Reflexões do Comandante: Fidel Castro critica discurso de Bush ante o Congresso

Fidel Castro em mais uma de suas valiosas reflexões critica discurso de George W. Bush no Congresso Americano, quando mais uma vez o presidente dos Estados Unidos, não eleito pelo povo norte-americano, deu um show de mentiras, demagogia e de falta de ética.

Reflexões do Comandante: Fidel Castro critica discurso de Bush ante o Congresso


O presidente Fidel Castro afirmou que o último discurso ante o Congresso do governante norte-americano, George W. Bush, é o pior de todos por sua demagogia, mentiras e ausência total de ética.

Num artigo titulado “A antítese da ética”, divulgado hoje, o líder da Revolução cubana expressa que “para um povo que sabe ler, escrever e que pensa, ninguém pode fazer uma crítica mais eloqüente do império que o próprio Bush”.

A Prensa Latina transmite a seguir o texto na íntegra:

A antítese da ética

Quando centenas de intelectuais que procedem de todos os continentes se reúnem em Havana para participar numa Conferência Internacional sobre o Equilíbrio do Mundo, em torno da data do nascimento de José Martí, nesse dia, por estranha casualidade, falou o Presidente dos Estados Unidos.

Em seu último discurso ao Congresso sobre o Estado da União, utilizando o teleprompter, Bush nos fala mais com suas expressões extraverbais que com as palavras elaboradas por seus assessores.

Se aos três discursos que mencionei nas palavras dirigidas aos delegados do Encontro de 29 de janeiro de 2003 acrescentarmos o que pronunciou ontem 28, traduzido ao espanhol pela CNN —acompanhado de sobrancelhas levantadas e gestos peculiares—, gravado e transcrito imediatamente por pessoal qualificado, este é o pior de todos por sua demagogia, mentiras e ausência total de ética. Falo das palavras que ele quiçá acrescentou, do tom em que o fez e pessoalmente observei, que é o material com o qual trabalhei.

“Os Estados Unidos estão encabeçando a luta contra a pobreza mundial com sólidos programas educativos e de assistência humanitária. Este programa reforça a democracia, a transparência e o império da lei em países em desenvolvimento, e peço aos membros deste Congresso que financiem plenamente esse importante programa.”

“Os Estados Unidos estão à vanguarda na luta contra a fome no mundo. Hoje, mais da metade da ajuda alimentar do mundo provêm dos Estados Unidos. Esta noite, peço ao Congresso que apóie uma proposta inovadora de prestar ajuda alimentícia ao comprar cultivos diretamente dos agricultores do mundo em desenvolvimento, para que possamos desenvolver sua agricultura local e romper a fome.”

Ao princípio deste parágrafo se refere aos velhos compromissos adquiridos pelos Estados Unidos em outros tempos com a FAO e organismos internacionais, uma gota de água ante as angustiosas necessidades atuais da humanidade.

“Os Estados Unidos encabeçam a luta contra as doenças. Com sua ajuda, estamos trabalhando para reduzir pela metade o número de mortes relacionadas com a malária em 15 nações africanas, e nosso plano contra a AIDS está tratando um milhão 400 mil pessoas. Podemos dar ajuda a muitos mais. Peço que aprovem mais 30 bilhões nos próximos 5 anos...”

“Os Estados Unidos são uma força de esperança no mundo, porque somos um povo compassivo...”

“Nos últimos 7 anos aumentamos os fundos para veteranos em mais de 95 por cento... também para atender as necessidades de uma nova guerra para melhorar o sistema de atenção para nossos guerreiros feridos...”

“Peço-lhes que me ajudem a criar novos empregos para esposas e esposos de nossos militares...”

“Confiando no povo, sucessivas gerações transformaram nossa frágil e jovem democracia na nação mais poderosa da Terra... Nossa liberdade estará segura e o estado de nossa nação permanecerá sólido.”

Tudo isto o afirma tranqüilamente, mas desde o início de seu discurso, no qual esquiva todos os problemas espinhosos, vai fundamentando as bases dessa suposta liberdade e prosperidade pedra sobre pedra, sem fazer a mais mínima referência aos militares norte-americanos que morreram ou foram mutilados pela guerra.

Tinha começado o discurso assinalando que “a maioria dos estadunidenses pensa que os impostos são já muito altos...”. Ameaça ao Congresso: “Devem saber que se algum tipo de projeto de lei que aumente os impostos chegar a meu escritório, vou vetá-lo”.

“Na próxima semana lhes remeterei um orçamento que elimina ou reduz consideravelmente 151 programas esbanjadores ou inflados, que ascendem a mais de 18 bilhões. O orçamento que apresentarei manterá os Estados Unidos no caminho ao superávit em 2012.”

Ou equivocou-se de cifra, ou a arrecadação de 18 bilhões não significa nada num orçamento que ascende a 2,8 trilhões.

O mais importante é distinguir entre o déficit do orçamento do Estado, que aumentou para 163 bilhões, e o déficit da conta corrente da balança de pagamentos, que totalizou 811 bilhões em 2006, e a dívida pública está calculada em 9,1 trilhões. Seu gasto militar eleva-se a mais de 60 por cento do total que é investido no mundo por esse conceito. A onça-troy de ouro, hoje, dia 29, atingiu o recorde de 933 dólares. A desordem é conseqüência da emissão de dólares sem nenhum limite num país cuja população gasta mais do que poupa e num mundo onde a capacidade aquisitiva da moeda dos Estados Unidos se reduziu extraordinariamente.

A receita que costuma aplicar seu governo é expressar confiança e segurança na economia, baixar as taxas de juros bancário, injetar mais papel moeda em circulação, aprofundar o problema e aumentar as conseqüências.

Que significa atualmente o preço do açúcar, que hoje estava 12,27 centavos de dólar a libra? Hoje dezenas de países pobres dedicam-se a sua produção e exportação. Menciono apenas este exemplo para ilustrar que o Bush deliberadamente o complica e mistura tudo.

O Presidente dos Estados Unidos prossegue assim com seu passeio olímpico sobre os problemas de um planeta a seus pés.

“Quero que aprovem reformas dos programas Fanie Mae e Freddie Mac, modernizar a Direção Federal da Moradia e permitir que os proprietários voltem a financiar suas hipotecas através de bônus livres de impostos...”

“Temos um objetivo comum: fazer com que o cuidado médico seja mais acessível a todos os estadunidenses. Para isso, devemos aumentar as opções dos consumidores, não o controle do governo...”

“Devemos confiar que os estudantes vão aprender se recebem a oportunidade, e aos pais mais poder para exigir mais resultados de nossas escolas...”

“Os estudantes afro-estadunidenses e hispânicos chegaram a ter notas máximas... Agora devemos trabalhar juntos para que os estados e os distritos tenham mais flexibilidade e reduzir o número de estudantes que deixam a escola antes de terminar o ensino médio...”

“Graças às bolsas que vocês aprovaram, mais de 2.600 das crianças mais pobres da capital encontraram nova esperança numa escola religiosa ou privada de outro tipo. Lamentavelmente, estas escolas estão desaparecendo a um ritmo alarmante em muitos dos bairros urbanos pobres dos Estados Unidos... Portanto, pedi o respaldo de vocês para um novo programa de 300 milhões de dólares...”

“Dependemos cada vez mais da capacidade de vender produtos, colheitas e serviços a todo o mundo. Portanto, queremos terminar com as barreiras ao comércio e ao investimento. Queremos uma Rodada de Doha que tenha sucesso, e queremos conseguir um acordo neste ano.”

“Quero agradecer ao Congresso ter aprovado o acordo com Peru. E agora lhes peço que aprovem os acordos com Colômbia, Panamá e Coréia do Sul.”

“Muitos produtos destes países entram aqui sem impostos; no entanto, muitos de nossos produtos enfrentam impostos altos em seus mercados. Devemos igualar a situação. Isso nos daria acesso a mais de 100 milhões de clientes e respaldaria bons trabalhos para os melhores trabalhadores do mundo: aqueles cujos produtos são feitos nos Estados Unidos.”

“Estes acordos também promovem os interesses estratégicos de Estados Unidos.”

“Nossa segurança, nossa prosperidade, nosso meio ambiente, requerem reduzir nossa dependência do petróleo. Busquemos energia a partir do carvão.”

“Vamos criar um fundo internacional de tecnologia limpa para reduzir e quiçá reverter a emissão de gases de efeito estufa.”

“Para seguirmos sendo competitivos no futuro, devemos confiar em nossos cientistas e técnicos e dar-lhes mais poder para que cheguem às descobertas do futuro. Peço-lhes o apoio federal... para que os Estados Unidos continue sendo a nação mais dinâmica do planeta.”

Sempre apelando ao chauvinismo, prossegue seu vôo imaginário para outros temas:

“Hoje na costa do Golfo queremos prestar homenagem à resistência dos habitantes desta região; queremos que possam reconstruí-la melhor, mais forte que antes. E quero anunciar que vamos realizar a Cúpula norte-americana dos Estados Unidos, México e Canadá na grande cidade de Nova Orleans.”

“Outro desafio importante é a imigração. Os Estados Unidos precisa assegurar suas fronteiras e, com sua ajuda, meu governo está tomando medidas para fazê-lo, aumentando o controle nos lugares de trabalho, colocando barreiras e novas tecnologias para impedir cruzes ilegais... Neste ano pensamos dobrar o número de agentes da Patrulha Fronteiriça”.

Trata-se de uma das fontes de emprego bem remunerado que Bush busca.

Não deseja recordar que arrebataram do México mais de 50 por cento de seu território numa guerra de conquista, e pretende que ninguém recorde que no muro de Berlim, durante seus quase 30 anos de existência, morreram menos pessoas tratando de entrar ao “mundo livre” que os latino-americanos que já estão morrendo —não menos de 500 a cada ano— ao tratar de cruzar a fronteira em busca de trabalho, sem Lei de Ajuste que os privilegie e estimule, como fazem com os cidadãos de Cuba. O número de imigrantes ilegais presos e devolvidos de maneira traumática a cada ano sobe para centenas de milhares.

De imediato, o discurso salta ao Oriente Médio, de onde acaba de voltar depois de um veni, vidi, vici diplomático.

Após mencionar o Líbano, Iraque, Afeganistão e Paquistão, afirma: “A segurança dos Estados Unidos e a paz do mundo dependem de que propaguemos a esperança da liberdade nele. No Afeganistão, os Estados Unidos, nossos aliados da OTAN e 15 países associados estão ajudando ao povo afegão a defender sua liberdade e a reconstruir seu país”.

Não menciona em absoluto que isso mesmo foi o que a URSS quis fazer, ao ocupar o país com suas poderosas Forças Armadas, que terminaram derrotadas ao chocar com seus costumes, religião e cultura diferentes, independentemente de que os soviéticos não foram ali a conquistar matérias primas para o grande capital, e de que uma organização socialista que nunca fez dano algum aos Estados Unidos tentou mudar revolucionariamente o curso da nação.

De imediato, Bush salta ao Iraque, que não teve nada que ver com os atentados de 11 de setembro de 2001, e foi invadido porque assim o decidiu Bush como Presidente dos Estados Unidos e seus mais próximos colaboradores, sem que ninguém duvide no mundo que o objetivo era ocupar suas jazidas de petróleo, o que custou a esse povo centenas de milhares de mortos e milhões de deslocados de seus lares, ou que se viram obrigados a emigrar.

“O povo do Iraque rapidamente percebeu que algo dramático estava ocorrendo. Os que temiam que os Estados Unidos estivesse se preparando para abandoná-los, viram como dezenas de milhares de soldados chegaram ao país, viram a nossas forças se transladar às comunidades, desalojar aos terroristas e ficar para assegurar que o inimigo não iria voltar...”

Nossos soldados e civis no Iraque estão desempenhando-se com coragem e distinção, e contam com a gratidão de todo o país...”

“No último ano, capturamos ou matamos milhares de extremistas no Iraque; nossos inimigos foram duramente golpeados, mas não foram derrotados. E podemos esperar ainda que existirão lutas mais difíceis.”

“O objetivo no ano que vem é manter e edificar sobre os lucros de 2007 passando a seguinte fase da nossa estratégia. As tropas estadunidenses estão passando, de liderar operações, a ser parceiras das forças iraquianas e eventualmente a ter uma missão de supervisão...”

“Isto significa que mais de 20 mil dos nossos soldados estão regressando.”

“Qualquer redução futura de tropas será baseada nas condições no Iraque e nas recomendações dos nossos comandantes.”

“O progresso nas províncias deve ser equiparado com o progresso em Bagdá.”

“Ainda falta muito, mas após décadas de ditadura e a dor de violências sectárias, a reconciliação está criando raízes, e os iraquianos estão assumindo o controle de seu futuro.”

“A missão no Iraque foi difícil, mas é de interesse vital dos Estados Unidos que tenhamos sucesso.”

“Também nos enfrentamos com as forças extremistas na Terra Santa... Os palestinos elegeram um Presidente que reconhece que fazer frente ao terrorismo é essencial para conseguir um Estado, onde seu povo possa viver com dignidade e em paz com Israel.”

Bush não diz uma palavra sobre os milhões de palestinos despojados de suas terras ou expulsados delas, submetidos a um sistema de apartheid.

A fórmula de Bush é conhecida: 50 bilhões de dólares em armas para os árabes, procedentes do complexo militar-industrial, e 60 bilhões para Israel em dez anos. Trata-se de dólares que mantêm um valor real. Alguém paga: centenas de milhões de trabalhadores produzindo com suas mãos mercadorias baratas e salários mínimos, e outras centenas de milhões de pessoas subalimentadas.

Mas não conclui aqui o discurso: “O Irã está dando fundos e treinamento a grupos milicianos no Iraque, apoiando aos terroristas do Hezbollah no Líbano e respaldando os esforços do Hamas para socavar a paz na Terra Santa. O Teerã também está desenvolvendo mísseis balísticos de alcance cada vez maior e continua desenvolvendo sua capacidade para enriquecer urânio, o que poderia servir para criar um arma nuclear.”

“Nossa mensagem aos líderes do Irã é clara: suspendam de forma verificável o enriquecimento nuclear para poder negociar.”

“Os Estados Unidos fará frente àqueles que ameacem nossas tropas. Estaremos ao lado de nossos aliados e vamos defender nossos interesses vitais no Golfo.”

Isto não se refere ao Golfo do México, senão ao Golfo Pérsico em águas não mais distantes do que 12 milhas do Irã.

Há um fato histórico: na época do Xá, o Irã era a melhor potência armada da região. Ao triunfar a Revolução nesse país, dirigida pelo imã Khomeini, os Estados Unidos incitou ao Iraque e lhe prestou apoio para invadí-lo. Daí surgiu um conflito que custou centenas de bilhões e inúmeros mortos e mutilados, e que hoje se justifica como algo próprio da guerra fria.

Na realidade, não faz falta que outros órgãos de divulgação informem sobre o discurso do Presidente dos Estados Unidos; há que deixar que o próprio Bush fale. Para um povo que sabe ler, escrever e que pensa, ninguém pode fazer uma crítica mais eloqüente do império que o próprio Bush. A título de país mencionado, respondo-lhe.

Trabalhei duro.

Espero ter escrito com fria imparcialidade.

Fidel Castro Ruz
29 de janeiro de 2008