Editorial do NYT critica polícia de Bush

Há seis anos, o presidente Bush começou seu discurso sobre o estado da União com duas poderosas sentenças: “Enquanto nos reunimos nesta noite, nossa nação está em guerra, nossa economia está em recessão e o mundo civilizado enfrenta perigos sem precedentes. Contudo, o estado de nossa União nunca foi mais forte.

Editorial do NYT critica polícia de Bush


Há seis anos, o presidente Bush começou seu discurso sobre o estado da União com duas poderosas sentenças: “Enquanto nos reunimos nesta noite, nossa nação está em guerra, nossa economia está em recessão e o mundo civilizado enfrenta perigos sem precedentes. Contudo, o estado de nossa União nunca foi mais forte.

Na noite da segunda-feira, depois de seis anos de promesas descumpridas e de erros de proporções históricas, os EUA agora estão envolvidos em duas guerras, a economia vai rumo à recessão e o mundo civilizado ainda defronta com perigos horríveis.

A nação está dividida quanto à guerra no Iraque, dividida por implacáveis políticas partidárias, transbordante de temor econômico e estagnada num debate acerca de praticamente todos os problemas que confrontou Bush em 2002. E o melhor que pôde oferecer foi um chamamento a desenvolver as capacidades individuais: uma idéia nobre, mas nas mãosdo Sr. Bush, é apenas um pretexto para abdicar das responsabilidades dogoverno.

O discurso na noite de segunda-feira nos fez pensar quão diferente teriasido se o Sr. Bush tivesse capitalizado a unidade que seguiu aos ataques de 11 de setembro para consolidar a nação, e não para atribuir-se mais poderes e lançar seu desventurado empreendimento no Iraque. Quão diferente teria sido se o Sr. Bush se tivesse proposto o que disse acerca do conservadorismo compassivo, ou inclusive se tivesse continuado a disciplina fiscal do conservadorismo à antiga. Quão diferente teria sido se realmente tivesse feito um esforço para atingir o bipartidarismo que prometeu em 2002 e tantas vezes desde então.

Dessa maneira, poderia ter-se valido do discurso da noite de 28 de janeiro para congratular o equilíbrio orçamentário, em que os impostos teriam produzido suficiente dinheiro para sufragar as genuínas necessidades da nação, inclusive, o atendimento médico para as crianças pobres e a reconstrução de Nova Orleãs. Em lugar dele, o Sr. Bush exigiu — de novo — que os cortes de impostos fossem permanentes e ameaçou de vetar leis que resultassem em gastos excessivos de verbas estatais que beneficiem os pobres, idéia ausente em sua agenda quando os republicanos dominavam o Congresso.

Se o Sr. Bush tivesse tido um bom desempenho nas últimas semanas, se teria valido deste discurso para celebrar um acordo genuinamente bipartidário sobre um plano sólido de incentivo econômico. Além dos reembolsos de impostos acordados entre a Casa Branca e a Câmara, poderia ter anunciado propostas sensíveis para estender os benefícios contra o desemprego e o aumento temporário de cupons trocáveis por alimentos para os cidadãos mais vulneráveis.

Essas ideáis não são só democráticas. O Escritório Orçamentário Independente do Congresso considera essas políticas de estímulos muito mais efetivas que os reembolsos. Se o Sr. Bush tivesse adotado a ideologia vitoriosa da compaixão e do bom-senso, teria sido capaz de usar seu discurso de 28 de janeiro para celebrar a expansão dos seguros de saúde a dezenas de milhões de filhos de trabalhadores. Bush vetou a ampliação do programa S-chip (Programa Estatal de Seguros de Saúde Infantil) e inclusive, não concordou nem em pagar pelas coberturas já existentes, porque pensou que um bom número de pais poderiam mudar dos seguros privados aos públicos, caso se tivesse oferecido ajuda governamental para seu pagamento. Em 2003, o presidente propôs o benefício do Medicare para os remédios por receita, sua conquista principal na reforma do seguro médico. Mal falaram nisso os republicanos conservadores no Congresso e o apetite do Sr. Bush de tornar o sistema de saúde acessível para todos os americanos, sumiu.

O Sr. Bush incluiu em todos seus comparecimentos anteriores sobre o estado da Nação um chamamento à reforma migratória. Mas nunca fez coincidir tal retórica com grandes idéias ou com uma política apaixonada. No ano passado, uma pugna por uma reforma integrada foi derrotada pela direita de seu próprio partido, que continua disseminando o ódio na campanha eleitoral. Sua astuta expressão no dia 20 foi: “A imigração ilegal é complicada”. Em 2002, Bush se referiu à coalizão internacional que invadiu o Afeganistão, ao consenso das nações civilizadas quanto à necessidade de combater o terrorismo, a que os ataques de 11 de setembro tinham agrupado os países sob a liderança dos EUA. A boa guerra do Afeganistão foi rapidamente ensombreada, mal mudada, pela loucura iraquiana do Sr. Bush. Seis anos depois, os EUA e seus aliados ainda combatem e morrem no Afeganistão e o Talibã voltou à luta.

Nem sequer foi capaz de assegurar ao povo americano que há um fim à vista para a guerra do Iraque. Pelo contrário, fez a mesma promessa vazia que fez todos os anos. Quando os iraquianos se possam defendersozinhos, as tropas poderão voltar. Recentemente, o ministro da Defesa do Iraque disse ao NYT que suas forças não seriam capazes de manter a paz e defender o país até 2018. A escalada das tropas triunfou na estabilização de algumas zonas de Bagdá e na redução do número de baixas. Mas 2007 foi ainda o ano mais violento no Iraque desde a invasão em 2003 e, o mais importante, o Sr. Bush não tem muito que mostrar em matéria de reconciliação política, a única coisa que poderia garantir uma paz duradoura. Na verdade, não fez realmente esforços para buscar a ajuda dos vizinhos do Iraque para aestabilização desse país.

Afinal, no que se refere ao Iraque, os discursos anuais do Sr. Bushserão lembrados mais por suas falsas promessas, pelo falso “eixo do mal”, pelos inexistentes tubos de alumínio e pelo urânio africano, armas perigosas que não existem. Nenhum presidente quereria para si esse legado.

Ainda falta um ano ao Sr. Bush e muitos problemas sérios que tratar. É hora de que ponha de lado o partidarismo, as fanfarronices e a vazia retórica. O estado da União é preocupante. A nação tem ânsias deliderança. (ACN)