Nota de repúdio ao posicionamento fascista do Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral

O debate de contracepção como combate à pobreza e violência não é de hoje. Se as mulheres fossem proibidas de ter filhos, o número de pobres, proporcionalmente, continuaria o mesmo. A tentativa de controlar a fertilidade das mulheres trabalhadoras da periferia é mais uma maneira de transferir ao pobre, ou melhor, à pobre, a causa de sua pobreza.

Nota de repúdio ao posicionamento fascista do Governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral



O debate de contracepção como combate à pobreza e violência não é de hoje. Se as mulheres fossem proibidas de ter filhos, o número de pobres, proporcionalmente, continuaria o mesmo. A tentativa de controlar a fertilidade das mulheres trabalhadoras da periferia é mais uma maneira de transferir ao pobre, ou melhor, à pobre, a causa de sua pobreza.

Realmente parece piada, mas agora não são apenas feministas ‘radicais’ que defendem a legalização do aborto ou um sistema público de planejamento familiar.

Segundo o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, a favela seria uma fábrica de marginais, e propôs - como uma das medidas para combater o tráfico de drogas e a violência - o controle da fertilidade das mulheres que lá habitam. Propôs, inclusive, o aborto como uma medida eficiente. Segundo ele mesmo: “Não tenho a menor dúvida de que o aborto [como política pública] pode conter a violência. Eu particularmente não sou a favor do aborto”, declarou. E, algum tempo depois tenta mudar de posição: “Não é a favela que é uma fábrica de produção de marginal, mas o fato do Estado não oferecer às mulheres pobres a chance de suspender a gravidez”.

Quem sabe agora o aborto não é legalizado... Pelo menos nas favelas, onde o assassinato de ‘suspeitos’ parece que já não está dando conta...

Mas por que não cortar o mal pela raiz? Ou pelas trompas? Ou pelo cordão umbilical? Por que, afinal de contas, se o cabra vira bandido, a culpa só pode ser da mãe???

O planejamento familiar e a legalização do aborto devem sim ser políticas públicas. As mulheres devem ter o direito de querer ou não ser mãe. Inclusive, porque são estas mesmas mulheres, moradoras da periferia, trabalhadoras que mais sofrem com a falta de políticas de saúde específicas.

Em alguns Estados, se optam por fazer uma laqueadura, precisam que o marido assine se permite ou não. Mas, se por um lado, em alguns locais é tão difícil optar por fazer laqueadura, em outros, o que existe hoje – principalmente nas regiões Norte e Nordeste – é uma prática indiscriminada de esterilização, que, diante do reduzido acesso a outros métodos contraceptivos, acaba sendo o único (isso quando não são operadas sem que saibam ou quando políticos trocam este tipo de operação por votos).

A 4ª causa de morte entre as mulheres é a do aborto feito sem condições mínimas de segurança. As mulheres trabalhadoras têm que ter direito de escolher se querem ou não ter filhos. A contracepção tem que ser um direito da mulher, mas os mecanismos de acabar com a pobreza e a violência são outros. Os termos do debate sobre sexo e reprodução, no feminismo são, portanto, muito distintos dos veiculados nos últimos dias nos meios de comunicação, onde o planejamento familiar é tratado como estratégia para redução do número de crianças em situação de pobreza.

A contracepção é um direito das mulheres. A legalização do aborto também tem que ser. No entanto, o caminho para acabar com a pobreza e com os “marginais” é outro e com certeza não é este que tem sido apontado pelo poder público e veiculado na grande mídia corporativa. O problema não será resolvido sem mexer nos privilégios daqueles que, mesmo sendo a minoria e não participando da produção da riqueza, continuam detendo a maior parte da renda e das terras do nosso país.


J5J