Marx por Monsieur Attali: um caso de delinqüência intelectual

Acaba de ser traduzida ao português uma biografia de Marx, escrita por Jacques Attali: Karl Marx ou o espírito do mundo (Rio de Janeiro/S. Paulo: Record, 446 pp., 2007, com caderno de fotos).

Marx por Monsieur Attali: um caso de delinqüência intelectual


Acaba de ser traduzida ao português uma biografia de Marx, escrita por Jacques Attali: Karl Marx ou o espírito do mundo (Rio de Janeiro/S. Paulo: Record, 446 pp., 2007, com caderno de fotos).

Os créditos atribuídos ao autor, que nasceu em 1943, são impressionantes: além de já ter escrito cerca de 20 livros de ensaios, 7 romances, 1 peça de teatro, 4 livros que a Librairie A. Fayard classifica como “de memórias” e 1 volume de histórias para crianças, este senhor encontrou tempo e condições para assessorar François Miterrand entre 1981 e 1990, para fundar um certo “Banco de Reconstrução e Desenvolvimento da Europa do Leste” e até para presidir uma entidade que atende pelo nome de “PlaNet Finance”, que – via Internet – alardeia microcrédito para países do Terceiro Mundo. Informado desse currículo, nenhum botocudo deveria colocar em dúvida a qualidade do que nos brinda Monsieur Attali: trata-se de mercadoria com grife francesa.

Sumariemos essa mercadoria que, por módicos (!) R$ 60, 00, é oferecida ao leitor brasileiro. O livro compõe-se de uma introdução e sete capítulos. Na introdução, Monsieur Attali nos esclarece que “nunca fui nem sou ‘marxista’ em qualquer sentido da palavra” (p. 13). Não há nada a objetar a partir desta formulação; muitos não-marxistas, e até mesmo anti-marxistas, foram capazes de realizar competentes aproximações a Marx, polêmicas certamente, mas certamente qualificadas - entre vários, cite-se Francis Wheen, com o seu Karl Marx (Rio de Janeiro/S. Paulo: Record, 2001). E Monsieur Attali diz mais: diz que hoje, “suas [de Marx] teorias, sua concepção de mundo foram universalmente rejeitadas; a prática política construída em torno de seu nome foi jogada no lixo da História” (p. 11). Cabe perguntar, então, por que voltar-se para Marx? Segundo Monsieur Attali (que se refere a Marx de modo íntimo, sempre chamando-o de “Karl”, rotulando-o como “jornalista” e confessando tê-lo lido tardiamente), porque Marx foi o “primeiro a apreender o mundo como um conjunto ao mesmo tempo político, econômico, científico e filosófico”, empenhando-se em “abarcar a totalidade do mundo e das molas propulsoras da liberdade humana” – enfim, porque “ele [Marx] é o espírito do mundo” (p. 13).

A apreciação parece simpática – e essa pitada de simpatia é reiterada ao longo dos sete capítulos seguintes, mas sempre entremeada a reservas de natureza bem distinta. Dos sete capítulos, os primeiros seis procuram resgatar, em seqüência cronológica, o itinerário de Marx: o primeiro cobre do nascimento à chegada a Paris (1818-1843), considerando a família de origem, os anos universitários, as polêmicas intelectuais, a atividade na Gazeta Renana, o casamento e a decisão do auto-exílio; no segundo, a narrativa se inicia em outubro de 1843 e vai até meados de 1849, incidindo sobre o giro de Marx no sentido da ação revolucionária, a estância em Bruxelas, os confrontos filosófico-políticos conduzidos juntamente com Engels e a experiência de 1848; no terceiro, são focados os primeiros anos do exílio londrino (até março de 1856): as vicissitudes familiares, o rescaldo da Liga dos Comunistas, a prática jornalística; o quarto (1856-1864) trata do caminho que leva à Contribuição à crítica da economia política, privilegiando a atividade política que redunda na criação da Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT); o quinto (1865-1871) tem por centro a complicada elaboração do livro 1 do Capital, mas volta-se também para as polêmicas internas da AIT e para a intervenção de Marx no drama da Comuna Parisiense; o sexto (1871-1883) ocupa-se das “últimas batalhas”, desde os desdobramentos da polêmica na AIT até a posição em face da nascente social-democracia alemã; enfim, o último capítulo (aliás, o mais fraco, a todos os títulos) quer mostrar como “Karl”, o “espírito do mundo”, foi distorcido e falseado pelos seus herdeiros, de Engels a Stalin, passando por Kautsky e Lênin, num registro já desgastado - do gênero “Marx sim, marxistas não”.

No curso do texto, não há uma única informação nova, nenhum dado até agora desconhecido; vale dizer: Monsieur Attali não acresce em nada o conhecimento histórico que se tem de Marx - o que, diga-se de passagem, não é demérito para uma obra de divulgação. E também não é propriamente um demérito o estilo frouxo, dispersivo, que pretende emoldurar os momentos mais importantes da vida de Marx com uma espécie de catálogo dos progressos científicos e técnicos que lhe foram contemporâneos.

A verdadeira questão posta por este livro é outra: sob grife francesa, a mercadoria é mesmo paraguaia (com perdão dos bons paraguaios e de seus melhores filhos, de Roa Bastos a Antonio Maidana).

Com os referidos R$ 60, 00, o leitor excursiona por aquele que talvez seja um dos mais expressivos circuitos destes tempos de pós-modernidade: o território da delinqüência intelectual, caracterizado pelo psicologismo de botequim (ou seria de bistrô?), pela ignorância e pelo confusionismo historiográficos, pela incompetência e pela falsificação analíticas, pela incongruência e, de lambujem, por insinuações que beiram a infâmia ou são mesmo infamantes. Vejamos – na brevidade imposta por este espaço - tais características (medularmente articuladas umas às outras) da delinqüência intelectual, tal como exercitada por Monsieur Attali.

É por demais conhecida a relação estabelecida – ontológica e socialmente – por Marx entre trabalho e sociabilidade, entre trabalho e humanização, relação com a qual Engels esteve sempre solidário. Pois bem: Monsieur Attali inventa (pois é mesmo de invenção que se trata) um novo Marx, um Marx que, “no fundo [...] sempre detestou o trabalho, apresentando-o desde o início de sua obra como principal causa da alienação [...]” (p. 334; itálicos meus - JPN). Quem escreve tamanho absurdo fá-lo após “interpretar” os Manuscritos de 1844 e discorrer sobre O Capital! Monsieur Attali não considera a elementar distinção entre trabalho e trabalho alienado. Para dizer a verdade, Monsieur Attali não tem a menor idéia da concepção marxiana de trabalho, como se pode constatar na sua ignorante dissertação acerca do trabalho produtivo e do trabalho improdutivo (esp. pp. 201-202).

Mas Monsieur Attali não se detém diante de nada: translada essa falsificada relação negativa de Marx para com o trabalho para o plano de suas características de personalidade – mencionando as aspirações literárias de Marx em 1836 e suas dificuldades para objetivá-las, Monsieur Attali doutrina dogmaticamente: “Manifesta-se então um traço de caráter que o acompanhará por toda a vida, influenciando profundamente a sua obra [:] a impossibilidade de considerar concluído um manuscrito, de permitir que uma obra se vá. [Marx] deduzirá disto que todo trabalho é alienante” (p. 36; itálicos meus - JPN). Hélas! O tratamento dado a Engels não é menos “psicológico”: quando, muito jovem, o pai impôs-lhe responsabilidades na empresa familiar, ele adquiriu “uma pertinaz aversão ao mundo do trabalho” (p. 51)! A “psicologia” de Monsieur Attali dispensa qualquer comentário.

Uma amostra – uma entre inúmeras - expressiva do calibre analítico de Monsieur Attali, no qual se torna difícil separar a ignorância da incompetência, do confusionismo e da falsificação, é a passagem do segundo capítulo em que ele se refere a A essência do cristianismo, de Feuerbach. Trata-se de um trecho inacreditável, assombroso (p. 51-52): ele atribui a Feuerbach, em 1841, a idéia segundo a qual a “emancipação” só pode ser obra do “proletariado”!

A inépcia historiográfica de que dá provas Monsieur Attali é algo digno de registro. Fiquemos em poucos exemplos: contra toda uma documentação incontestável, segundo a qual a Economia Política só ingressa no horizonte intelectual de Marx no primeiro terço dos anos quarenta, Monsieur Attali afirma tranqüilamente que, entre 1837-1838, Marx começa a “descobrir Adam Smith, Adam Ferguson, David Ricardo, François Quesnay, Boisguillebert...” (p. 38). Quando se refere ao Manuscrito de Kreuznach, Monsieur Attali confunde o texto de 1843 com a Crítica a Hegel, publicada em 1844 (p. 65-66)! Mais irresponsável é o seu trato das Teses sobre Feuerbach: Monsieur Attali induz o leitor a considerá-las que são da lavra de Marx e Engels (p. 97)! As incongruências sobre o Manifesto do partido comunista são incontáveis: à p. 115, atribui-se o texto apenas a Marx, que o teria redigido em uma semana (prazo encurtado, na p. 231, para quatro dias), mas depois, à p. 154, enfim Engels aparece como co-autor. Para não nos alongarmos, eis mais uma prova do rigor historiográfico-textual de Monsieur Attali: a famosa carta a Joseph Weydemeyer (5 de março de 1852), na qual Marx menciona sua contribuição pessoal ao desenvolvimento da descoberta do papel das classes e suas lutas na sociedade moderna, esta carta é transformada por Monsieur Attali em um artigo constitutivo d´O 18 brumário de Luís Bonaparte (p. 164)!

As 446 páginas de Monsieur Attali são pródigas em falsificações travestidas de verniz interpretativo. Contra todas as evidências textuais e políticas, o douto biógrafo francês afirma que, para Marx, em 1859, “o motor da história é o desenvolvimento das forças produtivas, logo, a ciência” (p. 200, itálicos meus – JPN)! Mas isto é quase nada, diante da conclusão a que Monsieur Attali chega lendo O capital: “capitalismo e mercado são uma só e mesma coisa” (p. 252)! A “interpretação” de Marx por Monsieur Attali é, em todos os seus passos, realmente “criativa” – destaquem-se apenas estas duas pérolas: a partir de sua leitura, para Marx “o socialismo, definitivamente, só pode sair das urnas” (p. 333) e “são os indivíduos que fazem a História, não as massas” (p. 350)! É por essas e outras que Monsieur Attali pode referir-se ao “legalismo” de Marx, que se converte então no pai da “social-democracia” (p. 294) – recorde-se que Monsieur Attali é (ou foi) social-democrata à moda do último Miterrand.

Sobre os textos marxianos (citados genericamente, apenas com referências a títulos, sem indicação precisa de páginas), Monsieur Attali opera o que já foi chamado de a arte da tesoura: monta e remonta argumentos, mescla passagens de obras diferentes, suprime e corta segundo sua vontade, sem qualquer critério, arbitrariamente - donde conclusões e inferências inteiramente absurdas, grosseiramente opostas à expressão límpida de Marx. A melhor amostra desse procedimento recorrente encontra-se à p. 311, onde Monsieur Attali se remete ao posfácio de Marx à segunda edição do livro primeiro d´O capital (1873). Trata-se do conhecido parágrafo no qual Marx observa que a emergência de formas explícitas e ameaçadoras das lutas de classes faz “soar o sino fúnebre da economia política burguesa”; pois bem: mediante a arte da tesoura, Monsieur Attali atribui a Marx a tese de que a comprovação de uma teoria é função da sua “eficácia política!”

No livro de Monsieur Attali, difícil é separar o ruim do péssimo. No entanto, o último capítulo, dedicado à herança e aos herdeiros de Marx, leva indiscutivelmente a palma: é realmente aquele em que a desinformação dá os braços à especulação irresponsável e o mais pródigo em insinuações infamantes. Estas últimas condensam-se especialmente em torno do destino do acervo de manuscritos e da documentação/correspondência que Marx deixou em mãos de Engels: Monsieur Attali constrói uma teoria conspirativa da luta por esses materiais, protagonizada por “agentes” do Partido Social Democrata alemão, na qual o velho Engels aparece como vítima (pp. 355, 358-359, 364-365). Mas não se esperem quaisquer juízos sérios sobre o companheiro de luta: através de Monsieur Attali, ficamos sabendo que Engels, um mentiroso (pp. 347, 355), além de iniciar, no Anti-Dühring, “o processo de desencaminhamento da filosofia da liberdade” (p. 325), é também o “inventor” do “conceito de partido de vanguarda” (p.352)!

E outros herdeiros não são poupados: sobre Kautsky, garante Monsieur Attali que sua colaboração com Engels mascara “seu único objetivo: levar os manuscritos de Marx” para a Alemanha (p. 355). Quanto a Lênin, Monsieur Attali não se limita a afirmar que no seu verbete sobre Marx, escrito para o Dicionário Granat, “tudo é falsificação ou, no mínimo, caricatura” (p. 381); isso não basta a Monsieur Attali, que vai adiante, ignorando olimpicamente o conteúdo explícito d´O Estado e a revolução: na mais descarada e desabusada mistificação, o letrado francês assevera que Lênin pensa a ditadura do proletariado como “a ditadura definitiva de uma minoria determinada” (p. 388; itálico meu - JPN). E, no que toca a Stalin, o inventivo biógrafo de Marx não diz nada de diferente do que não tenha já sido repisado por todos aqueles que estabelecem a conexão marxismo/leninismo/stalinismo (p. 407 e ss.).

A especulação de Monsieur Attali, neste capítulo final, atinge as raias do incrível: depois de relatar as peripécias de Riazanov para obter e publicar textos marxianos, refere-se a uma alocução de 1923 deste editor de Marx para inferir, sem qualquer base probatória, que ele “sabe que seus dias estão contados” (p. 401). Ou seja: com Lênin ainda vivo, Riazanov “sabe”, com uma década de antecipação, “que seus dias estão contados!”

Enfim, como não poderia deixar de ser, sobra algo para Antonio Gramsci: de acordo com Monsieur Attali, “o filósofo Gramsci escreve em 1922 suas Cartas do cárcere, criticando o desconhecimento das questões econômicas entre os comunistas e investindo em particular contra um teórico que está na moda na URSS, Bukharin” (p. 403). Desinformação e confusionismo: as Cartas do cárcere são escritas a partir de 1926 (deste ano, conhecem-se 11 delas), abrindo um arco temporal que irá até 1937; não há qualquer base documental para afirmar que Gramsci critica “o desconhecimento das questões econômicas entre os comunistas”; e a crítica a Bukharin (precisamente ao seu Teoria do materialismo histórico. Manual popular de sociologia marxista) não comparece nas Cartas, mas num texto – certamente não anterior a 1927 - constitutivo dos Cadernos do cárcere.

As alusões infamantes perpassam o livro intermitentemente - por exemplo: à p. 193, remetendo-se aos anos finais da década de cinqüenta, Monsieur Attali escreve que a “sua [de Marx] arte de falar mal de todo mundo e seu complexo de superioridade [transformaram-se] em delírio paranóico.” Neste capítulo, porém, elas se multiplicam. Uma única amostra, dentre várias: se, em várias passagens anteriores, Monsieur Attali observara a atenção extremada de Marx com seus filhos (pp. 149, 167, 178-179, 226), neste último capítulo o mesmíssimo Monsieur Attali não vacila em assinalar que Marx “permite que os filhos morram de miséria sem fazer de tudo para ganhar melhor a vida” (p. 351)! Infâmia e incongruência.

A incongruência, produto da leviandade e da irresponsabilidade intelectuais, é uma das notas dominantes dessa biografia de Marx. Quando examinou (?) as idéias econômico-políticas de Marx, Monsieur Attali afirmou contundentemente que “nada do que Marx escreve pode ser corroborado empiricamente” (p. 271; itálico meu - JPN). Agora, na quase conclusão de seu livro, ele reitera uma de suas teses fundamentais sobre Marx, aquela segundo a qual “os fundamentos da sua teoria parecem ultrapassados” (p. 415). Mas, dez linhas abaixo, na mesma página (415), Monsieur Attali justifica seu interesse por Marx, asseverando tranqüilamente que a sua teoria “recobra todo o seu sentido no contexto da globalização de hoje, por ele prevista. Assistimos à explosão do capitalismo, à transformação radical das sociedades tradicionais, à ascensão do individualismo, à pauperização absoluta de um terço do mundo, à concentração do capital, à implantação das empresas em países terceiros, à mercantização, ao desenvolvimento da precariedade, ao fetichismo das mercadorias [...]. Tudo isso fora previsto por Marx” (pp. 415-416). Ora, um mínimo de razoabilidade implicaria em indagar como é que uma teoria “ultrapassada”, cujos enunciados “não são corroboráveis empiricamente”, pode recobrar “todo o seu sentido” e propiciar uma “previsão” tão certeira?

Sejamos razoáveis: não exijamos de Monsieur Attali qualquer tipo de congruência: afinal, este senhor não vacila em prospectar que o capitalismo (com a diplomática reserva: se antes não destruir a humanidade!) pode ceder espaço a um “socialismo mundial”, no qual “o mercado poderia abrir lugar para a fraternidade” (p. 416)!

A delinqüência intelectual está sempre eximida de punição; no máximo, provoca notas críticas como a que o leitor tem diante dos olhos. Mas ela dá a medida do nível rastejante em que se movem hoje os ideólogos da social-democracia tardia e pusilânime, este campo ídeo-político que pouco a pouco se delineia como constitutivo da “terceira via” – e expõe, sem véus, a essência mistificadora de obras como a de Monsieur Attali.

Na sua biografia de Marx, Monsieur Attali propôs-se falar de seu biografado “com serenidade, seriedade e, portanto, de maneira útil” (p. 14). Não fez nada disso: confundiu, tergiversou, falsificou - como tantos outros delinqüentes intelectuais que, travestindo-se sob o manto da “serenidade” e da “seriedade”, não passam – como se diria no Rio de Janeiro do tempo de Astrojildo Pereira – de reles punguistas ideológicos.

José Paulo Netto

Na edição francesa (J. Attali, Karl Marx ou l´esprit du monde. Paris, Fayard, 2007), o ano indicado (p. 526) é o de 1926.



 Na edição francesa citada na nota anterior, lê-se (p. 542): “... aux délocalisations, à la marchandisation...”. A tradução lançada pela Record não pode ser acusada de excelente.