Um Círculo de Fogo sobre a América Latina

Esta estratégia de visível fracasso dos EUA, apoiada pela União Européia e Japão, o que se configurou nomeadamente de TRILATERAL, tomou curso nos anos 70 do século passado, diante da crise estrutural que se apresentou na época, anunciando um ponto final na estratégia econômica que possibilitou a reestruturação e a acumulação de capital do sistema, durante a guerra-fria - o keynesianismo, onde o estado regulava o mercado, tanto através do planejamento econômico, como através dos monopólios estatais. A crise estrutural que denunciou o esgotamento do keynesianismo, a crise energética, demonstrou a grande deformação do sistema nos EUA: o complexo industrial-militar. O mesmo apresentou-se do outro lado, no sistema socialista, na URSS, cujo desaparecimento trágico no início dos anos 90, desvelou a situação real do sistema capitalista que chegou aos dias atuais.

Um Círculo de Fogo sobre a América Latina

 

Esta estratégia de visível fracasso dos EUA, apoiada pela União Européia e Japão, o que se configurou nomeadamente de TRILATERAL, tomou curso nos anos 70 do século passado, diante da crise estrutural que se apresentou na época, anunciando um ponto final na estratégia econômica que possibilitou a reestruturação e a acumulação de capital do sistema, durante a guerra-fria - o keynesianismo, onde o estado regulava o mercado, tanto através do planejamento econômico, como através dos monopólios estatais. A crise estrutural que denunciou o esgotamento do keynesianismo, a crise energética, demonstrou a grande deformação do sistema nos EUA: o complexo industrial-militar. O mesmo apresentou-se do outro lado, no sistema socialista, na URSS, cujo desaparecimento trágico no início dos anos 90, desvelou a situação real do sistema capitalista que chegou aos dias atuais.

Com o esgotamento do keynesianismo tomou curso o neoliberalismo como doutrina econômica oficial do imperialismo em todas as partes do mundo. Este processo de mudança da estratégia econômica levou a uma mudança da estratégia política, passando à democracia liberal e à corrida armamentista ao auge com a estratégia da Guerra nas Estrelas. A tróica Ronald Reagan (EUA), Margareth Thatcher (Inglaterra) e Helmut Kohl (Alemanha) dirigiu com maestria todo o processo estratégico do imperialismo, nos anos 80, montando o círculo de fogo em volta do que outrora se traduziu de Campo Socialista do Leste, tendo por alvo central a URSS, conduzindo-a ao desmoronamento. O livro autobiográfico da “Dama de Ferro”, que Fidel fez questão de citar várias passagens, mostra bem esta trama.

Contudo, uma contradição principal se desenvolveu em todo este processo e é ela a responsável pelo fracasso da estratégia atual do imperialismo e da crise geral do sistema que indica a formação de um novo círculo de fogo criado pelos EUA e a União Européia na América Latina, cujo o alvo principal é o Brasil, ao contrário do que todos imaginam, levando em conta as transformações ocorridas na mesma em termos políticos – a onda revolucionária por que passa na última década cuja expressão mais simbólica é a revolução bolivariana, na Venezuela. A contradição principal da estratégia contra-revolucionária do imperialismo é de modo geral o fato de sustentar o processo de desestruturação do socialismo – como base de ampliação de mercado para acumulação capitalista – no complexo industrial militar, levando-o ao paroxismo e conduzindo a crise energética a um nível insustentável, como se pode observar, por um lado, pelos apagões em estados importantes como Califórnia, nos EUA, e por outro, nos preços atuais do barril de petróleo; sobretudo, o esgotamento das reservas mundias e/ou a destruição do planeta.

Não é tão difícil entender este fenômeno social. Basta entender que a corrida armamentista levou o complexo industrial-militar a realizar uma revolução tecnológica – que temos insistido na denominação de terceira e última fase da revolução industrial, isto é, a revolução nos mecanismos de transmissão e controle da máquina ou autômato (a fábrica). Do ponto de vista histórico e técnico, toda revolução industrial tem por base a substituição da energia muscular humana pela energia mecânica, cuja fonte fundamental se tornou o combustível fóssil, o petróleo. Com a revolução informacional ou cibernética, o processo de substituição chegou ao paroxismo, atingindo o mundo inteiro, criando massas de desempregados em escala nunca vista em toda a história. O poder de fogo dos trabalhadores, em todas as partes, declinou e a luta de classes, em termos econômicos, perdeu a importância estratégica que teve nos anos 70. As novas condições da luta de classes com a nova realidade da luta econômica dos trabalhadores, a queda da URSS e a crise na organização subjetiva da classe operária que se seguiu a mesma, em especial nos partidos comunistas, levou à globalização neoliberal e à nova corrida neocolonial e, com este processo, o desvelamento da crise geral do sistema.

Os dados estatísticos são claros: os EUA consomem um quarto de toda a produção de petróleo mundial. Os custos de produção são cada vez maiores, a economia mundial se ressente e as bolsas de valores novamente dão a tônica do processo. As tentativas de escapar da crise econômica tramada pelos agentes internacionais do imperialismo, o Fundo Monetário Internacional, o Banco Mundial, a Organização Mundial do Comércio, o G-7, o Fórum de Davos, não conseguiram deter a crise, a economia mundial está à beira de uma nova depressão, a crise alimentar já é um fato, a crise ambiental outro, a pobreza e a miséria ofendem a consciência humana, a violência e a degradação moral vêm de cima a baixo nas classes sociais. O fracasso da estratégia econômica do imperialismo e sua globalização neoliberal são um fato e com ela também o fracasso da estratégia política de democracia liberal.

A mudança nas condições da luta de classes, em termos econômicos, a crise na organização subjetiva dos trabalhadores, a crise do marxismo (no sentido de Lênin), diante da ofensiva da contra-revolução mundial do imperialismo fez com que os trabalhadores levassem a luta de classes a um patamar mais elevado, ou seja, à luta direta contra aquilo que se traduz na expressão da globalização: o ressurgimento da luta armada no México (Zapatistas), a guerrilha das FARC-EP e ELN na Colômbia, a revolução congolesa de Kabila, a tomada da embaixada do Japão pelo MRTA no Peru, a vitória da guerra de independência no Timor Leste, a luta armada do PCML no Nepal; e que se fizeram acompanhar das manifestações contra os fóruns, articulações e monopólios internacionais capitalistas e imperialistas (em Davos, Seattle, Gotemburgo, Argentina, Roma, etc.); e todo este processo passa a se alimentar, por um lado, na resistência dos países socialistas, como Cuba, Coréia do Norte, Iugoslávia, e, por outro, na resistência ao imperialismo dos países islâmicos, Iraque, Irã, Líbia, etc. Esta resistência chega ao episódio do 11 de Setembro com o ataque ao World Trade Center, em Nova Iorque e ao Pentágono, em Washington, EUA.

Neste contexto, o imperialismo muda de estratégia e passa da diplomacia neoliberal à guerra, revela o fracasso da estratégia da democracia liberal, e legitima o golpe que levou George W. Bush à presidência dos EUA. A partir deste momento passa abertamente a apoiar a política de golpes em todas as partes (Venezuela, Nigéria, Haiti, etc.), desencadeando a guerra contra o Afeganistão e o Iraque, países fundamentais para o suprimento de petróleo à sua economia, como já havia feito com a Iugoslávia. Desde 11 de Setembro aumentou em 20% sua presença militar no mundo. Hoje mantêm cerca de 300 mil soldados em mais de 140 países. A análise da distribuição das bases militares norte-americanas não deixa dúvidas quanto ao objetivo: domínio de mercados, fontes de matérias-primas e armas nucleares.

Mas o pior fracasso e contradição principal do sistema está em sua estratégia militar que derrotou a URSS. O projeto guerra nas estrelas ou escudo antimíssil, como produto do desenvolvimento máximo do complexo industrial militar, com o desaparecimento da URSS e do Campo Socialista do Leste Europeu, deixou os EUA com uma massa de forças produtivas desenvolvidas não consumidas, deixando, por outro lado, um rombo nas contas públicas em termos de déficit público insustentável. Stiglitz e Bilmes publicaram uma pesquisa que aponta que a guerra de Bush no Iraque custou só aos EUA 3 trilhões de dólares. Neste estudo estão apenas incluídos os gastos bélicos diretos, que se refletem no orçamento dos EUA. Mas para se chegar ao custo aproximadamente real deve-se acrescentar os custos propriamente econômicos, que não aparecem no orçamento, Stiglitz e Bilmes calculam os efeitos macroeconômicos e econômico-planetários da guerra em pelo menos outros 3 trilhões de dólares. Apenas os custos diretos da guerra de Bush já ultrapassam os das guerras do Vietnã e da Coréia somados.

O montante total, estimado de modo conservador, de 6 trilhões de dólares equivale aproximadamente ao valor de todas as reservas de ouro e divisas do mundo. Todos os meses, os EUA precisam desembolsar mais de 16 bilhões de dólares em custos correntes para as guerras do Iraque e do Afeganistão, além dos 439 bilhões de dólares do orçamento de defesa. Com a privatização da guerra, 180.000 mercenários das empresas de segurança contratados para o Iraque pelo Pentágono custam, em média, dez vezes mais do que custa um G.I. regular (soldados de infantaria) – 400.000 dólares por ano, contra 40.000. Segundo as vozes de oposição a Bush, com 1 trilhão de dólares, os EUA teriam contratado mais 15 milhões de professores, garantiriam assistência para 530 milhões de crianças, financiariam as bolsas de 43 milhões de estudantes. Teriam feito o saneamento das urbanizações miseráveis, renovariam os arruinados edifícios das escolas de todo o país.

E, assim, o imperialismo em seu cerne mergulha numa crise profunda; a crise no setor de hipotecas foi a ponta do iceberg – parafraseando Freud – o grosso mesmo está ainda por se apresentar por inteiro, como denotam o preço do barril de petróleo na casa dos 150 dólares; a corrida pelos biocombustíveis provocando uma crise alimentar, pobreza e fome; a crise ambiental que ameaça a vida no planeta e o retorno da corrida armamentista anunciando uma guerra total pelas reservas de petróleo, energias alternativas (biomassa, água, nuclear e suprimento alimentar). Neste contexto de desespero do imperialismo seguiu-se ao círculo de fogo sobre o leste europeu e a ex-URSS, o círculo sobre o Oriente Médio, dirigindo-se para o cerco central ao Cáspio (Cazaquistão), onde se encontram as maiores reservas inexploradas de petróleo; não se pode deixar de enxergar também o círculo de fogo que se fecha contra a Nossa América, e menos ainda o Brasil como alvo principal desta disposição estratégica dos EUA, diante da posição geopolítica ocupada pela Venezuela, Bolívia e Equador – face a revolução bolivariana – e os constantes e retumbantes anúncios de descobertas de reservas de petróleo, em vários pontos do litoral brasileiro, além das já reconhecidas reservas hídricas, terras cultiváveis (alimento ou biocombustível) e a biodiversidade da floresta amazônica, em 70% estão no país.

Quem tiver a curiosidade ou a preocupação estratégica com a disposição de forças dos EUA no mundo e observar seu movimento após o 11 de Setembro verá que o impasse no Oriente Médio e a resistência da Rússia ao projeto de “Escudo Antimíssil” a partir da instalações de bases militares em regiões estratégicas no território da ex-URSS, em especial no Cazaquistão para o controle do Mar Cáspio, conduzem os EUA a duas alternativas: ou avança sobre a Ásia, engolindo a China ou avança sobre a América Latina, engolindo o Brasil. “O retorno da IV Frota , após 58 anos, para patrulhar os mais de 30 países do continente, cobrindo 15,6 milhões de milhas quadradas nas águas adjacentes das Américas Central e do Sul, o mar do Caribe e suas 12 ilhas, México e os territórios europeus neste lado do Atlântico” – como noticiou a jornalista do Inverta, Tânia Castro – é uma clara sinalização para o continente. Como afirma ainda o artigo citando Fidel Castro, “os EUA têm hoje dez porta-aviões do tipo Nimitz, com capacidade de deslocamento de 101 mil a 104 mil toneladas de carga, incluindo 90 aviões de guerra e dois reatores nucleares. O último deles leva o nome de George H.W. Bush. Os Estados Unidos já contam com as frotas II, III, V, VI e VII dispersadas no Atlântico Ocidental, o Pacífico Oriental, o Oriente Médio, o Mediterrâneo e Atlântico Oriental, e o Pacífico Ocidental. Faltava apenas a IV Frota para custodiar todos os mares do planeta.”

Para nós, representa a complementação do círculo de fogo sobre o continente e, em especial, ao Brasil. Pois se considerarmos a disposição estratégica das mais de 20 bases militares na região ver-se-á claramente quem é o centro do alvo. Pensando agora, na relação histórica entre o ascenso dos democratas, ao governo dos EUA, e a ação dos republicanos em Nossa América, desde a doutrina Monroe e da política do Big Stick – em especial, o passado recente com o episódio da invasão da Baía dos Porcos, durante o Governo Kennedy – a ameaça velada pode se tornar ação concreta, tudo dependerá do resultado eleitoral, do empasse no Oriente Médio, do preço do barril de petróleo e da venalidade das oligarquias da região. Considerando tudo isto, aos povos latino-americanos cabe um papel titânico neste momento, e ao povo brasileiro, em particular os revolucionários marxistas-leninistas e aos patriotas sinceros o dever de se preparar para este confronto que se torna inexorável. Quem duvida, que se lembre do movimento em 1991 da V Frota para o Golfo Pérsico sediando-se em Bahrein até hoje. Assim começou a famosa “Tempestade no Deserto”.

Por isso conclamamos a todos a lutar por:

Fora com todas as bases militares ianques do continente!

Fora com a IV Frota ianque de nossas águas!

Liberdade para todos os presos políticos do Império!

 

Rio de Janeiro, 02 de Julho de 2008

P. I Bvilla / OC do PCML

 

 

1)    GUERRA NO IRAQUE, Quais são os custos milionários da inépcia? , Joseph  Stiglitz - Clarín (http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/custo_da_guerra_g_no_iraque.htm)
2)    Uma rede militar global, por Juan Carlos Galindo [*] (http://resistir.info/11set/rede_global.htnml - 02 julho 2002)
3)    O CUSTO DA GUERRA 6.000.000.000.000 de dólares, Michael R. Krätke (http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/custo_da_guerra.htm)
4)    Alain de Benoist, Novopress.info Portugal » Blog Archive » EUA: bases militares por todo o mundo.htm
5)    O capitalismo e a guerra, Joao Pedro stedile, dirigente do MST e da Via Campesina.
6)    O retorno da IV Frota de Intervenção dos EUA: um alerta para toda a AL, Tânia Castro (http://www.inverta.info/jornal/424/internacional/frotaeua/)
7)    A Presença Militar dos EUA no mundo, Manuel Cambeses Júnior, Coronel-Aviador R/R Conferencista Especial da Escola Superior de Guerra para Assuntos Internacionais (militar/modules.php.html)