O PCML e o II Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana

Nos encaminhamos para participar no II Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana que, diante da atual situação política internacional, representará um evento de proporções históricas na luta revolucionária nesta região do hemisfério, em certa medida, comparável ao que representou, na década dos anos 60 do século passado, a histórica conferência da Tricontinental, realizada em Havana, Cuba.

O PCML e o II Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana

 

 

Recado:

“Se me der um beijo eu gosto / Se me der um tapa eu brigo / Se me der um grito não calo / Se mandar calar mais eu falo/

Mas se me der a mão / Claro, aperto / Se for franco / Direto e aberto / Tô contigo amigo e não abro / Vamos ver o diabo de perto

Mas preste bem atenção, seu moço / Não engulo a fruta e o caroço / Minha vida é tutano é osso / Liberdade virou prisão

Se é mordeu e recebeu / Se é suor só o meu e o teu / Verbo eu pra mim já morreu / Quem mandava em mim nem nasceu

É viver e aprender / Vá viver e entender, malandro / Vai compreender / Vá tratar de viver

E se tentar me tolher é igual / Ao fulano de tal que taí / Se é pra ir vamos juntos /

Se não é já não tô nem aqui” (Recado, Gonzaguinha – quanta saudade irmão)

 

Nos encaminhamos para participar no II Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana que, diante da atual situação política internacional, representará um evento de proporções históricas na luta revolucionária nesta região do hemisfério, em certa medida, comparável ao que representou, na década dos anos 60 do século passado, a histórica conferência da Tricontinental, realizada em Havana, Cuba. Assim como naquele evento, sobre as lideranças revolucionárias presentes à conferência, pesava o exemplo da luta revolucionária vitoriosa da recente revolução cubana (a vitória em 1959) e a declaração do caráter socialista da revolução (em 1961), e da luta revolucionária que começa a tomar contornos dramáticos em todo o continente, cuja expressão maior se pode resumir no Exército de Libertação Nacional, comandado por Che Guevara na Bolívia; sobre o II Congresso da CCB também pesa o exemplo da luta revolucionária da recente revolução Bolivariana, na Venezuela; bem como a luta das FARC-EP, comanda por Marulanda Vélez, na Colômbia, e os contornos dramáticos do crescimento deste processo em todo o continente.

Naturalmente, em termos mundiais, não vivemos como na conjuntura em que se realizou a Tricontinental, pois não se pode comparar a situação atual do Oriente Médio: a guerra de resistência à ocupação imperialista norte-americana no Afeganistão, Iraque e mesmo a resistência palestina à ocupação israelense; com a guerra no Vietnã, que em 1966 avançava para a vitória final. Embora o Paquistão tenha similaridades com a Indonésia de Sukharno e o Nepal esteja próximo do que representou a luta revolucionária no Camboja, não é possível uma comparação plausível. Além disso, a situação na África não se parece nem um pouco com o processo vivido pela guerra de libertação no Congo, Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde e Namíbia. A Europa e os EUA, embora impactados pelo movimento antiglobalização, e ações do ETA, na Espanha, e do IRA, na Irlanda, ou ainda dos grupos islâmicos (o ataque sobre WTC e Pentágono, nos EUA, o ataque aos trens na Espanha), também não constituem uma situação similar à conjuntura.

Naturalmente, a linha divisória entre uma e outra realidade é o papel que exercia a ex-URSS e a existência do Campo Socialista do Leste Europeu. Sem dúvida, aqui reside o pano de fundo de toda a diferença, já que todo movimento revolucionário ou contra-revolucionário era balizado com base no papel de pólo mundial desta experiência socialista em contra-ponto ao pólo do imperialismo, os EUA. A existência da URSS, independente do contorno ideológico dos processos revolucionários existentes no momento da Tricontinental (a ampla maioria das organizações revolucionárias presentes eram críticas e rompidas com os paradigmas partidários projetados a partir da URSS pós-Lênin), acabavam por expressar no conteúdo, independente da forma de luta ou do caráter da revolução promulgada, a essência do que inaugurou a Revolução Russa de 1917, dirigida pelos Bolcheviques, comandos por Lênin: o socialismo. Assim, em termos políticos e ideológicos, o processo atual muito diferencia-se daquele dos anos 60 do século passado, matizado pelo conteúdo do socialismo.

Existe ainda um outro elemento da conjuntura que marca uma diferença fundamental do processo anterior, com o qual estamos estabelecendo relações com o processo atual. E este é o elemento da crise do capital. Aqui a questão é simples de perceber. O caráter da crise nos anos 60, ao contrário do caráter da crise atual do capitalismo, que apresenta-se por inteiro desde o final dos anos 80 e transportou-se para esta primeira década do século atual (XXI). Enquanto a primeira representava uma crise de crescimento no desenvolvimento do capital, no pós-segunda guerra mundial – os anos 60 para o capitalismo na Europa expressa a recuperação das economias da Alemanha, França, Inglaterra e Japão, acentuando-se nos anos 70. A prova mais sintomática deste processo de recuperação ficou patente na demanda por petróleo (energia para alimentar o crescimento da economia mundial), levando a primeira crise energética ou choque nos preços do barril de petróleo, a formação da OPEP, prefaciados pela primeira guerra árabe-israelense.

Já a crise atual do capitalismo é uma crise de esgotamento desta fase de expansão da economia mundial, após a falência do modelo Keynesiano, a partir de meados da década de 70, passou a transitar da acumulação extensiva para a acumulação intensiva, sob a doutrina neoliberal e ao impulso das novas tecnologias (geradas durante a “Guerra Fria”). Este processo deu curso ao que traduziu-se chamar globalização neoliberal, o que não e senão a expansão do modo de produção sob as economias dos ex-países socialistas, a intensificação sobre os países dominados pelo imperialismo ou dependentes, e, finalmente, a destruição violenta das forças produtivas já desenvolvidas. Este processo de concentração nos anos 90 conduziu a uma nova corrida neocolonial na Ásia, África e América Latina; aos golpes financeiros, às guerras de rapina e assim a crise do capital vem à tona, de forma globalizada e em efeito cascata.

A crise atual adquiriu, além do caráter estrutural e geral, um conteúdo permanente, logo, de transição do sistema para algo que não se pode precisamente afirmar ainda. Embora os sinais do fascismo e do nazismo singularizem as políticas econômicas e sociais, bem como o caráter dos estados capitalistas, mesmo aqueles que ostentam consignas sociais-democratas, como França, Alemanha, Espanha e Itália, sem dúvida alguma, o que impera em termos de política é a aplicação mecânica do darwinismo econômico e o malthusianismo social ou populacional. Marx, ao escrever O Capital, demonstrou precisamente este processo ao definir a “Lei Geral da Acumulação Capitalista”; Lênin, ao analisar o fenômeno do Imperialismo, também reafirmou esta lei como lei fundamental do desenvolvimento do capital em seu estágio superior e que ele geraria todos os tipos de crise tornando-se êmbolo econômico da transição do modo de produção, no qual o capital financeiro se tornaria protagonista.

Deste modo, ao pensarmos o II Congresso da CCB, nos encontramos com um cenário internacional que, se por um lado apresenta condições objetivas para uma revolução de caráter, inclusive, mundial; por outro, o peso da perda de paradigmas – a queda da URSS e Campo Socialista – pelas razões já descritas, as impedem; e as novas condições do processo de produção capitalista, diante das modernas tecnologias, atuam para que as condições subjetivas confluam para objetivos estratégicos comuns, que combinem as diferentes formas de luta protagonizadas pelos novos e velhos atores sociais para alcançar tais objetivos. Lênin afirmou que “o movimento revolucionário sempre se recria e produz elementos novos”. Marx afirmou que “a história e seus personagens repetem-se como tragédia ou farsa e que a diferença entre um e outro é o conteúdo que aportam para época em questão”. Hoje observamos que os trabalhadores, ao perderem seus paradigmas em termos da luta revolucionária, em todas as partes do mundo mergulharam em sua própria história e nesta digressão buscaram paradigmas abandonados ou adormecidos pelo impulso da polarização entre o socialismo e o capitalismo no século passado.

Portanto, o principal desafio do nosso partido, conjuntamente com o Capítulo Brasil da Coordenadora Continental Bolivariana – Luiz Carlos Prestes –, é precisamente contribuir para esta nova reflexão e trabalhar para que o II Congresso da CCB aponte ao movimento revolucionário em nosso continente um caminho consistente para estabelecermos um conteúdo ideológico mais unitário, em termos de objetivo estratégico; um conteúdo organizativo mais flexível na forma e sólidos princípios (éticos e práticos revolucionários), como base para concatenação das diversas formas de expressão e ação revolucionárias, constituindo o espaço revolucionário democrático, unitário, comprometido com a transformação revolucionária na nossa América. Na Conferência da Tricontinental, o elemento diferencial em relação aos processos de organização e luta internacional era o caráter de ruptura com os paradigmas eurocentristas que dominavam na forma e no conteúdo o movimento revolucionário no continente – a idéia de Che, sobre as mil guerrilhas – rompia este paradigma, aproximando o processo de luta revolucionária com a experiência histórica em nosso continente: a guerra de movimento, ou seja, na forma de guerra de guerrilhas, seja na forma de Exército Popular, como se pode extrair dos exemplos da guerra de resistência dos Tamoios, dos Guaranis, Mapuches; da guerra pela liberdade dos Quilombolas de Palmares, da guerra de independência do Exército de Bolívar, José Martí, da guerra contra as oligarquias de Pacho Vila e Emiliano Zapata, Augusto Santino, Farabundo Martí, Luiz Carlos Prestes, Ernesto Che Guevara e Fidel Castro.

O II Congresso da CCB, nestes termos, pode dar curso a este processo iniciado pela Tricontinental e levar adiante a construção de um paradigma revolucionário para o movimento revolucionário continental, de caráter latino-americano, considerando os novos aportes da luta revolucionária das FARC-EP, na Colômbia; do MRTA no Peru; do EZLN, no México; da Revolução Bolivariana, na Venezuela e dos processos revolucionários na Bolívia, Nicarágua e Equador. Finalmente, a matriz para este processo é a Revolução Cubana, sem desconsiderar a contribuição do processo revolucionário vivido com Salvador Allende, no Chile, e ainda os Tupamaros, no Uruguai e os Montaneros, na Argentina. Naturalmente, nossa maior contribuição é a integração da luta e do movimento revolucionário brasileiro ao movimento revolucionário continental, aportando rica experiência de luta em nosso país, que nos legaram os que nos antecederam: da luta da Confederação dos Tamoios; dos Quilombos de Palmares; da República dos Guaranis; da Inconfidência Mineira, de Canudos, Contestado, até a Coluna Prestes e a luta revolucionária nos anos 60 e 70. Naturalmente, também a luta revolucionária que travamos nos últimos 30 anos de existência.

Camaradas, façamos os maiores esforços para que a CCB - Capítulo Luiz Carlos Prestes – Brasil se faça representar com qualidade em termos de delegados e conteúdo para contribuir com esta grande iniciativa continental. Não podemos esquecer do que escreveu Jorge Masseti ao entrevistar Fidel Castro e Che Guevara ainda em Sierra Maestra: “Há os que Lutam e Há os Que Choram”. Nós fazemos parte dos que lutam e devemos continuar até a vitória, para que os que choram encontrem uma razão para não mais chorar!

Viva a luta revolucionária em nosso Continente!

Viva a Coordenadora Continental Bolivariana – Capítulo Brasil - Luiz Carlos Prestes!

Viva o II Congresso da Coordenadora Continental Bolivariana!

Ousar Lutar! Ousar Vencer!


Rio de Janeiro 31 de Janeiro de 2008
P.I. Bvilla
P/OC do PCML