Artista plástico dominicano Alfredo Pierre fala ao Jornal INVERTA

O artista plástico e revolucionário Alfredo Pierre concede entrevista ao INVERTA e nos conta como a arte deve ser utilizada como instrumento contra as classes dominantes.

Artista plástico dominicano Alfredo Pierre fala ao Jornal INVERTA


Entrevista concedida pelo artista plástico e revolucionário dominicano Alfredo Pierre ao Jornal Inverta.

Pierre nos conta como a arte deve ser utilizada como instrumento contra as classes dominantes, que inclusive muitas vezes seqüestraram-na para seu deleite individualista, mas que cabe aos revolucionários Revolução Continental. (Redação)

IN – Fale um pouco sobre a sua origem.

AP - Eu nasci em 1945, em Santo Domingo, República Dominicana. Desde muito cedo tive a sorte de que no seio de minha família, meus pais - minha mãe - era viciada em arte; ela gostava de música, inclusive estudava música, e meu pai também gostava de atividades artísticas, independente de que pudesse dizer que fosse um tipo de “burocrata”, pois trabalhava no aparelho administrativo da República Dominicana. Eram muito conseqüentes no ambiente familiar quanto à arte, não me recriminavam, e desde os 6 anos de idade meus padrinhos e familiares - que também estavam ligados à arte - me alfabetizaram na música. Eu comecei a estudar música muito cedo. Comecei a música, mas tive dificuldades, pois com cerca de 7 anos fraturei um braço, o que me impedia de treinar. Comecei firmemente na teoria musical, quando me operaram o braço, com aproximadamente 10 anos de idade, e durante a universidade eu ainda estudava música. Inclusive cursei o ensino básico em violino e parte no Conservatório, mas muitas das coisas que me definiram estavam relacionadas com o desenvolvimento político do país. Fiz o ensino secundário voltado para o ingresso na universidade. Isso era o que eu queria estudar, mas os acontecimentos na República Dominicana a partir de 1961, da queda da Ditadura, da chegada da oposição, da chegada dos comunistas, fizeram com que eu me lançasse pela corrente mais avançada, já ingressando na universidade, com a queda da ditadura de Trujillo, ao estudo político da sociedade. Devemos imaginar o que são 30 anos de ditadura, inclusive sobre as universidades, o ensino, a sociedade - o que significa uma ditadura como a de Trujillo. Com isso, saí em busca de soluções mais avançadas, com certa sensibilidade sim, mas eu ainda não era marxista, então me lancei em uma busca por conhecimento, e deixei de lado a Arquitetura, que definitivamente tem laços com as Artes Plásticas. Fui estudar Sociologia. Era necessário para o país, não só para o país, como para minha formação mais integral, dado o que foi a ditadura de Trujillo. O ensino que havia na República Dominicana durante esses 30 anos era, digamos, a escolástica, as idéias marxistas não eram se conhecidas, tampouco as idéias de toda a corrente do positivismo. A ditadura encobre tudo. Frente a isso, posterguei a Arquitetura e a Música, e entrei em outro ritmo. Entrei no Partido em 1962, e começa outro tipo de ritmo. Fui me profissionalizando, no bom termo leninista da palavra. São tarefas que começam como uma nova vida, sem rejeitar as demais. Mas você se coloca mais à disposição das necessidades, das demandas da organização, da sociedade, da conformação da vanguarda, de fortalecer essas linhas necessárias no país.

IN - Então pode-se dizer que a arte foi a forma pela qual você entrou em contato com a política?

AP - Sim.

IN - E o que é arte para você?

AP - Bem, isso é bastante complexo. A arte é uma criação dos povos, onde participa o homem, em uma dinâmica que responde a necessidades humanas. Eu vejo a arte nesse marco, não penso que a arte seja algo elitista, ou seja, dos conservatórios, das universidades, algo como “a arte nos laboratórios”. A arte é de baixo, é algo do povo, das grandes massas, que definitivamente são as criadoras. Então, você adquire consciência disso, de que você é mais um, como mais uma formiguinha na construção. A construção da arte tem relação também com a construção da humanidade, da sociedade, então pode ser difícil formular a arte como um enunciado, a arte é, digamos, a expressão do próprio desenvolvimento da humanidade, como uma necessidade que o homem alcança, e que ajuda também à auto-consciência humana. Na medida em que se adquire mais consciência e diante das tendências e práticas das classes dominantes, você também se revela contra isso e utiliza a arte como um instrumento contra esses setores, contra as classes dominantes, que inclusive muitas vezes seqüestraram a grande arte. O que necessitamos em nossa luta é libertar essa grande arte, que às vezes é patrimônio de uns poucos na sociedade de classes. Chega-se, então, a uma forma consciente sobre o papel que você desempenha, vendo o trabalho como um trabalho cotidiano, não como mais uma mercadoria para vender ou comprar no mercado. A arte tem um sentido distinto e, hoje em dia, outros a desumanizaram.

IN - A arte é uma forma fundamental de compreender o mundo, distinta da ciência. O marxismo é uma ciência. Por que você escolheu a pintura como forma de expressão? Ela tem mais força, na combinação da compreensão empírica da realidade associada à ciência marxista?

AP - Para mim, isso tem uma pequena história, que parte da militância. Desde quando comecei a militar, trabalhei sempre no Partido com a propaganda, devido a minhas vocações artísticas. No princípio, o Partido - que estava formado na Rep. Dominicana desde 1947, mas que era bastante incipiente até 1961 - tinha necessidades de propaganda no jornal, nas ruas, nos grafites, nos murais, nos cartazes, as imagens. Eu comecei a trabalhar com isso, nas ruas, com o povo, nos cartazes, na serigrafia, na gráfica e nas gravuras. Minha universidade, quanto às artes plásticas, foi o movimento social, o movimento organizado do Partido, íamos trabalhando as necessidades que tínhamos no Partido de nos expressar em imagens para desenvolvê-las em um tipo de prática. É com o Partido, com as massas, com a gente nas ruas, que me lanço sobre as próprias limitações que se impunham. O jornal do Partido usava caricaturas de fora, não usava caricaturas de dentro. Isso era uma necessidade, fazer caricaturas para o jornal do Partido. Esse é o processo, e até hoje, quando incursiono, por exemplo, no campo virtual, através do computador, o faço em função de utilizar os instrumentos para a criação artística. Qualquer época tem seus instrumentos para fazer as coisas, e o computador não vai substituir o óleo, nem o guache, nem a cáustica, nem as gravuras, mas a criação de qualquer instrumento de trabalho serve também para que o homem se expresse de forma artística em qualquer época.

IN - Quais são as últimas temáticas de seu trabalho?

AP - Em minhas mais recentes exposições, as temáticas reuniam “do virtual ao real”, mas vai além disso, pois tenho uma concepção do que é “virtual” e o que é “real” hoje em dia. Os meios de comunicação, por exemplo, que são alienantes, e considero que o computador também pode ser utilizado de outra maneira, como expressei antes. Em vez de usar o pincel, uso o mouse. Em vez de usar a tela, uso o monitor. A técnica que utilizo, no entanto, não é para substituir outra técnica, como disse. Em um primeiro momento, pode-se dizer que o que eu tratava de fazer, no caso específico do país, era experimentar. Provar que o computador pode servir também para fazer arte. Quanto à temática, às vezes foi um tanto diversa quanto à cor, à forma, aos temas. No princípio, desenvolvi muitos temas musicais, de instrumentos, de partituras, e também alguns temas de índole social, mas eu não tenho temas fixos, pois obedecem também ao momento, ao estado de ânimo, às necessidades. Também fiz algumas coisas no marco atual do que é Nossa América, do problema do imperialismo, milito na Coordenadora Continental Bolivariana. Há, então, toda uma série de problemáticas que te queimam a cabeça, para desenvolver algumas temáticas. Estou trabalhando em algumas coisas, mas meu trabalho na produção artística está relacionado com o tempo livre que eu tenha, não posso dizer que eu seja um profissional das artes plásticas, não é minha tarefa fundamental.

IN - Sua participação na arte está muito ligada à sua participação na Revolução, na luta, a suas decisões de vida. Qual é sua concepção sobre a relação entre a arte e a Revolução? A arte traz em si algo revolucionário?

AP - Sim, pois a arte é criação e a Revolução também é criação. Não podemos pensar que a política é somente ciência. A política é ciência e arte, a combinação disso, então a arte é Revolução e a política também, do ponto de vista político - não politiqueiro - é cientificamente também mudança, necessidade de Revolução. Não é por evolucionismo que o homem vai mudando a sociedade, mas em uma forma paradoxal, tudo muda concomitantemente, a arte não vai por um lado, o homem por outro e a sociedade por outro, o homem está imerso nessa dialética de mudanças. Quase esquecia de apontar, também, que as coisas sempre vão e vêm, voltam. O problema do desenho no computador, de utilizar o computador, tem algo relacionado com o problema mercantil - por um lado, o computador também ajuda na massificação da arte, compreende? A massificação da arte, no bom sentido. Então não é o óleo, ou as gravuras, ou a serigrafia que têm capacidade de se multiplicar, o que faz com que seja muito mais barato e acessível às massas, pois o capitalismo hoje te usa e reproduz no computador milhões de anúncios do Marlboro, ou de um carro, ou de uma cerveja com uma mulher, em um grande cartaz, mas esse cartaz também pode servir para a utilização da arte, e é uma coisa massiva que hoje em dia as pessoas têm direito a receber. Considero que os meios modernos também podem estar nas mãos dos revolucionários e à disposição de massificar, não para que sirvam de instrumento para a alienação. Tudo isso, e o computador, são, hoje em dia, formas de massificar e digo-lhes, inclusive, que quando comecei a militar no Partido, sempre tratei de massificar - com um mimeógrafo, com uma impressora gráfica, com serigrafia, repetindo e calcando os murais, colando, multiplicando. O trabalho do revolucionário, então, é multiplicar, reproduzir as coisas, não apenas com um critério quantitativo, mas qualitativo para quem recebe a mensagem. Parece-me, então, que faltava apontar isso - por que o computador? Porque se pode massificar sim, e não apenas do ponto de vista quantitativo, mas qualitativamente.

IN - Que mensagem você deixaria aos leitores do Inverta e aos militantes do PCML (Br), a nossos camaradas do Brasil?

AP - Aos homens e mulheres militantes do Inverta e ao povo trabalhador do Brasil, no momento atual, apesar das dificuldades pelas que passa a América Latina, ela tem uma janela aberta à utopia, a essa luta. Considero que esses companheiros que lutam todos os dias no Inverta têm, quanto ao problema da arte, um instrumento de trabalho, o jornal, a revista, que está ligado com o trabalho que eu faço, que são meios que devem cada vez mais qualificar-se a serviço do povo brasileiro e a serviço da Revolução Continental. Penso que os companheiros do Inverta estão fazendo um grande esforço para alcançar a libertação do povo brasileiro, um povo que também está submetido ao grande capital, aos grandes meios de comunicação de massa, que desvirtuam a realidade atual no Brasil. Penso que o Inverta é um desses instrumentos que estão combatendo nessa batalha que temos hoje em dia pela frente, a Batalha das Idéias.

P.I.Bvilla