Zezita Matos e o Quebra-Quilos

Há mais ou menos 50 anos, uma jovem paraibana apresentava às Ligas Camponesas a realidade do Brasil da época. Como mesmo disse, “conscientizar” era o objetivo da juventude comunista na qual militava. 50 anos depois ela continua representando a luta do povo brasileiro nos palcos com a peça que coincidentemente traz lembranças de sua iniciação no teatro, a peça Quebra-quilos, de Márcio Marciano, sobre a revolta de Quebra-quilos que em 1874 tomava o nordeste. Essa jovem atriz e militante comunista de que falo é hoje a atriz de teatro e cinema, e também professora Zezita Matos, que concedeu uma entrevista ao Jornal INVERTA.


IN - Você poderia falar um pouco do espetáculo Quebra-quilos?

ZM - O Quebra-quilos foi o primeiro espetáculo do Coletivo de Teatro Alfenim. O Coletivo de teatro Alfenim foi criado exatamente há dois anos, e a primeira montagem está sendo o Quebra-quilos. É um espetáculo que fala de uma revolta que aconteceu em 1874 e que não é conhecida na história da Paraíba. Aconteceu na Paraíba, em Pernambuco e também no Rio Grande do Norte, mas o maior reduto foi exatamente a Paraíba, Campina Grande, Areia, é o que a gente trata no nosso espetáculo. É um episódio da Paraíba, mas que nas escolas não é tratado, apenas é citado em algum livro de história. Aqui mesmo no Rio, a jornalista que fazia divulgação, quando acabou o espetáculo, ela estava bastante emocionada, o pai dela é paraibano, e ela chegou e disse: “Eu estou impressionada, como é que eu não conheço nada da história da família do meu pai”. E essa é uma frase recorrente, tanto na Paraíba como nos demais estados por onde nós já levamos o espetáculo. Fizemos para o grupo jovem do MST lá da Paraíba, dos assentamentos, foi um dos melhores que já fizemos, e nós fizemos porque essa proposta do nosso grupo pode ser apresentada só algumas cenas, como espaço não dava, mas o pessoal do MST vibrou, foi lindo o diálogo, estou falando de uma revolução, de um momento de luta do povo brasileiro, e este me traz a história dos meus 50 anos que comecei fazendo teatro para o povo com as Ligas Camponesas em Sapé, em João Pessoa, em Miriri, nas cidades de Guarabira, Rio Tinto, então eu fiquei bastante emocionada e realmente há uma identificação das pessoas com história como ela é contada.

 

IN -Você pode falar um pouco da dialética, como vocês trabalham com ela?

ZM - Olha, a gente está acostumado com o teatro de uma visão e de uma formação aristotélica, onde a peça tem começo, meio e fim. A nossa história não se faz dessa forma, a nossa história é contada por episódios vividos, a gente tem um olhar do que as pessoas sofreram com a revolta e com a imposição das medidas, a gente não faz uma revolução em cena, apesar de a gente revolucionar a forma de fazer teatro, contando a história do Quebra-quilos, então você vê a história do Quebra-quilos através das pessoas que viveram, trazemos os problemas sociais, a questão dos negros alforriados, a questão dos senhores de engenho, que monopolizava e continua. Isso tudo é um trabalho Brechtiano, a gente faz um estudo em teatro épico, lendo as obras de Brecht e estudando.

 

 

IN - Que personagem você está desempenhando?

ZM - A personagem é exatamente uma mãe e uma filha que sofre toda a repressão do latifúndio e que o marido é um dos Quebra-quilos, que morreu e elas, fugindo da fazenda, vão para a cidade. E na cidade veem e vão encontrando os mesmos dilemas que viviam lá no campo.

 

IN - E esse é um teatro de memória viva?

ZM - Sim, porque o teatro épico faz essa reflexão, tem esse objetivo, trazer os problemas que existiam antes e que ainda continuam. E para mim esse é o grande lance. Essa história de dizer que a Luta de Classes acabou, isso não existe, o fim da história, isso não existe, nós estamos vivendo os mesmos problemas de sempre da exploração do homem pelo homem, não tenho uma frase melhor para dizer isso.

 

 

IN - E como está sendo a repercussão com a juventude, como você está se sentindo depois do espetáculo?

ZM - Muito forte, e todos que veem falar “interessante, vocês apontam coisas que dá vontade de chegar em casa, pesquisar e entender melhor”, porque também tem uma história, a gente não costuma fazer o juízo de valor, mas damos pistas para que as pessoas entendam, não damos uma resposta gratuita, eu diria com permissão dos meus colegas, é um teatro panfletário sem ser panfletário, a gente não dá nem o que é certo nem o que é errado, a gente mostra a atitude do ser humano, às vezes ambígua, mas sempre política, que recua, avança, é a questão da própria dialética da vida do ser humano.

 

 

IN - Você acha que hoje está faltando, por parte dos organismos responsáveis oficiais do país, uma maior atenção a essa parte ligada ao desenvolvimento da cultura?

ZM - Eu diria assim, que em meus 50 anos de teatro o problema do Estado investir em cultura é o mesmo. Até nas próprias escolas, não se incentiva os alunos a irem ao teatro, não se faz teatro nas escolas, não se lê as obras dos autores nas escolas, as pessoas não se interessam. Teatro é uma das formas, uma das linguagens da cultura, então você que gosta de teatro acaba gostando de cinema. Eu digo que eu sou uma exceção, tive uma família que me ajudou porque tinha condições, se não, não teria feito carreira de teatro, e também porque ao lado do teatro, para sobreviver, pois ele não me dá condições para sobreviver, tive que ter minha carreira paralela, tive que procurar a carreira de professora.

 

 

IN - Com toda essa experiência, você não fez só teatro, mas também cinema, telenovela, você esteve presente nas diversas formas de expressão cultural que passaram a ser desenvolvidas ao longo desse período. Você tem paixão pelo teatro? Você acha que de todas essas formas de atuação que você teve, qual o peso que você dá para o teatro?

ZM - De todas as formas de linguagem que trabalhei, o cinema é encantador. É encantador porque fica, no teatro não acontece isso, o teatro é o aqui e agora. Eu gosto do teatro porque é sempre um desafio, cada noite é uma noite, cada espetáculo é um espetáculo, e porque eu falo direto ao público. Eu acho que eu não escolheria teatro, mas a forma de como entrei no teatro engajado, através da juventude comunista, fui fazer teatro porque era a forma que eu tinha de me comunicar com aqueles camponeses nos finais dos anos 50 para os anos 60, foi através dele que fui junto com as Ligas Camponesas, e hoje mais claro ainda eu vejo, é quando o teatro faz com que o outro que assistiu pense naquilo que ele ouviu, que mexa com ele, que o incomode, que ele saia dali dizendo: “O que foi essa revolta do Quebra-quilo?”, então o teatro para mim é transformar.

 

 

IN - Como é que você avalia o teatro, as artes em geral, não só no Brasil, em tempos que a cultura virou pura e simplesmente uma mercadoria?

ZM - Lutar contra isso não é fácil. Mas é isso que nós do grupo Alfenim e outros grupos também estamos propondo, porque realmente o besteirol está tomando conta, as pessoas não querem ir ao teatro para pensar, mas ir para se divertir, e isso é muito oportuno para quem está na situação, é isso que não se quer fazer. É o que eu digo, para mim, a minha utopia é que o teatro faça você pensar, refletir, ver a atitude do senhor de engenho e querer entender os senhores de engenho de hoje.

 

 

IN - Pode falar um pouco mais sobre o Coletivo de Teatro Alfenim?

ZM - Em São Paulo já fizemos uma apresentação de como o grupo trabalha, o trabalho do grupo no cotidiano, agora vamos enveredar a pesquisa sobre a ditadura. O Márcio ganhou o projeto Miriam Muniz e nós vamos nos debruçar sobre isso. “Brasil: Nunca mais” foi uma leitura obrigatória do grupo, e paralelamente vamos ler Machado de Assis, ainda é uma incógnita como o Márcio vai fazer essa relação. Já fizemos em São Paulo um pequeno improviso, e foi interessante, pois improvisamos mesmo, ele só foi nos dar as diretrizes lá em São Paulo, mas foi muito forte. Foram três níveis. Ao nível pessoal, quanto a minha história em 1964, no golpe, e uma outra colega do grupo que tinha lido um relato de alguém que foi torturado, e o outro menino também fez leitura de alguém que foi torturado, mas ele transpôs para a vida dele, a relação com o pai. Ficou muito interessante esses três níveis.

 

 

IN - Fale um pouco sobre os trabalhos anteriores?

ZM - Eu trabalho no centro universitário, sou professora há 30 anos, para sobreviver e fazer teatro. E no meu percurso como atriz fiz há 40 anos “Menino de Engenho”, foi um prêmio fazer, porque é de José Lins do Rego. E os anos passaram, e em 2000, 1999, um cineasta paraibano me convidou para fazer um curta, muito interessante, “A canga”, é um curta muito forte, ganhou vários prêmios, que é a história da família que é subjugada para trabalhar, a mulher é quem puxa o arado. Depois de “A canga” fui convidada para fazer “Cinema, Aspirinas e Urubus”, que também é um filme que ganhou muitos prêmios, é uma pontinha, mas muito bonita que trata da questão da amizade dos seres humanos, a questão do nordestino, levanta uma polêmica muito grande e eu acho muito boa. E depois “O céu de Suely”, que é outra obra que fala da relação da mulher, muito boa, o filme teve o privilégio de ganhar como melhor atriz coadjuvante, a menina que faz o papel principal já tirou vários prêmios. Recentemente eu fiz um curta com um menino lá da universidade, primeiro curta dele, e deu certo, mais filosófico e tal, mas trata também sobre o ser humano, é uma visão que pode ser questionada, fiz “Baixio das Bestas”, que trata da relação do homem lá do interior de Pernambuco, da Cana-de-açúcar, traz uns questionamentos e é um filme interessante. Tem também o lançamento de mais dois e vamos aguardar.

 

 

Aluísio Bevilaqua e Cesar Prata

Giuseppe Marcello mastrangelo
Giuseppe Marcello mastrangelo disse:
13/01/2011 17h31
Uma atriz inefável!... Uma idiossincrasia cheia de talento, conteúdo e contexto plausível!... Uma artísta cosmopolita!... Trabelhei com ZEZITA MATOS na peça teatral VENTO DO AMANHECER EM MACAMBIRA!... Aplausos para a dama do teatro do Estado da Paraíba.
Maria do Carmo Santos Almeida
Maria do Carmo Santos Almeida disse:
13/01/2011 17h31
Convidada por um militante da consulta popular, tive o prazer de assistir a peça do quebra quilos, fiquei bastante emocionada com a interpretação de todo o elenco. Estão de parabéns. Sentí falta de divulgação. Sei que existe problemas com o patrocinio. Mas a fama com certeza ja chegou para este grupo, pelo tema escolhido. e pela qualidade na interpretação. PARABÉNS
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