em outubro de 2008, estava em 7,9%. As menores taxas de desemprego, ao final de 2009, são as da Holanda (3,7%) e da Áustria (4,7%) e as maiores da Letônia (20,9%) e da Espanha (19,3%). Enquanto isso, os preços deverão registrar alta anual de 0,6%.

Na Espanha, o número de desempregados chega a 4,48 milhões, o que representa que, em cinco anos, a economia espanhola não terá criado nenhum posto de trabalho a mais. No Reino Unido, os preços subiram 1,5%, em outubro, e 1,9%, em novembro, podendo chegar a 3% de inflação, refletindo o aumento nos combustíveis. O PIB se contraiu 0,3% no 3º trimestre e 0,4% no anterior, mostrando que a Inglaterra ainda não saiu da recessão. O instituto econômico Ifo prevê queda de 4,9% no PIB alemão, pior desempenho anual desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). A Alemanha mantém planos de déficit orçamentário anti-cíclico de cerca de 100 bilhões de euros, em 2010, levando sua dívida pública a cerca de 6% do PIB, muito distante dos 3% acordados pelo Pacto de Estabilidade da União Europeia. Na França, por sua vez, o desemprego atingiu o maior nível em três anos, subindo para 9,5%. O PIB registrará, em 2009, contração entre 2% e 2,1%. A Islândia, um dos primeiros países a quebrar, ainda em 2008, segue em recessão, tendo visto seu PIB cair 5,7% no 3º trimestre de 2009.

Apesar disso, o BCE deve iniciar, em 2010, o fim de parte de seu suporte à economia. Na verdade, apesar das dificuldades vividas pelos povos europeus, os grupos capitalistas que sobreviveram à crise estão se fortalecendo, de modo que o setor privado da economia dos 16 países que compõem a zona do euro teve, em novembro, seu maior crescimento em dois anos.

A maior responsável pelos dados favoráveis na “recuperação global” tem sido a China. O índice do setor manufatureiro da China atingiu um recorde de alta em novembro, a 55,7 pontos. Apenas as importações de minério de ferro do país subiram, em novembro, 12,3%, por exemplo, totalizando 38,4% em 2009, devido à alta de 12,1% na produção de aço no país desde o início do ano, chegando a 581,177 milhões de toneladas. Mesmo assim, a China registrou um superávit comercial de US$ 19,09 bilhões, em novembro, acumulando superávit de US$ 177,96 bilhões no ano. Enquanto isso, a siderúrgica japonesa Tokyo Steel Manufacturing, maior do país na produção de aço, cortará em 2010 seus preços, devido à fraca demanda doméstica.

 

Perdas financeiras e centralização de capital


Reconhecendo que a precipitação da crise deu-se pelo sistema de crédito e muitas vezes considerando-a apenas como “crise financeira”, em 2009, o Comitê da Basiléia (que reúne BCs e supervisores financeiros) cogitou o aumento, em 2012, das reservas compulsórias, o limite de alavancagem e a regulamentação pra bancos de investimentos, tentando aumentar suas operações de financiamento da economia real, colocando em xeque paradigmas fundamentais do neoliberalismo. No Brasil, no entanto, o índice compulsório já é de 11%, cerca de 2,5% maior que no mundo em geral. O novo índice provavelmente não ultrapassará essa faixa.

Os bancos de investimento giraram, em 2009, US$ 888,9 bilhões, 27,7% a mais que em 2008, sendo que a emissão de ações subsequentes (follow on) foi sua principal fonte de comissões, totalizando US$ 689 bilhões - em especial para HSBC, Bank of America e SMFG - e juntando-se à coordenação de operações de fusão e aquisição, girando. Depois de quase quebrar em 2008, o JPMorgan lidera o ranking, com lucros, em 2009, de cerca de US$ 2,2 bilhões apenas em comissões sobre ações, tendo intermediado 386 fusões, avaliadas em US$ 98,7 bilhões, segundo a Reuters. O Goldman Sachs ficou em 2º, com 255 operações e US$ 76,5 bilhões, e o Bank of America em 3º, com 300 negócios e US$ 71,2 bilhões.

Na Europa, o britânico Northern Rock foi nacionalizado, em fevereiro, por 12 meses, bem como a hipotecária Bradford & Bingley. O britânico Halifax Bank of Scotland foi comprado pelo Lloyds TSB (maior banco privado do Reino Unido), por cerca de US$ 22,2 bilhões. O suíço UBS já lançou mais de US$ 19 bilhões em prejuízos com o “subprime” e corre riscos. O francês BNP Paribas congelou cerca de US$ 2,73 bilhões, em agosto passado, devido ao crédito “subprime”. As ações do belgo-holandês Fortis caíram mais de 70% neste ano, tendo sido 49% nacionalizado pela Benelux por US$ 16,4 bilhões. A hipotecária alemã Hypo Real Estate obteve US$ 69 bilhões do governo e de um consórcio de bancos para se salvar, sendo 40% nacionalizada. A Islândia recebeu crédito de 4 bilhões de euros da Rússia e nacionalizou os três maiores bancos do país, Kaupthing, Landsbanki e Glitnir (75%), já em setembro de 2008. O franco-belga Dexia também recebeu injeção de US$ 9,2 bilhões e foi nacionalizado. O italiano Unicredit precisou de mais de 6 bilhões de euros (privados) para não quebrar, enquanto o holandês ING recebeu injeção de capital estatal de 10 bilhões de euros. No Japão, a Yamato Life Insurance foi a primeira vítima direta da crise, quebrando neste ano, sob o peso de mais de 2 bilhões de euros em dívidas.

Muito tem se dito sobre a recuperação econômica, com a recuperação de parte dos lucros por alguns setores da burguesia nacional e internacional. Mas as contradições que levaram à precipitação da crise são estruturais e inerentes ao capitalismo, que segue emitindo ações e criando moeda escritural para assegurar a acumulação de capital e manter a exploração dos trabalhadores pela burguesia, obtendo lucros. Assim, mesmo a tão desejada recuperação econômica não terminará com a miséria em que vivem nossos povos, nem com a festa das classes dominantes. Pelo contrário: a resposta para a crise é mais concentração e mais centralização de capitais, de modo que os Estados capitalistas podem contê-la, em certa medida, mas nunca eliminarão suas contradições principais, que só terminam com o fim do próprio capitalismo. O jogo de cintura tem grande impacto, mas, caso os “donos do mundo não se cuidem”, podemos estar vivendo uma primeira vaga de crises ainda piores.


Marina Machado