FARC-EP liberta prisioneiros de guerra

Sobram argumentos em todos os âmbitos sobre a necessidade de um Acordo Humanitário na Colômbia como um possível passo para a solução do conflito armado, apesar de sabermos que a paz neste país só será realmente alcançada quando houver justiça social. Ao mesmo tempo, percebemos uma enorme ausência de vontade política para gerar este intercâmbio humanitário, assim como a possibilidade de diálogo entre o Governo Nacional colombiano e as FARC-EP.

FARC-EP liberta prisioneiros de guerra

 

Sobram argumentos em todos os âmbitos sobre a necessidade de um Acordo Humanitário na Colômbia como um possível passo para a solução do conflito armado, apesar de sabermos que a paz neste país só será realmente alcançada quando houver justiça social. Ao mesmo tempo, percebemos uma enorme ausência de vontade política para gerar este intercâmbio humanitário, assim como a possibilidade de diálogo entre o Governo Nacional colombiano e as FARC-EP.

A importância de um intercâmbio humanitário radica em que desta maneira, tanto os retidos pelas FARC, como os guerrilheiros presos nos cárceres colombianos correm menos perigo de vida do que durante a realização de uma libertação unilateral ou de um resgate militar, que poderia representar grandes riscos para os participantes no processo.

Com o passar do tempo, os governos de turno não têm conseguido uma solução definitiva para este problema. Andrés Pastrana, presidente entre 1998 e 2002, a ponto de abandonar o cargo, cortou relações com as FARC e o Exército de Libertação Nacional (ELN). O atual governo colombiano de Álvaro Uribe, tem mantido o lema de que iniciar uma política de intercâmbio humanitário entre o Estado e a guerrilha é impossível nos âmbitos: jurídico, político e humanitário, dificultando todos os processos iniciados pela guerrilha e que contavam com o apoio da comunidade internacional para a viabilização da mesma.

 

Retrospectiva sobre o processo iniciado unilateralmente pelas FARC-EP com o apoio da comunidade internacional


Pouco se falava sobre o tema até que três militares estadunidenses e a candidata presidencial da Colômbia Ingrid Betancourt fizeram parte da lista de retidos pelas FARC.

Diante desta situação, a pressão política aumentou com o passar dos anos, principalmente por parte dos governos dos EUA e França, particularmente do atual presidente, Nicolás Sarkozy.

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, colocou o território de seu país à disposição, em meados de agosto de 2007, para executar um eventual intercâmbio humanitário entre o governo colombiano, as FARC e o grupo de trabalho liderado pela senadora colombiana Piedad Córdoba.

Dito anúncio foi o ponto de partida para uma participação positiva do presidente venezuelano, que depois foi requerida pela própria guerrilha, no processo de busca para um acordo de paz.

Durante este período, foram realizadas várias reuniões entre os familiares dos retidos com o presidente venezuelano. Chávez foi amplamente reconhecido por seu gesto.

Em dezembro de 2007 estava pautada uma libertação, que terminou não sendo realizada naquele momento. Porém, em 10 de janeiro de 2008, em um gesto unilateral, foi realizada a libertação de Clara Rojas e Consuelo González de Perdomo. Esta libertação unilateral demonstrou a vontade política por parte das FARC em avançar no caminho da paz e da resolução do conflito.

Em março de 2008, o Exército colombiano atacou um acampamento das FARC em território equatoriano, com um saldo de 26 mortos, incluindo ao comandante da guerrilha, Raúl Reyes, fato que foi justificado por Uribe e que gerou uma ruptura das relações bilaterais entre a Colômbia e o Equador. Este episódio também afetou as relações com o governo da Venezuela, já que o diretor da Polícia Nacional da Colômbia, general Óscar Naranjo, acusou ao presidente venezuelano de estar vinculado com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, que foram imediatamente desmentidas pelo mesmo. A administração do presidente George W. Bush, coincidiu com estas acusações, em apoio ao seu aliado Uribe.

Em 2 de julho de 2008, em uma ação “cinematográfica” do exército colombiano, foi realizado um resgate militar da ex-candidata a presidente Ingrid Betancourt e de mais 14 prisioneiros das FARC-EP, entre estes, os 3 norte-americanos, agentes da CIA. Esta libertação se configurou como um grande espetáculo da mídia, que buscou enfraquecer a imagem da guerrilha mais antiga da América Latina.

Com o anúncio da morte natural do líder histórico das FARC Manuel “Tirofijo” Marulanda, muitos especularam sobre a continuidade da intenção da realização de um acordo humanitário. Especulou-se também sobre a manutenção da própria guerrilha. No entanto, a nova condução por Alfonso Cano demonstrou que as FARC persistem na vontade do gesto unilateral para forçar ao governo de Álvaro Uribe a realizar o intercâmbio humanitário e, também, a abertura de um processo de garantias políticas para atingir a paz no país.

 

A recente libertação unilateral


Em 21 de dezembro de 2008 foi anunciada a libertação de quatro membros da Força Pública e também de dois civis, entre os quais estavam Alan Jara, ex-governador de Meta e Sigifredo López, ex-deputado da Asemblea del Valle, a pedido do Movimento autodenominado de Colombianos/as pela Paz, organização liderada pela incansável Piedad Córdoba, Iván Cepeda, Jorge Enrique Botero e uma lista importante de outras personalidades. A princípio a participação da senadora Piedad Córdoba foi negada por considerar que ela participava neste ato humanitário com “interesses políticos”. Depois, a parlamentar foi autorizada como mediadora da libertação, por solicitação da guerrilha.

Estas libertações, que foram produzidas nos dias 1º e 3 de fevereiro de 2009, são o resultado de “um diálogo da sociedade civil, de um grupo epistolar de intelectuais colombianos com as FARC”, disse Carlos Lozano, jornalista e facilitador do acordo humanitário.

Foi através de duas cartas que o grupo de intelectuais e a guerrilha trocaram que produziu um diálogo que abriu a possibilidade das novas libertações.

Em ditas conversas escritas, foram expostas tanto a situação dos retidos como dos mais de 500 guerrilheiros presos, que têm sido muito pouco tomados em conta. Em resposta aos pontos propostos, o grupo armado assumiu este gesto de libertações “que poderia abrir o caminho para possíveis soluções pacíficas e políticas do conflito armado com a ante-sala de um intercâmbio humanitário”, explicou Carlos Lozano. Segundo ele, “isto vai em direção não apenas do intercâmbio humanitário, senão também de possíveis diálogos de paz, de aproximações entre o Governo colombiano e a guerrilha” para solucionar esta situação que vive o país.

 

O governo de Álvaro Uribe


Os fatos que derivaram na recente operação humanitária unilateral nos permitiram conhecer uma vez mais o mal-intencionado, provocador e violento comportamento do presidente Álvaro Uribe. Enquanto estavam sendo realizados os preparativos para a libertação dos reféns, o Ministro de Defesa, Juan Manuel Santos, havia autorizado sobrevôos na zona onde se produziu o encontro entre os comissionados das FARC e a Comissão de Garantes, integrada pela senadora Piedad Córdoba, os jornalistas Daniel Samper Pizano e Jorge Enrique Botero, e também por membros da Cruz Vermelha Internacional. E não somente foram os sobrevôos, que por certo começaram nas primeiras horas do dia 1º de fevereiro, inclusive, na presença da Comissão de Garantes, senão que foram as perseguições e as ordens dadas por partes de altos comandos militares que pediam identificar por terra as coordenadas de onde poderia estar o helicóptero que o Governo do Brasil tinha facilitado para o sucesso da operação humanitária.

Diante dos constantes sobrevôos e pelo temor e a desconfiança é que o jornalista Jorge Enrique Botero decide denunciar através do canal multi-estatal TeleSur, acusado pela Casa de Nariño de “TeleFARC”, ao vivo, o comportamento traiçoeiro e obstaculizador do governo de Uribe para que estas libertações se concretizassem. Este havia garantido ao Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) e, particularmente a Christopher Barry, que para facilitar o gesto humanitário do Secretariado das FARC não seria realizado durante o cumprimento da operação nenhum sobrevôo. Até aqui está bem claro que quem rompe com o protocolo do acordado é o governo do Presidente Álvaro Uribe.

As perseguições realizadas por terra durante este mesmo momento geraram confrontos entre guerrilheiros e militares, resultando na desaparição de um guerrilheiro e na morte de outro.

Ao autorizar os sobrevôos o governo Uribe buscava criar uma situação de conflito onde pudesse deslegitimar ao Movimento de Colombianos/as pela Paz como interlocutor válido e como expressão da sociedade civil na busca a médio e longo prazo de uma resolução ao conflito na Colômbia, e, em curto prazo, evitar que dito movimento se transforme em um espaço que aglutine a diversas expressões sociais e que termine pressionando por um Acordo Humanitário, um inamovível ao que parece para o atual governo. Também, propiciar a não concessão de nenhum espaço político real à insurgência das FARC e, por tanto, negar ou evitar ao máximo que qualquer ator, nacional ou estrangeiro, possa contribuir a abrir espaços de interlocução política; evitar que as FARC possam dar sua visão do conflito e que se difunda o conteúdo programático de sua proposta; enviar uma mensagem à sociedade de que contra as FARC não existe outra saída que não seja a derrota militar, o que reafirma a Política de Segurança Democrática e a ideia de que sem Uribe esta não será a mesma. Finalmente, de propiciar que as libertações continuem ocorrendo através do mecanismo de deserções, traições e infiltrações de membros das FARC, de operações como a “Xeque -Mate” ou pressionando aquelas zonas onde se sabe que os reféns possam estar.

 

Os presos políticos


Felizmente a libertação unilateral foi um sucesso, e não se transformou em um banho de sangue como provavelmente esperava o governo Uribe. As FARC-EP cumpriram com sua parte no acordo, apesar das dificuldades e dos obstáculos impostos pelo governo durante a realização da entrega dos retidos. A guerrilha mantém o canal aberto para a realização de outros intercâmbios humanitários, já Uribe, no dia 14 de fevereiro disse que “o único acordo humanitário que se aceita é que libertem unilateralmente e de imediato a todos os sequestrados”.

As FARC propõem um intercâmbio de 22 policiais e militares em seu poder por 500 guerrilheiros presos, incluídos “Simón Trinidad” e “Sonia”, que estão presos nos Estados Unidos.


Liberdade para os presos políticos do Império!

Liberdade para Simón Trinidad e Sonia!


Camila Rocha