Crise dos EUA estoura: estatização e quebras revelam superprodução

O Lehman Brothers, o 4º maior banco de investimentos do país pediu concordata, o 3º maior, o Merril Lynch, é comprado pelo Bank of America por US$ 50 bilhões. A seguradora AIG recebeu US$ 40 bi do Banco Central dos EUA. Só estes eventos revelam a crise pela qual passa o centro do capitalismo no mundo.

Crise dos EUA estoura: estatização e quebras revelam superprodução


No dia 7 de setembro, o Estado dos EUA assumiu o controle, por US$ 200 bilhões, dos dois maiores bancos de hipotecas do país: o FannieMae e o FreddyMac. Juntos, eles detêm 50% do total de  hipotecas, ou US$ 5,3 trilhões em financiamentos – cerca de 5 vezes o PIB do Brasil. O setor deverá ser depois devolvido à iniciativa privada e a conta será paga pelos cidadãos dos EUA e por todos os povos explorados pelo imperialismo estadunidense no mundo.

Nem isso, no entanto, foi suficiente para estancar a crise no centro dinâmico do capitalismo mundial, onde os gigantes seguem quebrando e o capital continua a se centralizar ainda mais. No dia 15, o Lehman Brothers,  4º maior banco de investimentos dos EUA, pediu concordata, seguido do anúncio de compra do 3º maior, o Merril Lynch, pelo Bank of America por US$ 50 bilhões. A seguradora American International Group (AIG) solicitou ainda auxílio de US$ 40 bilhões ao FED (Banco Central dos EUA).

Os EUA já tinham sofrido em agosto a segunda maior quebra de sua história, do banco IndyMac, quinta entidade a falir enquanto que o sistema financeiro mundial tem registrado prejuízos significativos. Deseperado, o FED abriu linha de crédito direta de US$ 200 bilhões, além da linha de US$ 70 bilhões criada por um grupo de 10 bancos internacionais.

Quase toda a economia do país está vinculada ao setor estatizado: as hipotecas são financiamento (crédito) de longo prazo para o mercado imobiliário, tendo como garantia os próprios imóveis financiados. Como a maior parte dos bancos privados capta recursos no curto prazo, há um descasamento de prazos que os obriga a pedir empréstimos interbancários com os bancos hipotecários. Assim, a quebra do FannieMae e do FreddyMac aceleraria a quebra de outros bancos. 

A subida gradual dos juros pelo FED (Banco Central dos EUA) não foi suficiente para resolver o excesso de crédito, visível no índice inflacionário de 6% registrado neste ano – maior alta desde 1991. Ao contrário, diminuiu as aplicações na economia real, causando queda generalizada de preços que, além de contra-medida para combater a inflação, significou também a queda dos preços dos imóveis dados como garantia para o crédito hipotecário. No 2º trimestre, os preços dos imóveis nos EUA tiveram queda-recorde de 15,4%.

Na realidade, a crise nos EUA iniciou-se como crise de superprodução no setor imobiliário, com a queda de 23,4% nas vendas em 2007. Manifestou-se portanto no mercado de crédito imobiliário, mas pode se alastrar por toda a economia, já que é fruto da contradição essencial entre a produção social pelos trabalhadores e a apropriação privada por um punhado cada vez menor de capitalistas, que engendra crises de superprodução não apenas no mercado imobiliário. O remédio, nesse caso, só piora a doença: a redução do crédito tem ainda impacto sobre a renda (que já caiu 3%), e caminhará junto à concentração da mesma. Hoje, 450 mil pessoas pedem seguro-desemprego nos EUA por semana.

Todos os outros bancos já estão também podres e descolados da base produtiva do país, ampliada pela produção transnacionalizada à custa de todos os povos do mundo. Hoje, os ativos financeiros (papel-moeda, crédito, títulos) existentes no mundo e seus derivativos são 12 vezes superiores ao PIB mundial. O tal descasamento de prazos reflete justamente o descompasso entre o volume do crédito e as mercadorias existentes. Hoje, 9% dos estadunidenses estão com as hipotecas atrasadas e podem perder suas casas.

Ao assumir temporariamente o controle dos dois bancos, os EUA pretendem reduzir o descompasso entre o volume de crédito já oferecido e a economia real. A decisão demonstra o desespero em mantê-los funcionando, para evitar a quebra do mercado imobiliário do país, criando uma contra-tendência que evite que a atual crise hipotecária seja o estopim da manifestação de uma crise de superprodução, estrutural e generalizada, análoga a de 1929. Ou, nas palavras de Bush: “Colocar essas companhias em condições financeiras sólidas e reformar suas práticas comerciais é crítico para a saúde do nosso sistema financeiro”.

Enquanto pregam a liberalização econômica para todos os nossos países, os EUA regulamentam setores estratégicos de sua economia. Pode parecer um paradoxo, mas não é: sua cartilha é a liberalização para os povos oprimidos - para melhor poder oprimí-los, aumentando a massa de lucros e adiando a manifestação da crise estrutural - e pulso firme dentro dos próprios EUA, para justamente aumentar a massa de lucros e adiar a manifestação da crise estrutural. As bolsas mundiais responderam à recente nacionalização, fechando em alta de 3%. Para Kenneth Rogoff, ex-funcionário do FMI, porém, “o pior ainda está por vir”.

 

 

Marina Machado