Bestiário (Parte I)

Texto de Kinho Vaz, publicado em duas partes pelo Jornal Inverta

 

Bestiário (Parte I)


A pele que curte a vida / Seca a ferida / Cobre o mortal

Vivente que dobra a sina / De pouco atina / Ser animal

Caminha nas duas patas / Virando latas / Deitando no chão

Sobeja a fartura alheia / Nessa cadeia de perdição


No mundo que vira as costas / Na vida que fere em postas

No dia que amanhece sem um sinal

Um guizo de cascavel / Um eclipse no céu

Ou algo que anuncie o seu final


No tempo desse planeta / Bendita teta / É o que tiver

Repasto de morte lenta / Que a fome assenta / Como puder

O braço erguido pede / Mas ninguém cede / Qualquer vintém

Da guimba tira a fumaça / Traga a desgraça / De mais alguém

Vagueia sem rumo certo / Nesse deserto / De Multidão

Espanta a quem procura / caricatura de assombração


Com lábios que ninguém lê / Com faces que ninguém vê

Nas ruas que ceguem cegas / A tanto mal

É gente virando bicho / Vivendo só por capricho

No limbo da existência desigual


No canto de cada esquina / Cumprindo sina / É fácil ver

Viventes de toda a sorte / Esperando a morte parecer

Destinos tão mutilados / Desintegrados / Na contramão

Figuras do imaginário / De um bestiário de aberração


No mundo que vira as costas / Na vida que fere em postas

No dia que amanhece sem um sinal

Um guizo de cascavel / Um eclipse no céu

Ou algo que anuncie o seu final



A noite foi fria. O calor dos corpos não foi suficiente para manter o grupo aquecido. Trapos de pano, jornais sujos e mesmo a crosta de sujeira, segunda pele, mão bastaram. A criança chorou por muito tempo até adormecer, cansada de chamar sem resposta pelo peito seco da mãe. O homem desperta primeiro. A boca áspera de tabaco e cachaça. Resmunga alguma coisa sem nexo, olha ao redor e confere o seu tesouro: latas amassadas e pedaços de papelão, empilhados numa tosca carroça feita com uma carcaça de geladeira, madeiras e rodas de rolimã. Lixo sobre lixo. Ao longo da calçada, sob a larga marquise, diversos grupos iguais permanecem dormindo. O homem faz ranger o corpo moído e levanta. Cambaleia atento ao chão, em busca de alguma ponta de cigarro. Recolhe algumas. Acende a maior, marcada pelo batom de alguma mulher. Puxa o resto do fumo até sentir a ponta dos dedos queimando. Traga a fumaça com prazer e pensa nos lábios de onde veio aquela tinta vermelha. Leva a guimba até o nariz, procurando algum vestígio de perfume. Fecha os olhos para apurar o olfato, mas o cheiro do seu corpo não permite. Fica olhando o cilindro branco marcado de batom e tenta encaixar a marca nos seus lábios. Demora-se na simulação do beijo na boca que imagina entregue. Projeta uma das tantas figuras femininas que cruzam os seus dias, fazendo cara de nojo. Abre os olhos e guarda a ponta de cigarro no bolso da bermuda rota. Sorri satisfeito, quase vingativo. Aquela boca ele poderia beijar quando bem entendesse. Volta-se para o canto onde a mulher e a criança ainda dormem. Pensou que sozinho teria mais chances de se virar. Ainda se lamenta por ter aceito a companhia da mulher e da criança que não eram suas. Lembrou da noite passada, quando acordou assustado com a presença dos dois deitados ao seu lado. Ela sorriu e pediu pra ficar. Ele sacudiu a cabeça negando. Ela afastou a criança e sumiu debaixo dos trapos, usando os artifícios do corpo para convencê-lo. O muito tempo sem experimentar prazer derrubou a sua cerca e as duas criaturas invadiram o seu espaço. Ela podia ficar com a criança, mas teria que se virar também. Dele só teriam proteção e um canto à noite, mais nada. Sacudiu a cabeça pensando na besteira que fez. Mas o dia já começava a clarear e era preciso vender as tralhas catadas para conseguir algum dinheiro. Recolheu seus trapos de dormir e começou a empurrar a carroça, com medo que o barulho dos rolimãs girando no calçamento de pedras portuguesas os despertasse. A criança choramingou e a mulher pulou no meio dos trapos, assustada. Não trocaram uma palavra. Ele acenou para que ela ficasse deitada. Ela obedeceu mas manteve os olhos arregalados na direção do homem que se afastava com a sua geringonça. Temeu que ele não voltasse, que fosse procurar pouso em outro canto qualquer. Durante o dia era mais fácil se safar com a criança. Mas a noite era perigosa sem uma companhia. Não conheceu outra vida que não essa. Nasceu na rua e ali cresceu. Não se lembra de uma mãe ou de um pai. Quando se deu por gente, já andava sozinha por ai aprendendo o quanto vale a ser inocente. Gostava de sentar nas escadarias da estação do Metrô, para sentir o cheiro bom das pessoas que passavam limpas e bonitas. Às vezes forçava o encontro do seu corpo com o delas. Um carinho sempre rechaçado com medo e repugnância. Não entendia porque os homens nunca sorriam e as mulheres sempre evitavam esse contato, abraçando suas bolsas junto ao colo. Mesmo assim voltava todos os dias, até que puseram grades na estação e guardas para impedir presenças como a sua. Então compreendeu que o seu mundo não era o mesmo daquelas pessoas que subiam as escadas.

Um dia andava pedindo comida numa loja de sanduíches quando um homem de farda pediu que ela saísse. Quando estavam na rua ele perguntou se ela queria ganhar um daqueles, apontando para um imenso hambúrguer ilustrando a propaganda da loja. Ela sorriu dizendo que sim. Então ele a levou por uma entrada lateral até o depósito e a fez esperar. Voltou com uma bandeja repleta de cheiros, gostos e promessas. Criança que era, não percebeu a armadilha. Nem viu a maldade no fato do homem tirar as calças, enquanto ela comia, mostrando a sua tripa de carne. Apenas agarrava o sanduíche com força, para ter certeza de que ele não sairia de suas mãos, dando grandes mordidas e engolindo tudo sem quase mastigar. Quando terminou de comer ele se aproximou e começou a ensinar para ela a forma de conseguir comida todos os dias. As dores que sentiu não foram poucas. Mas para quem nunca conheceu carinho, aquilo foi percebido como tal. Por isso ela voltou sempre, para saciar a sua fome e a fome do homem de farda. Até o dia em que chegou a sua primeira menstruação. Ao reparar suas pernas sujas de sangue, ele retirou a comida de suas mãos, pegou seu braço com brutalidade e a proibiu de voltar.

O homem agora empurra a carroça vazia. Vendeu o que tinha catado no dia anterior pela miséria de sempre. A dúvida de todo dia voltou. Se gastar o dinheiro em comida, fica sem nada. Se não conseguir catar nada hoje, não come amanhã. Resolve buscar o lixo das lanchonetes, onde sempre existem sobejos que disfarçam o estômago. Pensa na mulher com a criança. Será que vão comer? Irrita-se com a preocupação. Danem-se os dois. Melhor será se não os ver mais. A mulher é matreira, sabe usar o corpo. Se ficar vai acabar embuchando dele. Ela que se vire por lá e nem pense querer dividir o que ele conseguir. Já se viraram até hoje, que continuem se virando. Ele não fez isso a vida inteira? Já passou por perrengues bem piores quando mais novo. No tempo de moleque roubava bolsas de madames. Naquela época ainda tinha pernas pra correr. Levava muita porrada, todas as vezes que era pego. Apanhava enquanto a polícia não chegava e continuava apanhando quando ela aparecia. Depois o metiam no camburão, faziam gato e sapato, juravam de morte e o soltavam mais na frente. Conhece bem o gosto de um cano de revólver na boca. Os dentes trincando o ferro, enquanto o tambor gira com a única bala. O suor descendo frio pelo rosto e entrando pelos olhos apertados de pavor. O gatilho disparado em falso, detonando risos algozes. A sentença proferida a seco: “hoje você está com sorte, vai viver”. Depois o alívio da morte, que faz desfalecer, que deixa os músculos tão frouxos que eles não conseguem prender nem a urina nem as fezes.

Ele nunca gostou de viver em bandos. Sempre perambulou sozinho pelo centro da cidade, sobrevivendo como podia. À noite buscava um abrigo qualquer para deixar a euforia da cola de sapateiro embalar o seu sono. Teve que mudar de conduta depois sofrer uma maldade dessas que só os homens de bem são capazes de cometer.

Continua na próxima edição.


Kinho Vaz