Ocupação indígena em Niterói

O Cacique Isaías, da Aldeia Tekoa Itarypu, localizada na Praia de Camboinhas, concedeu entrevista ao Jornal INVERTA.

Ocupação indígena em Niterói


Há três meses, 38 indígenas Guaranis saíram de Paraty-Mirim e ocuparam um terreno entre a Praia de Camboinhas e a Laguna Itaipu, em Niterói, cidade da região metropolitana do Rio de Janeiro.

Eles escolheram essa área porque ela faz parte de uma área de cinco sambaquis (do tupi tamba’kï), sítios arqueológicos onde existiram cemitérios indígenas.

Essa ocupação tem tido uma forte repercussão na região e criado polêmica entre seus ricos moradores, já que esta é considerada como uma das regiões mais valorizadas do litoral do município. Muitos alegam que não sabiam da existência de povos indígenas no Brasil e tratam a questão como se estivessem lidando com algo do passado, atrasado, sem reconhecer a dívida histórica que temos com os povos indígenas e negando os direitos dos mesmos.

O Cacique Isaías, da Aldeia Tekoa Itarypu, localizada na Praia de Camboinhas, concedeu uma entrevista ao Jornal INVERTA.


IN - Primeiramente, gostaria que dissesse seu nome e contasse a história da ocupação de vocês.

IO - Meu nome é Isaías de Oliveira, em guarani Veramini, estou aqui como liderança, por enquanto, como cacique, mas estou esperando a chegada do meu irmão do Paraná, que é mais velho do que eu, para assumir esse trabalho.

Vou contar um pouco da história. Nós moramos na Aldeia em Paraty por 13 anos, mas viemos do Rio Grande do Sul.

Houve um evento indígena aqui, que contou com a participação de vários povos, Xingu, Xavante, Guarani, Caiapós, que vieram se apresentar no encontro. Descobrimos que aqui existiu um cemitério indígena, onde foram enterrados vários índios e, primeiramente, não acreditei. Mas fomos ao cemitério, cavamos, tiramos os ossos e descobrimos que era verdade, eram ossos indígenas. Voltamos para Paraty, conversamos com a comunidade, com os parentes, e decidimos vir para cá. Então, o projeto Meu Garoto Windsurfe, do Jorge, nos apoiou e doou essa terra para nós, esse local que está cercado por enquanto. Nós viemos, porque esse local era nosso. Estamos aqui morando e isso aqui vai aumentar, porque virão mais pessoas. Estamos com apoio da FUNAI, que vai demarcar essa terra para nós.


IN - Quantas pessoas estão acampadas aqui hoje?

IO - Aqui estamos em 38 pessoas, da mesma família, 12 são crianças. E vão chegar outras famílias, também, todos Guaranis, que vêm de Paraty. E virão mais do Paraná.


IN - Como está a repercussão com os moradores da região, já que este é considerado uma área nobre de Niterói?

IO - Daqui nós não saímos. Há alguns moradores reclamando, mas nós não sairemos daqui de forma alguma. Mas também existem vários moradores que nos apóiam. Já veio um funcionário do Ministério Público Federal conversar comigo, dizendo para nós sairmos daqui e irmos para outro lugar, mas eu disse a ele que não sairemos daqui de jeito nenhum. Isso aqui vai aumentar, e quanto mais gente chegar, melhor para nós.


IN - Como era a situação da terra para vocês em Paraty?

IO - Lá nós estávamos em terras demarcadas, que serão demarcadas novamente, porque a área era muito pequena e parece que vai aumentar. O nosso avô nos levou para lá do Rio Grande do Sul e ali ficamos durante 13 anos.


IN - Como é a questão da luta pela terra para o indígena?

IO - Sabemos que o indígena, todos, passa por dificuldades com relação à terra. Os brancos já levaram tudo o que podia ser levado. Agora nós temos que lutar para reconquistar outra vez os nossos direitos, e nós vamos lutar. Eu mesmo não sinto medo de morrer, se alguém quiser dar um tiro em mim tudo bem, mas eu vou morrer defendendo a minha família, vou morrer defendendo meus direitos. É só isso que nós temos. E daqui não vamos mais sair. E você pode perguntar para qualquer outro indígena de outro povo. Ele vai te responder que a vida do índio não é fácil não. É muito difícil.


IN - Quais são as dificuldades dos indígenas no Brasil?

IO - Temos dificuldades para conseguir alimentos, para coisas da própria sobrevivência. E também o desconhecimento das pessoas. Aqui no Rio mesmo, tem muita gente que não sabe que existimos. Teve um dia que eu encontrei um branco e ele, depois de ter olhado para mim, perguntou-me se ainda existiam índios. Eu respondi que sim e perguntei por quê. E ele não me respondeu. Os brancos pensam que os índios já não existem mais. Mas estamos aqui. E vamos seguir lutando. Nós sobrevivemos aqui da roça, do artesanato e da pesca. O que mais tem nos ajudado é a venda de artesanato.


IN - O que querem os povos indígenas?

IO - Queremos mostrar a nossa cultura, que é o mais importante. O Guarani nunca perdeu a cultura, então trabalhamos com isso. Aqui recebemos muita visita, gente curiosa que nem sabia que nós existíamos.


IN - Como a cultura Guarani vem resistindo?

IO - Eu tenho 22 anos, ainda estou aprendendo, mas aqueles que passaram primeiro pelas dificuldades nos dão orientação. Eu mesmo não conhecia outros povos indígenas, agora que estou entrando em contato com eles. Aprendi tudo com os parentes de Paraty-Mirim. É através da luta. Só com a luta. Nós não estamos sozinhos. Devemos seguir em frente.


Camila Rocha