Entrevista: Ieda Maranhão e Juarez da Boca do Mato

Nessa edição, entrevista com Ieda Maranhão e Juarez da Boca do Mato. Esses dois maravilhosos intérpretes do samba nos falam sobre suas experiências no mundo da música e as dificuldades e lutas do artista independentes para mostrarem a verdadeira música frente a uma grande quantidade de lixo musical, que só faz render dinheiro, sucesso momentâneo e nenhuma cultura.

Ieda Maranhão e Juarez da Boca do Mato

Artistas populares que não fogem à luta


Nessa edição, entrevista com Ieda Maranhão e Juarez da Boca do Mato. Esses dois maravilhosos intérpretes do samba nos falam sobre suas experiências no mundo da música e as dificuldades e lutas do artista independentes para mostrarem a verdadeira música frente a uma grande quantidade de lixo musical, que só faz render dinheiro, sucesso momentâneo e nenhuma cultura.


IN - Ieda fala um pouquinho sobre você, da sua origem.

IM – Eu sou de São Luis do Maranhão, cidade da Alcione, mas é minha também. Alcione é minha conterrânea, grande cantora, mas Ieda Maranhão também está chegando, já vem chegando há muito tempo, pois quando eu comecei a cantar eu era pequena, no Tambor de Crioula de São Luis do Maranhão. Fugia para cantar, ganhava cortes de fazenda, óleo, sabonete. Eu cantava na festa de São Benedito, em um Tambor de Crioula, eu ia para dançar. Apanhava muito dos meus pais, porque eles não queriam que eu fosse, mas como meu pai foi amo de Bumba-Meu-Boi de São Luis do Maranhão, foi a quem puxei. Por isso nesse CD que vem agora tem uma música que eu fiz contado a minha história no Tambor de Crioula de São Luis, tem um tributo a meu pai, Luis Costa, amo de Bumba-Meu-Boi da Maioba e venho com mais músicas para os ídolos de São Luis, que é o Chagas, o atual ama de Bumba-Meu-Boi da Maioba; João Chiador e meu primo Humberto, que é do Boi do Maracanã. Nesse trabalho, que vem com samba, pagode, tem ícones do samba junto. O meu primeiro trabalho foi um mix, depois fiz um pau de sebo, foi uma gravadora que não deu em nada, infelizmente, depois fiz um vinil, na época com quinze músicas, também pela gravadora Canto da terra, não deu em nada. Como sempre a gente vai lutando. Fiz um outro, que é ‘Pra chegar’, de Ieda Maranhão, onde tem música da minha irmã, Rita Ribeiro, compositora da música ‘Minha Rainha’, ela vem com essa música, ‘Pra chegar’ e eu interpretando a música dela. O resultado é que agora fiz mais um CD com Adelson Alves. Tive o privilégio de cantar com Nonô do Jacarezinho, essa música do Nonô é ‘Falando do jacarezinho’, faixa 4 deste trabalho. Tive o privilégio também de vir como compositora na música ‘História da Lapa’, onde cantamos eu e o Osmar do Break, ele canta essa música maravilhosamente bem. E sou da velha-guarda do Salgueiro, viajamos muito e fomos indicados ao prêmio Grammy Latino, em Los Angeles.

IN – Ieda você falou sobre a atividade atual que está desempenhando, a sua trajetória. De um lado existe a crítica que a gente tem que fazer às mídias, à TV e a algumas rádios, que infelizmente não tocam os verdadeiros artistas do povo, vindos das origem dos trabalhadores, que têm competência, que têm a poesia, a inteligência, a sagacidade de levar a mensagem para as pessoas. Como você vê essa mídia que não dá atenção aos verdadeiros artistas e têm muitos por ai.

IM – Eu contei a minha trajetória desde quando eu venho nessa luta e até o presente momento eu não cheguei à mídia. É de uma dificuldade que não dá para imaginar. Parece que tem um cerco fechado, é só entre eles, e não abrem para os novos talentos. E com isso você vem sofrendo. E o que você faz? Você sai fazendo CD, como eu fiz, independente. Trabalho independente é muito difícil para o artista, eu sei que sou um talento, mas até hoje a mídia não me descobriu, porque você chega em uma rádio dessas para tocar, quando vêem um trabalho pela gravadora, eles dão muito mais chance do que nós, que chegamos com o independente. Com o independente, quando nós chegamos na rádio, eles só tocam naquele momento e vai para a gaveta e vindo pelas gravadoras, eu não sei o porque disso, continua tocando. Tudo bem, tem um divulgador oficial da gravadora, mas como é? Corre alguma grana? Nós não temos isso para oferecer. Nem todas as rádios cobram isso, mas tem rádio que cobra. Para colocar em uma programação é difícil.Você tem que colocar debaixo do braço, vai e toca, não deixa o seu CD, porque se você deixar você vai deixar mais um CD ali, que você fez com tanto sacrifício e que eles não vão tocar depois. Você tem que todo dia ir para a rádio tocar e voltar para casa e ao passo que estando por uma gravadora é diferente. Como faz o Dicró, que estar fazendo o trabalho dele. Ele coloca ali no Largo da Carioca, que dá acesso direto ao povo, ele mesmo está lá, dá autógrafo e acabou. Mas ele vem de uma carreira de bastante tempo, como eu também venho, mas ele já tem o privilégio de fazer outros trabalhos por gravadoras que não deram em nada e hoje ele teve como fazer e está fazendo independente e está vendendo muito, eu o parabenizo por isso. Inclusive o Agnaldo Timóteo está fazendo a mesma coisa. Mas a gente que ainda não chegou a uma gravadora e não está saindo da gravadora para fazer o seu independente, que está começando pelo independente é muito difícil. Eu estou com esse trabalho, tem a participação do Arlindo Cruz em uma das faixas, em outra faixa tem a participação do Almir Guineto, ele é do Salgueiro e vai fazer participação especial com a Velha Guarda do Salgueiro. O nosso produtor, Josimar Monteiro, montou para que ele cante a música comigo no palco no Clube Líbano, se não fosse assim sabe-se que não seria. É um trabalho sério para que isso possa acontecer. Eu acho que eles devem de ver que existem outros talentos chegando, que a mídia não chega encima. Eu acho que o mesmo talento que eles têm a gente também tem e eu acho que deveria de ser visto com mais carinho. Nesse outro trabalho, o Adelson Alves que é uma enciclopédia, é um exemplo de que oferece essa chance que ele deu para a gente e que oferece para todos os compositores na Rádio MEC. O Adelson não quer saber, ele coloca os compositores que cantam e que não cantam para passar pela rádio MEC, ele dá o valor que a gente merece, que todos os compositores, todos os cantores merecem, por isso eu parabenizo Adelson Alves, é uma pessoa que eu tenho um grande carinho, um grande apreço e tenho a certeza de que ele jamais vai mudar, ele será sempre Adelson Alves, amigo de todo o povo.


IN – Vamos conversar agora com o companheiro Juarez da Boca do Mato. Fala um pouco sobre a sua trajetória.

JBM – É um privilégio está aqui com vocês e falar um pouquinho de mim. Eu sou nascido e criado na Boca do Mato, ali perto do Lins. Eu comecei a compor antes de ir para o exército, em 67, 66, e de lá pra cá eu venho nessa trajetória que a minha amiga acabou de dizer. É muito difícil para a gente chegar, mas não é impossível, tanto é que nós estamos aqui na luta prestigiando e sendo prestigiados. Até aqui eu tive o privilégio de gravar meu primeiro samba no LP do Almir Guineto, que foi o primeiro disco dele, eu já gravei com o Bezerra da Silva, com Índia Zaira, tive a satisfação de gravar nesse CD do Adelzon Alves, ‘MPB de raiz’, que para mim é o Papa do samba, nós somos muito feliz em gravar esse CD, por que feliz? Porque o Adelzon é uma pessoa que não admite duplo sentido, é cultura pura, às vezes é até um pouco chato, eu já entrei em uma tese com ele, mas ele é fora de série, ele é o nosso paisão. Gravei com a Bete Carvalho, ela fez uma participação nesse disco, inclusive um especial no meu samba, nosso samba, porque é meu e do Sidnei da Conceição, já falecido e também no CD que está saindo ai da Patrícia Caldas, é um trabalho bom também que está vindo, de cultura, de melodia e de poesia.


IN – Nós estávamos falando como a mídia dá espaço para um tipo de música que é um pouco carente de poesia e que o duplo sentido não é aquele duplo sentido engraçado, que tem às vezes no pagode, no próprio forró, é uma coisa pesada, a qual eles dão um grande espaço, a gente estava fazendo essa crítica, essa diferença do trabalho do samba e da poesia.

JBM – Outro dia um amigo falou comigo: “Juarez, não adianta fazer música bonita, não adianta fazer poesia musical, por que eles não tocam, eles colocam essa coisa que nós estamos vendo por ai, um lixo cultural”. O Adelzon sempre coloca assim com grande propriedade. Baseando nisso que a Ieda falou, nós fazemos uma música adequada, com cabeça, corpo, membro e poesia, e não toca em determinada rádio ou gravadora, agora se você chegar com esse vocabulário que nós estamos vendo na música, que eles dizem que é música, no meu modo de ver não é, e toca. Eu componho aquilo que vem na minha mente e a partir de um princípio. Não falei do Aprendizes da Boca do Mato, que era a nossa escola de samba, onde começou Martinho da Vila. Vínhamos com compositores de grande nível, pessoas que escreviam o português correto. Se prestar a atenção você vê um monte de erro de português nas músicas, e naquela época eles corrigiam tudo. Eu me lembro bem de quando eu comecei a escrever, o falecido Duca, que era um diretor da Aprendizes da Boca do Mato, falou: “Juarez, você nunca coloca bonito e belo, porque não dá”, e a gente ouve esse tipo de coisa, a gente fica triste por que fazemos uma música toda adequada e fazer música não é fácil, tem gente que acha que é fácil, e os caras fazem música facilmente e acontece isso que a gente está vendo.


IN – Mas há um movimento através das várias mídias, por exemplo, o Inverta procura, sempre que a gente pode, porque somos um jornal de trabalhadores, às vezes não temos estrutura para ir lá para saber de tudo que está acontecendo, ir atrás de todos como, nós gostaríamos, mas quando nós termos essa honra, como temos agora, de tê-los aqui, o que a gente faz?

JBM – Isso é maravilhoso. Eu agradeço ao Jornal Inverta por essa atitude e que jamais esmoreçam, porque nós precisamos mudar essa situação. Admiro o Adelzon, porque ele não admite duplo sentido, ele admite melodia, poesia. É fazer um movimento firme, uma resistência, para ver se mudamos esta situação, do contrário vai ser muito difícil, nós vamos continuar escutando boquinha da garrafa, um monte de baboseira, galinha não sei o que. Eu admiro o Dicró, mas é brincadeira, eu não ouço. Eu estou colocando é sobre a cultura que nós estávamos falando, por exemplo, um disco desse eu não compro, ele é muito meu amigo, a gente para ali, canta pagode, mas eu não vou à loja para comprar um disco dele, eu já falei para ele, é isso e respeita o que eu estou dizendo. Eu sou um cara que na minha modesta discoteca eu ouço Cartola, Jamelão, Nat King Cole, Rey Charles. Fica muito difícil para a gente que faz um trabalho mais apurado, dizem que isso não vai dar lucro para a gravadora, isso não é trabalho comercial, no meu modo de ver não é. Eu espero que o Jornal Inverta continue batalhando encima disso e se depender de mim eu vou somar com vocês nessa luta, por que eu também sou de luta, sou guerreiro.


Bianka de Jesus

gerson
gerson disse:
13/01/2011 17h31
parabens juarez da boca do mato parabens yeda maranhao vc falaram muito que nos sambistas gostaria de falar, falaram de coracao coisas que muitos sambistas na midia nao falam. eu nao sei porque sera que e medo ou tem que viver alienado,ate porque samba nao e so genero musical e muito mais que isso vcs sabem disso, um abraço
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