O "apagão", desta vez, aéreo!

A exemplo do que ocorre no transporte terrestre, onde o individual predomina sobre o coletivo, o rodoviário sobre o ferro e hidroviário, no transporte de cargas e o espírito do lucro sobre o bem estar da sociedade, as empresas de aviação voam para extrair o máximo de lucro, neste caso, no espaço aéreo. Nos principais aeroportos do país, em condições normais, praticamente decola ou aterriza um avião por minuto. São centenas de vôos comerciais, fretados ou pontes-aéreas, além de uma infinidade de jatinhos particulares cortando o céu para otimizar ou concentrar lucros.

O "apagão", desta vez, aéreo!




    A exemplo do que ocorre no transporte terrestre, onde o individual predomina sobre o coletivo, o rodoviário sobre o ferro e hidroviário, no transporte de cargas e o espírito do lucro sobre o bem estar da sociedade, as empresas de aviação voam para extrair o máximo de lucro, neste caso, no espaço aéreo. Nos principais aeroportos do país, em condições normais, praticamente decola ou aterriza um avião por minuto. São centenas de vôos comerciais, fretados ou pontes-aéreas, além de uma infinidade de jatinhos particulares cortando o céu para otimizar ou concentrar lucros. Foi a colisão de um destes jatinhos privados, de alto luxo (Legacy, da Embraer), com o vôo 1907 da Gol, modelo Boeing, provocando a morte de 154 passageiros do vôo comercial, que despontou a crise aérea.

    Em nome de um suposto controle total na região Amazônica, Fernando Henrique Cardoso jogou bilhões de dólares no projeto SIVAM (Sistema de Vigilância da Amazônia), uma das maiores fraudes de seu governo. De um custo inicial previsto, em 1994, de US$ 1,5 bilhão, o projeto consumiu mais de US$ 4 bilhões (em valores da época) em um processo licitatório que envolveu até espionagem da central de inteligência do imperialismo ianque (CIA) a serviço de um dos concorrentes, a Raytheon Company, que acabou ganhando a "concorrência" contra a francesa Thompson. Instalado como parte integrante do bilionário SIVAM e responsável pelo monitoramento e controle do espaço aéreo da região, o Cindacta 4 (Centro Integrado de Defesa Aérea e Controle do Tráfego Aéreo de Manaus) provoca, segundo controladores, alguns "buracos-negros" nas telas. O avião, com ou sem transponder, desaparece e reaparece da tela várias vezes, o que pode ser e foi fatal. O apagão ou sumiço do Legacy na tela do bilionário projeto de FHC (e não os controladores) provocou a maior tragédia aérea nacional.

    O governo Lula, em nome do superávit primário, instrumento para atender aos interesses da oligarquia financeira, passou a desviar dois terços dos recursos destinados à renovação tecnológica do controle aéreo e melhoria das condições de trabalho. É o tal contingenciamento para o pagamento da dívida eternizada pelos governos fantoches. Entretanto, só para a manutenção da espionagem do SIVAM são consumidos 5 milhões de reais por ano. Somando-se a isso as obras superfaturadas em reformas muitas vezes estéticas, tanto sob FHC como em Lula, aqui beneficiando as empreiteiras, são consumidos a totalidade de verbas do setor (R$ 150 milhões). A manutenção dos equipamentos, muitos ainda parados, a instalação de novos e a melhoria nas condições de trabalho continuam na sala de espera.

    A categoria há muito tempo vinha denunciando este sucateamento no setor. Estes, para dar conta do continuo aumento do trânsito aéreo em meio ao apagão dos equipamentos, se vêem forçados a intensificar e prolongar a jornada de trabalho para além de 12 horas. Lutam, assim como todos nós, pela redução na jornada de trabalho, aumento dos salários e criação de novos postos de trabalho. Devido aos resquícios ainda do tempo da ditadura fascista-militar, a categoria ainda é submetida à hierarquia militar, impedindo-os de fazer greve ou qualquer outra manifestação sob pena de prisão -por isso também reivindicam o seu enquadramento ao regime civil. Como é de costume em qualquer greve ou luta operária, comentaristas, analistas, parlamentares da direita, militares, empresários, banqueiros e a mídia, puxada pelas arqui-reacionárias Rede Globo e Revista "Veja", se uniram em coro contra as justas reivindicações dos trabalhadores, urgindo mentirosamente pelos quatro cantos do país que a crise aérea foi provocada pelas manifestações dos controladores, desviando a rota do problema.

    O aprofundamento da crise do "apagão aéreo" tem particular interesse ao setor mais reacionário e atrasado de nossas oligarquias. Este setor, o mais ligado e dependente do império ianque, elevado a primeiro plano para esmagar o movimento operário nos anos 60 e 70 e secundarizado agora pela política imperialista de desestruturar as forçar armadas locais para existir somente as forças internacionais armadas ianque, viu nesta crise, em particular, um meio para resgatar o seu prestígio e força, inclusive se valendo de antigo chavões. Seus boys (PFL e PSDB) no parlamento correram para criar uma CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito). Querem CPI não para investigar as privatizações que, entre outras fatalidades, entregaram os nossos satélites (inclusive os de segurança nacional) aos grupos estrangeiros; tampouco para dissecar o SIVAM, que pelo seu "desvio" de função provocou o maior desastre aéreo nacional; ou investigar a "misteriosa" explosão na Base de Alcântara, matando mais de duas dezenas dos melhores cientistas na área aeroespacial; ou menos ainda acabar com o Trabalho Escravo, forma esta de trabalho utilizada por muitos destes parlamentares e na fazenda do proprietário de uma das maiores companhias aéreas do país. Nada disso, querem uma comissão para desgastar o movimento grevista e suas reivindicações e explorar eleitoralmente a crise aérea na fenda aberta pela mídia.

    O presidente Lula, mais uma vez, só deu um passo a frente, a desmilitarização do setor e a negociação das reivindicações com a categoria (dia 30/03, antevéspera do aniversário do famigerado golpe de 64), para em seguida dar dois atrás, não só voltar atrás na sua acertada decisão como entregar aos militares a transição para a superação da crise (dia 03/04, depois de uma reunião com o alto comando da Aeronáutica).

José Tafarel