IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo

A Cooperativa Inverta, O CEPPES (Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais) e o PCML (Partido Comunista Marxista Leninista) realizaram nos dias 22 e 23 de setembro passado o IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo.

IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo

A Cooperativa Inverta, O CEPPES (Centro de Educação Popular e Pesquisas Econômicas e Sociais) e o PCML (Partido Comunista Marxista Leninista) realizaram nos dias 22 e 23 de setembro passado o IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo. Como vem ocorrendo nos últimos anos, o Seminário é a atividade principal em torno das comemorações pelo aniversário do Jornal INVERTA, que completou 16, o maior período ininterrupto de circulação de um periódico de esquerda no Brasil, e do Jornal GRANMA INTERNACIONAL, órgão oficial do governo socialista cubano, completando 15 anos de circulação no país.

O seminário internacional foi um sucesso. Além da presença de mais de 600 pessoas em cada dia da atividade, o evento foi enriquecido com as mais variadas formas de manifestações artísticas de nosso povo. Da música ao teatro, da dança à poesia, as atividades culturais coroaram o Seminário.

Não há como não destacar o salto qualitativo deste seminário em relação aos anteriores. Antes, o seu alcance se restringia às organizações do país. A partir de agora, como conseqüência do papel mais ativo do agrupamento em torno do Jornal INVERTA e PCML na história da luta de nosso povo e, por outro lado, do levante dos povos de Nossa América, protagonizado por Cuba, Venezuela, Equador e Nicarágua, frente ao império ianque, as atividades em torno do Seminário de Luta Contra o Neoliberalismo passam a ter caráter internacional.

Assim, além da presença de várias organizações, entidades de classe, intelectuais e revolucionários locais, este Seminário contou com a participação ativa de organizações e do corpo diplomático cubano, os deputados venezuelanos do Parlamento Latino-americano (Parlatino), de representantes da República Dominicana, Venezuela e Colômbia e membros da Coordenadora Continental Bolivariana.

No final dos debates sobre a crise do capitalismo e da estratégia neoliberal imperialista e as formas de unidade e luta no caminho da revolução socialista continental, foi formalizada a constituição da Coordenadora Continental Bolivariana - Capítulo Brasil. A Coordenadora é uma frente político-social latino-americana de luta revolucionária e antiimperialista, que agora incorpora os revolucionários e antiimperialistas do nosso povo.

Com esta iniciativa, os signatários do Capítulo Brasil dão um importante passo histórico na luta revolucionária em nosso país e em Nossa América. A luta por uma sociedade justa e igualitária estava apática em nosso país, haja visto o carreirismo e oportunismo que prevalecem nos principais movimentos populares e nas centrais sindicais. Estes agrupamentos atrelados à estrutura da máquina burocrático-militar estatal e aos partidos reformistas perderam completamente o espírito de luta contra o sistema de exploração e opressão capitalista e o caminho pelo socialismo. A Coordenadora, ao contrário, é o que há de mais avançado no continente. E o seu Capítulo Brasil, aliado ao histórico em torno do Jornal INVERTA, é o mais avançado no sentido da unidade da luta contra o imperialismo e a sua política neoliberal em nosso país.


Neste evento em comemoração aos 16 anos de existência do Jornal Inverta e a realização do IV Seminário Internacional de Luta Contra o Neoliberalismo, organizado por várias entidades da sociedade civil e movimentos sociais nacionais e internacionais, aconteceram dois dias de debates, o primeiro dia -22 de setembro- foi realizado na UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), mais precisamente no Teatro Noel Rosa, durante todo o dia e no segundo dia -23 de setembro-, o evento aconteceu na UFF (Universidade Federal Fluminense), no Instituto de Geociências, também durante todo o dia. Foi lançado neste segundo dia do seminário o capítulo Brasil da Coordenadora Continental Bolivariana, que pretende unir os países e povos da América Latina e Caribe em prol da solidariedade em torno das lutas sociais, políticas e econômicas e em defesa da soberania e da amizade entre os países e de um movimento continental contra os projetos neoliberais que aumentam a miséria e a desigualdade no interior das sociedades latino-americanas.

Na primeira parte do seminário foi discutido o tema: "A Crise do Capitalismo e a Estratégia Neoliberal Imperialista". Cláudio Gurgel, professor e economista da UFF, falou que "O mundo está em um processo de agravamento da crise sistêmica do modo de produção capitalista, que segundo as análises marxistas, tem aumentado a desigualdade e a concentração de riqueza na sociedade atual. O atual problema da crise imobiliária nos EUA mostra como o não planejamento estratégico pelo setor público no projeto neoliberal leva a este estado de coisas, em que foram feitos empréstimos a torto e a direito para pessoas que tinham antecedentes de mal pagadores e, apesar disso, o setor de crédito inflou a bolha da especulação em torno dos preços das casas nos EUA e agora estourou a crise e as cotações do mercado habitacional nos EUA caíram abruptamente, com a inadimplência dos que tomaram empréstimos e não estão podendo honrar os seus compromissos com os bancos", afirmou o economista.

O segundo palestrante foi o professor titular da UFRJ, José Paulo Netto, que também se referiu à crise do sistema capitalista: "A atual crise do capitalismo leva o imperialismo a uma ofensiva sem precedentes pela acumulação e concentração do capital nas mãos da oligarquia financeira, que é mais predatória e parasitária, como já afirmou Karl Marx, pois não tem nenhum tipo de trabalho para reproduzir o seu capital, elevando enormemente a mais valia na sociedade contemporânea. A luta por matéria-prima da área energética é uma demonstração de que o imperialismo está em crise e, por isso, recorre às guerras de pilhagem para tomar com a força militar o petróleo do Iraque, mesmo que para isso tenha que promover uma grande carnificina no país invadido", afirmou o professor José Paulo Netto.

O Editor do Jornal Inverta, Aluisio Bevilaqua, falou que “Por ser um homem de partido, sempre penso as coisas de uma maneira coletiva e que esta crise do capitalismo já vem sendo analisada pelos editoriais e matérias do Jornal Inverta, que está completando 16 anos agora. Na crise das bolsas da Ásia em 1997 eu escrevi um livro, que está esgotado, em que estudava todas as explicações dos economistas da época, mas dava a visão do pensamento marxista-leninista sobre o problema financeiro internacional, que se iniciou no sudeste asiático, mas que afetou grande parte da economia global. Para solucionar aquela crise aconteceu um processo de mais agressividade do imperialismo norte-americano, que culminou com a Guerra do Iraque depois dos Ataques de 11 de Setembro de 2001. A queda do Leste Europeu e da ex-URSS levou a um arrefecimento das lutas sociais em todo o planeta, mas agora a América Latina está como se diz: no olho do furacão da luta de classes mundial com o fortalecimento de governos antineoliberais e de esquerda em uma região tão castigada e humilhada pela hegemonia dos EUA durante vários séculos. Nasce uma nova expectativa no continente latino-americano, de uma rebeldia dos povos fartos do projeto do chamado "Consenso de Washington", que mostrou ser um fracasso para diminuir as desigualdades e a pobreza com a política de privatizações, que está sendo revista por vários governos nascidos das lutas populares, como na Bolívia, no Equador e, principalmente, na Venezuela, que tem sido um grande aliado de Cuba no cenário internacional”, disse Aluisio Bevilaqua.

Na Mesa sobre "Estratégia de Contra-Insurgência do Imperialismo" falaram Neusah Cerveira (Presidente do Ceppes), Joana Darc (Grupo Tortura Nunca Mais), Rubens Casara (Juiz de Direito) e Alexandre Mendes (Advogado). A Professora Neusah Cerveira falou sobre a ditadura no período da Operação Condor: "Os meus estudos sobre as ditaduras militares na América Latina no período mais específico da Operação Condor foi porque além de ser militante comunista sou filha de um perseguido político no Brasil, Major Joaquim Cerveira, que usou a sua coerência ideológica para libertar o continente das ditaduras na década de 60 e 70 do século passado, mas que foi assassinado pelos militares unidos na chamada Operação Condor, que segundo os meus estudos e a minha tese, foi iniciada pelos militares brasileiros para unir os serviços de segurança dos regimes autoritários da época," iniciou a Dra. Neusah.


Joana Darc, ao representar o Grupo Tortura Nunca Mais, fez um questionamento sobre as reportagens do Jornal O Globo sobre o fim do regime militar e as suas seqüelas entre a população das favelas: "Na verdade estas reportagens são um pouco tendenciosas e mostram que existe um objetivo a atingir que não estão claros para o público em geral. As formas de opressão que atualmente as comunidades carentes estão sujeitas foram iniciadas no período militar, mas apenas mudaram de tática e a questão da democracia. É muito relativa, porque sem direitos sociais básicos, a pura liberdade de se expressar é capenga na atual sociedade brasileira, que ainda tem perseguidos políticos, mas hoje com outro conceito, o de população ligada ao crime organizado que se instaura na comunidade carente, porém são lideranças que oferecem perigo ao "status quo", por isso têm que ser eliminadas pelas oligarquias burguesas", expôs a militante do Grupo Tortura Nunca Mais.


O juiz Rubens Casara argumentou que "O poder judiciário no Brasil é conservador e tem um projeto de manter o sistema capitalista, pois a maioria dos magistrados vem das classes dominantes do Brasil, mas eu faço parte de um grupo que não concorda com as decisões puramente jurídicas do poder judiciário. Por exemplo, quando um juiz decide uma desocupação de sem-teto ele não sabe como essas pessoas vivem em meio à pobreza e à carência de quase todos os serviços essenciais para uma vida digna. Se o juiz visita aquela comunidade, na maioria das vezes, mudará de idéia, porque irá conviver com o dia a dia da população pobre".


O advogado Alexandre Mendes falou sobre a luta dos advogados por uma sociedade mais justa: "O combate aos desrespeitos aos direitos humanos é uma função de todo advogado e aqui eu faço uma denúncia sobre a postura da OAB do Rio de Janeiro no caso da chacina no Complexo do Alemão, antes do Pan 2007. Esta instituição teve uma postura antiética de apoio à ação policial, que não poupou os moradores da comunidade que nada têm a ver com a briga entre os bandidos e a polícia e, por isso, não houve uma investigação com médicos legistas para apurar os tiros a queima-roupa dos quais a maioria das vítimas foi alvo e a OAB-RJ lavou as mãos neste episódio de violência", confirmou o advogado Alexandre Mendes.

No segundo dia do IV Seminário de Luta Contra o Neoliberalismo foram realizados mais debates sobre A Unidade e as Revoluções na América Latina e a Geopolítica na Unidade e na Luta. O Cônsul Geral de Cuba, Carlos Trejo, falou que "A nossa revolução em Cuba é vitoriosa, porque nós temos uma coisa que se chama unidade ideológica e prática, acredito que esse seja um dos grandes segredos do nosso êxito e todo um processo revolucionário no continente latino-americano tem buscar esse princípio fundamental, que é a união de forças em torno de um mesmo objetivo, a coesão nos ideais e nos princípios almejados, que é a revolução”, alertou o diplomata cubano.


A militante do Comitê de Luta Contra o Neoliberalismo, Osmarina Portal disse que "Este seminário é um êxito, porque teve um trabalho de todos os setores em torno de um mesmo objetivo, que é a luta contra o neoliberalismo e pelo socialismo. Do militante mais humilde aos companheiros palestrantes, todos estão de acordo de que esta situação em que o Brasil se encontra não agrada ninguém e as pessoas que estão aqui querem uma discussão que aponte um caminho diferente do capitalismo, que nós estamos acostumados a conviver que não é solução para o nosso país e nem para o mundo", exaltou a militante social.

Na parte de “Geopolítica e Elementos para Unidade na Luta” fizeram parte da mesa: José Chacon (Movimento de Cidadania pelas Águas), Bruno Maranhão (MLST), Sylvio Massa (Economista da Petrobras), Hiparidi Top’Tiro (Povos Indígenas). O engenheiro José Chacon falou sobre o desenvolvimento sustentável do planeta através de estatísticas que mostram que se não pensarmos um novo modelo racional de expansão estamos fadados à extinção não somente do ser humano, mas de toda a biodiversidade na terra.

Sylvio Massa ao falar de matriz energética afirmou que a era do petróleo está com dias contados, mas não podemos mudar apenas o combustível, mas também a mentalidade da maioria das pessoas que estão acostumadas aos benefícios desta fonte de energia. "Se quisermos continuar nas mãos das multinacionais e só mudar dos combustíveis fósseis para os agro-combustíveis que sairemos das empresas petrolíferas para as gigantes da produção de grãos que irão monopolizar este novo tipo de fonte de energia", esclareceu o economista da Petrobras.


Bruno Maranhão, do MLST, falou sobre a luta do movimento sem terra e agradeceu o apoio do Jornal Inverta aos 150 manifestantes da sua organização presos na ocupação do Congresso Nacional no ano passado: "Nós atualmente temos um outro tipo de conjuntura que não é somente a luta contra o latifúndio atrasado, mas também contra o modelo excludente do projeto neoliberal que cria oligopólios multinacionais que fazem com que os agricultores tenham que se unir em agroempresas e em agrovilas que são uma adaptação para melhor das cooperativas agrícolas que só têm o sentido econômico, sendo que as vilas agrícolas são a união de vários acampamentos e assentamentos para resolverem os seus problemas que vão além da economia, como a questão da saúde, da educação, do esporte e do lazer", enfatizou o líder do MLST.


O representante das populações indígenas, Hiparidi Top’Tiro disse que o massacre contra a população indígena que começou em 1.500 continua até hoje e que este povo não tem tido voz e nem vez pelos meios de comunicação e que suas mulheres continuam sendo estupradas pelos soldados do Exército, pelos militantes das ONGs e até por religiosos que fazem trabalho nas comunidades indígenas no interior do Brasil: "Nós estamos perdendo a paciência com este estado de coisas e já demos um prazo e se não houver uma mudança na política do governo federal, o nosso próximo passo é criar um território autônomo e os militares já ameaçaram que se nós fizermos isso eles acabam com esse projeto rapidamente com armas, mas nós iremos resistir até o fim", conclamou o representante indígena.


Bento Pereira e José Tafarel