Gripe suína e a febre por bilionários lucros

Mais um vírus ataca a humanidade. Milhares de pessoas são infectadas em poucos dias, conduzindo à morte dezenas daquelas que não tem acesso a recursos mínimos para aquisição de um remédio (controlado por gigantescas multinacionais) ou a atendimento médico adequado (também monopolizado por grupos privados). Oficialmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada aos interesses das grandes corporações internacionais, a atual gripe suína já contagiou mais de 10 mil pessoas, sendo que mais de 90 não resistiram aos efeitos da gripe. A imensa maioria da mortandade ocorre no México, apesar de não ser oficialmente o país que mais tem casos.

Gripe suína e a febre por bilionários lucros

 

Mais um vírus ataca a humanidade. Milhares de pessoas são infectadas em poucos dias, conduzindo à morte dezenas daquelas que não tem acesso a recursos mínimos para aquisição de um remédio (controlado por gigantescas multinacionais) ou a atendimento médico adequado (também monopolizado por grupos privados). Oficialmente, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ligada aos interesses das grandes corporações internacionais, a atual gripe suína já contagiou mais de 10 mil pessoas, sendo que mais de 90 não resistiram aos efeitos da gripe. A imensa maioria da mortandade ocorre no México, apesar de não ser oficialmente o país que mais tem casos.

O primeiro humano infectado por esta “nova” geração de vírus foi uma criança de 4 anos, o garoto Edgar Hernández, que felizmente conseguiu sobreviver. Edgar mora em La Gloria, cidade de Perote, na província de Veracruz, México. No início de dezembro de 2008, uma gripe, até então tratada como simples gripe, passou a disseminar rapidamente na região. Passados três meses, cerca de um terço do povoado ficou contaminado pela gripe suína. Cerca de 10 quilômetros dali existe uma poderosa multinacional criadora de porcos e processadora de produtos suínos, a Granjas Carroll. No México, 50% das ações da Granjas Carroll é de propriedade da multinacional ianque Smithfield Foods, maior processadora de suínos do mundo. A sua unidade em Veracruz foi à fonte do foco da influenza A (H1N1), a gripe suína.

Mesmo com inúmeras denúncias de toneladas de excrementos suínos despejados nos rios e lagos, da dizimação de peixes por intoxicação, de uma explosão de infecção respiratória na região, etc. – nenhuma das instituições governamentais, municipais, estadual ou federal, ou ONGs investigaram ou denunciaram a multinacional de tal destruição ambiental e contaminação humana e animal. Além disso, a multinacional ianque usa dos mais variados mecanismos de pressão e ameaças contra seus funcionários mexicanos para abaixar os salários e aumentar a jornada de trabalho. Também é comum atrasar os salários. Vale-se da prática da demissão sumária ou agressão pura e simples aos operários que filiam-se ao sindicato da categoria. As condições de trabalho são as mais degradantes possível, sem qualquer equipamento de manuseio e de higiene – segundo denúncias publicadas no diário La Jornada, da Universidade Autônoma do México.

La Gloria tem pouco mais de 3 mil habitantes. É uma das povoações mais pobres do país. Foi aí que a maior processadora de suínos do mundo encontrou o solo fértil para a exploração da criação de suínos. Em 1994, graças às condições liberais e apoio do governo mexicano pela entrada no NAFTA, livre comércio com Estados Unidos e Canadá, as Granjas Carroll se instalou em várias localidades do país. Foi uma oportunidade para ver seus lucros irem à estratosfera uma vez que já havia sido expulsa dos estados de Virgínia e da Carolina do Norte, nos EUA, por danos ambientais e por práticas antitrabalhistas e antisindicais. No ano passado, a Smithfield Foods matou mais de 31 milhões de cabeças de porcos e produziu cerca de 3 milhões de quilogramas de carne de suínos em suas várias subsidiárias espalhadas pelo planeta. Seu faturamento global superou os 11,3 bilhões de dólares.

Os magnatas do capital ganham dos dois lados da tragédia humana, tanto na sua produção, como no que chamam de combate ao mal sem combatê-lo. O Tratado de “Livre” Comércio (Nafta) impôs várias restrições à neocolônia mexicana. Quando o vírus foi detectado, apesar de possuir especialistas sanitários de alta reputação, o país teve que enviar as amostras ao Canadá, na cidade de Winnipeg, para somente então decifrar o seu sequenciamento genômico e iniciar a produção de um antivírus em laboratório. Monopolizando assim também o antivírus. Instituições governamentais do México, EUA e Canadá (países do Nafta), multinacionais de processamento de carne suína e de biotecnologia e a grande imprensa mundial silenciavam a iminente tragédia durante vários dias até que os oligarcas encontrassem o momento adequado para divulgar a contaminação e o remedia da suposta cura. Lucra-se nas granjas incubadoras e lucra-se no combate à praga.

Os preciosos dias de conivência dos porcos magnatas da mídia, da biotecnologia e da produção deixaram a humanidade exposta ao mortal vírus que já se multiplicava a escala geométrica. A epidemia se tornou pandemia. O que poderia ter sido controlado no nascedouro, é então proclamada pela OMS como contaminação global. Anuncia a pandemia já com um pacote, ou kit, contendo um suposto antivírus. O medicamento, claro, já é patenteado, isto é, monopolizado, não podendo ser reproduzido por laboratórios nacionais. No kit da OMS estão os “zanamivir”, cuja marca comercial é “Relenza”, comercializado por Glaxo Smith Kline, e “oseltamivir”, o nosso conhecido “Tamiflu”, patenteado por Gilead Sciences Incorporations, produzido comercialmente pela Roche Holding AG. A Glaxo e a Roche são a segunda e a quarta maiores empresas farmacêuticas do planeta. Tanto o Relenza (comercializado na Europa) e o Tamiflu (comercializado no resto do planeta) são os mesmos apresentados pelo kit da OMS para a cura da gripe aviária.

A imprensa brasileira tomou partido do Tamiflu. Em poucos dias o remédio foi esgotado. O governo federal comprou preventivamente toda a sua produção nacional ao invés de produzi-lo em laboratórios estatais, para administrá-lo aos contaminados, seguindo a orientação da OMS. O principal acionista de Gilead Sciences, empresa de biotecnologia que patenteou o Tamiflu, é Donald Rumsfeld, ex-chefe do Pentágono durante o governo de George Bush filho. Rumsfeld se tornou um dos homens mais ricos do governo Bush depois que o Pentágono comprou dezenas de milhões de doses do remédio do laboratório para medicar preventivamente as tropas do exército ianque nas invasões do Iraque e Afeganistão, em 2005. Com essas vendas a Gilead Sciences, que fica com 22% das vendas da Roche por meio de /royalties/, embolsou 1 bilhão de  dólares, segundo a CNN.

É o sistema dominante. Enquanto a exploração das multinacionais continua nos criadouros, também continua crescendo a demanda por remédios explorados pelas multinacionais para limpar a própria sujeira. Tudo maquiavelicamente conduzido pelos porcos magnatas da vida e da morte. Em plena crise global e acentuada corrida pela redução de custos de produção e degradação do trabalhador, os magnatas da produção e comercialização dos derivados de carne suína avançam na periferia do sistema, em parte pela redução temporária do preço, em parte pela intensa propaganda da mídia global de que a carne não está contaminada. Os magnatas da biotecnologia e dos fármacos por sua vez riem à toa. Acabaram os estoques daqueles remédios e as encomendas não param de crescer. As ações nas bolsas, ao contrário de todos os outros setores, estão disparando no ritmo do crescimento da contaminação que,  na realidade, deveriam combater.


José Tafarel