O retorno do último refugiado brasileiro depois de 45 anos clandestino na Suécia

Depois de 45 anos vivendo na Suécia como exilado político e com outro nome, o ex-vice-presidente da Associação de Marinheiros, Antônio Geraldo da Costa retornou ao Brasil. Neguinho conforme foi chamado pelos amigos e companheiros, durante esses anos todos, foi um dos líderes da Revolta dos Marinheiros em fevereiro de 1964.

O retorno do último refugiado brasileiro depois de 45 anos clandestino na Suécia

 

Depois de 45 anos vivendo na Suécia como exilado político e com outro nome, o ex-vice-presidente da Associação de Marinheiros, Antônio Geraldo da Costa retornou ao Brasil. Neguinho conforme foi chamado pelos amigos e companheiros, durante esses anos todos, foi um dos líderes da Revolta dos Marinheiros em fevereiro de 1964.

Após o Golpe de Estado, que foi um assalto ao poder e aos cofres públicos pelos militares golpistas, quando foi instalado no país, um regime nazimilitarista, Neguinho foi cassado pelo Ato Institucional 1 e terrivelmente perseguido, quando foi preso e barbaramente torturado pelos verdugos da ditadura.

Por ocasião de uma audiência no Ministério da Marinha, que decretaria sua expulsão e condenação, aproveitando-se de uma distração durante uma pausa dos guardas que o vigiavam, Neguinho conseguiu sair das dependências do Arsenal de Marinha passando pelos sentinelas da entrada, como se fosse um funcionário qualquer.

Na clandestinidade no Brasil, Neguinho participou de várias ações armadas no Rio de Janeiro e São Paulo como militante da ALN e VPR. Sua ação mais espetacular foi a levada cabo na Penitenciária Lemos de Brito, que teve como resultado a libertação de alguns companheiros de farda e de luta como Avelino Capitani, Antônio Duarte, Jose Duarte, Marco Antônio (assassinado logo em seguida num apartamento na Rua Inhangá em Copacabana) José Adeildo e outros companheiros.

A prisão, a perseguição e a vida clandestina no Brasil deixaram graves sequelas psicológicas. Em 1968, como estava sendo cassado em todo o território nacional, Antônio Geraldo Costa ou Neguinho foi obrigado a tirar carteira de identidade falsa.

Em1969, Neguinho e um grupo de companheiros formaram um coletivo, cujo objetivo era se preparar para colaborar mais efetivamente para a derrubada da ditadura militar. Com o aumento da repressão seus membros decidiram seguir para o Uruguai e de lá conseguir uma preparação militar no exterior.

No Uruguai, com a repressão cada vez mais intensa, vários integrantes do coletivo conseguiram, com a ajuda da companheira uruguaia, Tina Badano, que sempre ajudou brasileiros desde abril de 1964, bolsas de estudos na Bulgária, salvando, por conseguinte, várias vidas, uma vez que forças da repressão do Uruguai e Brasil, Operação Pré-Condor, já estavam rastreando os membros do coletivo em território uruguaio.

Wilson Nascimento Barbosa, que viajaria alguns dias depois para a Bulgária, foi preso quando visitava o amigo líder sindical portuário, Milton Valenzuela. Sua esposa Lenize e a filha Maria Helena estavam, aguardando nas residências de estudantes, a chegada de Wilson.

Em vez de Bulgária, o Wilson Nascimento Barbosa foi entregue aos agentes do Estado terrorista brasileiro. Um avião da FAB, violando a soberania territorial uruguaia, aterrissou no Aeroporto de Carrasco para sequestrar Wilson e conduzi-lo à força para o Brasil, onde foi entregue ao delegado Sérgio Fleury e seus agentes assassinos e foi barbaramente torturado.

 Nessa altura dos acontecimentos, Neguinho e seu companheiro Élio, temendo, claro, esta chegada dos agentes da Operação Pré-Condor na residência de Tina Badano, onde estavam, viajaram para o Chile, e daí, diante das ameaças de golpe, acharam por bem, com a ajuda de amigos e do Guilem, seguirem para a Suécia, onde, só assim, poderiam se sentir seguros. Nesta época a Suécia do Primeiro Ministro Olof Palme concedia asilo político a todas as pessoas perseguidas no mundo inteiro.

Em consequência da tortura a que foi submetido, da perseguição e dos anos de clandestinidade, Neguinho, como sempre me acostumei chamá-lo, teve razões de sobra para desconfiar de tudo e mesmo na Suécia decidiu continuar com o nome falso. Na Suécia, casou com a engenheira sueca, Ingrid, com quem teve dois filhos.

Mesmo sendo pessoa de confiança, porque também fiz parte do coletivo, nunca consegui entrevistá-lo, para a Rádio Suéca, apesar de sempre colocar os microfones à disposição da ALN, PCBR, VPR, Var-Palmares, POLOP, PC do B, PCB, enfim, todas as organizações e partidos, que combatiam a ditadura.

Com 75 anos de idade, Neguinho entrou no Brasil, pela primeira vez com seu nome verdadeiro, pondo fim a um exílio de mais de 45 anos, superando o antigo recorde do oficial japonês, Hiroo Onoda, que permaneceu escondido durante mais de 30 anos nas selvas filipinas, após o fim da Segunda Guerra Mundial.

Excelente filho, Neguinho de família pobre, enviava quase todo seu salário de marinheiro para sua mãe. Por isso, era obrigado a residir nos navios onde servia.

Sua honestidade, sinceridade, solidariedade e suas firmes posições ideológicas eram de uma dignidade comovente. Foi na Associação de Marinheiros cujas principais reivindicações eram o direito de contrair matrimônio, melhoria da comida a bordo e oportunidade de estudar, que Neguinho atingiu o seu pleno desenvolvimento na chamada consciência política, sindical e de classe. Neguinho formou-se na Escola da Vida.

Sua volta ao seu verdadeiro lugar se dá numa conjuntura em que os movimentos de direitos humanos estão revolvendo o trágico mundo de horror em que pululou o nazimilitarismo no Brasil e na América Latina.


Delson Plácido