Ricardo Martinelli, mais um cachorro do império

O novo presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, cumpriu 100 dias de governo e já em suas primeiras semanas deixou claro o papel que desempenhará como fiel aliado dos Estados Unidos em sua estratégia de dominação na região.

O novo presidente do Panamá, Ricardo Martinelli, cumpriu 100 dias de governo e já em suas primeiras semanas deixou claro o papel que desempenhará como fiel aliado dos Estados Unidos em sua estratégia de dominação na região. Eleito num momento de decepção generalizada com o governo dito “progressista” de Martín Torrijos, Martinelli é um empresário, dono da principal estação de televisão do Panamá e da maior rede de supermercados do país. Formado no INCAE Business School, uma importante escola costa-riquenha de quadros do neoliberalismo centro-americano, chegou a anunciar na Assembleia Geral das Nações Unidas que o Panamá estava aberto para fazer negócios, uma “sinceridade” que deixaria atônitos os 192 delegados dos Estados membros.

Em sua campanha midiática para a presidência, adotou a “mudança” como lema, defendendo o fim da violência e da corrupção. Entretanto, Martinelli não alterou as políticas públicas de controle do tráfico de ilícitos, das gangues e do jogo de azar e as estatísticas mostram que a violência continua aumentando. Continuam a ser aplicadas as mesmas políticas tradicionais (“mão dura”, “ruas seguras” etc) que buscam controlar a violência por meio do fortalecimento de um Estado penal: o Ministério de Governo e Justiça anunciou que investirá 100 milhões de dólares para construir novas instalações penitenciárias. Quanto à corrupção, a “faixa costeira” – projeto urbanístico na capital que terá o custo de 190 milhões de dólares –, denunciada pelo candidato Martinelli, agora é celebrada pelo presidente Martinelli, que pediu outros 54 milhões de dólares para sua extensão até o “Casco Viejo”, parte histórica da cidade situada no bairro de San Felipe. Martinelli aprovaria ainda gastos de 100 milhões de dólares mediante “compras diretas” sem passar pelas licitações que a lei exige e nomearia seus familiares e colaboradores para embaixadas e consulados.

Na política econômica, insinuou para os empresários que flexibilizará ainda mais as relações trabalhistas (criando mais instabilidade e reduzindo salários). Além disso, prometeu reduzir os impostos de quem ganha mais e  distribuir os ingressos do Fisco (Canal do Panamá, Zona Livre de Colón, os portos e outros) entre os investidores mais ricos. Certamente, os ingressos do Canal, da Zona Franca e dos portos estão estancados, desde 2008, por conta da recessão mundial. Aliás, sua equipe econômica não reconhece os efeitos da crise internacional no país e tem insistido que a estrutura financeira do Panamá sairá ilesa. No entanto, já é possível constatar que houve uma queda no consumo, as indústrias reduziram em 20% sua produção e os agricultores perderam 50% de sua capacidade.

Em matéria de política social, suspendeu os programas do governo anterior relacionados com a “Rede de Oportunidades” às populações mais empobrecidas e não propôs nenhuma alternativa. Nos setores da Educação e Saúde, bem como na Segurança Social, Martinelli impulsiona programas de privatização e de redução de gastos que prejudicará setores mais vulneráveis. Inclusive, acena para a fusão das entidades encarregadas da Cultura e do Turismo, reduzindo a cultura a uma mercadoria comprável pelos turistas que chegam ao país.

Politicamente, aproveita-se de um retrocesso da oposição institucional, derrotada nas eleições de maio deste ano. O Partido Revolucionário Democrático (PRD) entrou numa fase de transição da qual não poderá sair e sua direção aliou-se ao ex-presidente ultra-neoliberal Ernesto Pérez Balladares. A esquerda panamenha, por sua vez, tenta apresentar várias frentes políticas, mas se limita à tática eleitoral. O Partido Alternativa Popular (PAP), que lançou a candidatura presidencial do economista Juan Jované nas últimas eleições, está trabalhando em sua inscrição formal. Por outro lado, a Frenadeso, que reúne sindicatos, grêmios e outros setores populares, anunciou sua intenção de entrar nas eleições para combater o monopólio político da burguesia panamenha. Nos últimos dias, às vésperas de cumprir seus 100 dias de mandato, Martinelli decidiu reprimir os indígenas Naso que protestavam na Praça da Catedral da cidade do Panamá desde março de 2009. As comunidades Naso, da Província de Bocas del Toro, foram desalojadas e destruídas pela Polícia Nacional no início do ano (pelo governo de Martín Torrijos), deixando famílias e crianças desamparadas, para dar lugar à fazenda de gado de um empresário residente na capital.

Quanto à política exterior, já em seu discurso de posse, Martinelli demonstrou sua linha de subordinação aos Estados Unidos. Nesse sentido, as organizações sociais panamenhas denunciam que há um acordo em marcha para a instalação de bases militares de Washington no território do país. O próprio ministro da Justiça, José Raul Mulino, anunciou que lograram um acordo para o estabelecimento de duas bases militares navais no Pacífico panamenho: uma em Bahía Piña, em Darién, e a outra em Punta Coca, ao sul de Veraguas. A panamenha Frente Nacional para a Defesa dos Direitos Sociais e Econômicos também denunciou que, na localidade de Metetí, está sendo construída uma ampla pista de pouso para uso de aviões estadunidenses. O Panamá é o mais novo integrante do eixo dos países ultraconservadores da América Latina, composto por Colômbia, México e Peru. Além disso, foi o único que aceitou oficialmente o golpe de Estado em Honduras e sua convocatória eleitoral.

Enfim, Ricardo Martinelli figura como mais um representante das oligarquias conservadoras do continente, as quais sofreram um refluxo na última década com o avanço de governos chamados “progressistas”, mas têm-se fortalecido novamente nos últimos anos, devido não só ao fracasso da “centro-esquerda” em organizar governos, de fato, populares, mas também à nova orientação da política externa estadunidense, com a crise, no sentido do restabelecimento de sua influência na América Latina.


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Tania
Tania disse:
16/02/2012 13h48

Importante papel esse de martsor a degradacao que o ser humano, a autodestruicao. Nossa! O ser humano entregue a si mesmo nao tem saida! realmente, o filme e sempre o mesmo! Quem podera salvar???

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