O segundo turno em São Paulo

O segundo turno em capitais como o Rio de Janeiro e São Paulo representa uma luta entre as oligarquias e a base aliada do governo Lula, que independente de suas intenções, representa um grito de revolta dos mais desassistidos e da camada do proletariado mais pobre. Essa base enfrenta dificuldades nas regiões Sudeste e Sul, que reunidas possuem quase todo o PIB (Produto Interno Bruto), e grandes parcelas do proletariado nacional.

O segundo turno em São Paulo

 

Nas cidades de médio e grande porte, onde grandes indústrias estão instaladas, ou mesmos cidades menores, mas vinculadas a estas (as chamadas “cidades dormitórios”, que fornecem a mão-de-obra), a rejeição as candidaturas ligadas à política neoliberal fica evidente. As candidaturas que estão vinculadas às políticas compensatórias do governo Lula, principalmente PT, PSB e PDT, ganharam as eleições ou, pelo menos, as empurraram para 2º turno. O PT, por exemplo, conquistou 61 cidades, e está indo para o segundo turno em 6 grandes cidades, entre elas a capital. Nas 21 maiores cidades de São Paulo (aquelas com mais de 200 mil eleitores), representando 15,5 milhões de votos, mais da metade do estado, a resistência às candidaturas ligadas diretamente ao poder econômico aparece bem definida. A divisão fica ainda mais clara se observar os bairros centrais e os da periferia destas cidades.

No ABC, onde as grandes indústrias metalúrgicas predominam, o PT e aliados receberam votação inédita. Na região, o PT obteve exatamente o dobro de votos transferidos ao PSDB. Em Diadema, por exemplo, o PT levou no primeiro turno, coisa que não conseguiu há várias eleições apesar de estar mais de 20 anos no governo. Em Santo André, onde já administra, em São Bernardo (sob o comando do ex-ministro Luiz Marinho), coisa que busca há duas décadas, e em Mauá, obtiveram 48,9%, 48,2% e 48,1%, respectivamente, o que, aliado a possibilidade de alianças dentro da base do governo Lula, praticamente definirá a vitória. Em Guarulhos, segunda maior cidade do Estado, Sebastião Almeida (PT) venceu as eleições. Nos bairros proletários destas cidades, a diferença é mais arrasadora.

Na capital, o palco maior para a disputa presidencial de 2010, onde estão concentrados mais de 8 milhões de votos, um quarto do Estado, a polarização também está evidente. Nos bairros operários, onde as conseqüências da política de terror neoliberal (falta de hospitais, escolas, transporte, infra-estrutura, etc. E a violência faz seus mortos toda hora) são sentidas no dia a dia, o PT e aliados da política compensatória, sob o comando de Marta Suplicy, ganharam com relativa folga os candidatos neoliberais camuflados Gilberto Kassab (PFL) e Geraldo Alckmin (PSDB), alcançando cerca de 70% dos votos em determinados bairros, como Parelheiros (69,91%) e Grajaú (68,4%), na zona Sul. Nos bairros da chamada classe média e alta, concentrados na região central, a maior parte dos votos concentrou-se nos candidatos neoliberais, principalmente em Kassab, atual prefeito e candidato do atual chefe do neoliberalismo paulista, o governador José Serra (PSDB). No Jd. Paulista, bairro “nobre” onde atingiu sua melhor marca, Kassab arrematou 48,37% dos votos no primeiro turno.

O arco de alianças de Kassab na capital lhe foi favorável, pois a disputa travada com Alckmin, que obteve 23%, na tentativa de levar as eleições ao segundo turno foi só briga de comadres, como definiu Maluf. Apesar da rejeição ao neoliberalismo, Marta continuou vacilando, não fazendo qualquer crítica à política neoliberal, sequer por marketing, em sua campanha. Isto aliado às alianças possíveis que Kassab e a máquina do Estado abraçaram, acabaram inviabilizando a vitória de Marta. Com a ida de seu candidato (Kassab) ao segundo turno, o que para as pesquisas eleitorais era impossível, José Serra -que não apoiou o candidato do seu próprio partido para não criar mais um concorrente interno (além de Aécio Neves) às suas pretensões palacianas- se tornou a grande força neoliberal do estado para enfrentar o sucessor de Lula ao governo federal, em 2010, dentro e fora do seu partido.

A necessidade de ampliar o leque de alianças partidárias no 2° turno vai empurrar a esquerda institucional mais a direita ainda. Quanto mais a direita o PT se dirige, mas ele se afasta da vitória nos grandes centros urbanos. Marta e o PT paulista olham o mapa eleitoral, onde está claro como a luz do dia que os proletários dos bairros operários lhe deram a gigantesca maioria dos votos por ver nela a oposição, para concluírem que falta negociar ainda mais com a classe alta, dos bairros nobres. Os bairros proletários foram pintados de vermelho na expectativa da candidatura de Marta pudesse neutralizar a política neoliberal, mas ela acreditou que falta é elogiar banqueiros, empresários e empreiteiras nos bairros nobre para ganhar a eleição.

Está claro para nós que Kassab e Serra são do núcleo central e duro do neoliberalismo de São Paulo, que eles são do núcleo de facínoras do imperialismo aqui em São Paulo. A vitória de Kassab-Serra, além do aprofundamento da política de terror neoliberal (privatização do Metrô e dos demais patrimônios), vai fortalecer a reação das oligarquias dominantes contra os governos anti-neoliberais vitoriosos em nosso continente. Apesar do afastamento de Marta e do próprio governo Lula de políticas sociais de enfrentamento dos “fundamentos” do terror neoliberal o ajuste fiscal (onde o dinheiro sai das obras sociais na periferia para bancar juros bancários), a propriedade privada sobre todos os serviços e setores públicos, a desregulamentação de qualquer controle social sobre qualquer coisa, tínhamos indicado o voto em Marta para que a política neoliberal, já que não é possível combatê-la em termos eleitorais, não se aprofundasse ainda mais.

 

José Tafarel