O etanol e a estrutura agrária do Brasil

A volta da monocultura da cana de açúcar é um retrocesso no modelo de desenvolvimento brasileiro e para abastecer o mercado dos EUA será feito um grande sacrifício para a população brasileira

    O etanol e a estrutura agrária do Brasil


    A volta da monocultura da cana de açúcar é um retrocesso no modelo de desenvolvimento brasileiro e para abastecer o mercado dos EUA será feito um grande sacrifício para a população brasileira. Segundo estatísticas do IBGE e do INCRA, o Brasil tem um total de 310 milhões de hectares agriculturáveis do total dos 854 milhões da área geográfica do país. A estrutura fundiária no Brasil é uma das mais concentradas do mundo e na maior parte das 5 milhões de propriedades cadastradas pelos órgãos responsáveis os grandes fazendeiros representam 1,2% dos imóveis rurais e ocupam 55% do espaço agrícola brasileiro, enquanto a pequena propriedade representa 60% dos imóveis cadastrados e só ocupam 7,8% da área total. Para produzir etanol haverá uma nova reestruturação da agricultura brasileira com uma nova concentração fundiária, inclusive com subsídios do governo norte-americano, uma vez que o interesse dos EUA em mudar o seu padrão energético com a produção de etanol do milho e da cana de açúcar pode fazer com que no Brasil as fronteiras agrícolas sejam aumentadas, causando impactos em vários setores da cadeia produtiva.

    Desde o início da história brasileira a economia do país sempre foi feita de ciclos, o primeiro deles foi a extração do Pau Brasil por cerca de 30 anos, depois veio a cana de açúcar, que permaneceu até o fim do Brasil colônia, depois a pecuária que interiorizou o desenvolvimento econômico e assim foram se sucedendo os tipos de atividade, mas sempre com uma característica, o modelo de desenvolvimento brasileiro sempre teve como pedra fundamental: a grande propriedade agrícola e o latifúndio. A única exceção de produção no pequeno e médio imóvel rural foi com a chegada ao Brasil dos imigrantes europeus em meados do século XIX que se instalaram no sul do país.

    A cultura da cana de açúcar em grande escala como estão oferecendo o governo dos EUA está fazendo com que o preço da terra aumente significativamente por causa da produção do etanol, mas para este tipo de atividade serão necessárias grandes extensões de terra e isso vai aumentar a expulsão do homem do campo e criar mais tensões no meio rural brasileiro com a cobiça dos capitalistas da agricultura, principalmente os grandes empresários do setor e as multinacionais que investem grandes somas de recursos nos chamados desertos verdes, são os setores que mais recebem dinheiro do governo para pagamentos a perder de vista, que na sua maioria não são pagos. Além da concentração fundiária, os problemas ambientais e ecológicos serão óbvios neste tipo setor, pois para produzir em grande escala para a exportação será preciso grandes projetos de irrigação que desequilibrarão o oferecimento de recursos naturais à maior parte da população brasileira, como já está acontecendo em vários lugares do Brasil com a plantação de eucalipto que muda os biomas e os ecossistemas, afetando o clima e causando desastres e problemas sérios para a vida, não somente do ser humano, mas para a existência do planeta e a sua biodiversidade.

    Segundo o MST, que é contra a monocultura da cana de açúcar, o grande problema é que mais 70% da produção de alimentos para o mercado interno vem dos pequenos e médios produtores rurais e isso mostra que se houver uma opção do governo federal pelos usineiros haverá escassez de áreas usadas para produzir alimentos e com isso os preços dos produtos agrícolas irão subir para o consumidor das grandes cidades. Outra constatação estatística é que cerca de 90% do emprego no campo está ligado a produção familiar e com a possível concentração da terra existirão mais sem terras e bóias-frias precarizando os postos de trabalho no setor agrícola. Os conflitos agrários, segundo o MST, irão se aprofundar caso haja um retrocesso do governo Lula em apoiar a atividade canavieira, a solução é a organização popular para impedir a produção de etanol em larga escala como propõe o imperialismo norte-americano e a elite ruralista brasileira que continua sendo uma das mais atrasadas do mundo.


Lucio Fernando