Até Sempre em nossa luta amigo e companheiro Domar Campos

O Surgimento da Militância

“Desde rapaz eu tive uma preocupação pela coisa social, que me levou sempre a prestar atenção na realização dos movimentos da classe operária, nos contrastes da classe rica com as condições do povo pobre, cheio de necessidades, que me levou a aceitar com facilidade as doutrinas marxistas, a luta de classes, a existência de uma sociedade de classes, que é uma das definições de Marx mais perfeitas para definir a sociedade liberal e capitalista. Mais tarde, um pouco mais adulto, já com 20 anos, me alistei nas Forças Francesas, Francia Libre. Fui, através da clandestinidade, porque o Brasil estava a favor do Eixo, das potências fascistas, para Montevidéu, no Uruguai. Lá trabalhei no consulado francês, Francia Libre. Mas não cheguei a ir para a guerra, porque o voluntariado era para quem tinha uma especialidade concreta. Voltei depois de algum tempo. Não fui para a guerra e me casei no Uruguai”.

A volta ao Brasil

“(...) Continuei com os contatos que eu tinha anteriormente, como Geraldo Jociner, por exemplo, um amigo meu, juiz comunista, muito conhecido no Rio de Janeiro. Mais tarde conheci Virgílio Alberto, quem me mandou fazer trabalhos no Uruguai e na Argentina, eu já havia morado lá. E através dele fui trabalhar na Conjuntura Econômica, onde conheci Richard Bergson, um dos maiores economistas do mundo, judeu que estava exilado no Brasil durante a guerra, uma das coisas que marcou muito minha trajetória, porque era um homem de altíssima competência e tinha muita influência no Brasil naquele momento. Ele me ajudou. Conheci Jesus Soares Pereira, um dos grandes impulsionadores da política petrolífera no Brasil, conheci Raimundo Araújo Vásquez, que foi ministro do exterior brasileiro, que até hoje é um grande amigo. Também militante de esquerda, Inácio Rangel, grande teórico, desaparecido há pouco e autor de A Inflação Brasileira, melhor livro sobre a inflação no Brasil. Essas pessoas foram amigas minhas, entre outros, Rômulo de Almeida, que trabalhou com Getúlio Vargas no Catete, na primeira elaboração da Lei 2.004, que criou a Petrobrás. Esse grupo já seria o suficiente para lançar um movimento mais responsável. Conheci outras pessoas, como Nélson Werneck Sodré, um dos fundadores do ISEB, uma instituição que marcou época no Brasil. Tudo isso me deu algum nome na imprensa, colaborando como cronista (...)”.

A força do Brasil e a guerra

“O Brasil de hoje é uma nação completamente diferente. Muito mais forte. Nós é que estamos inclinados a não acreditar nisso. Estamos induzidos pela grande imprensa a não acreditar. O Brasil é uma potência média. Digo isso com toda ênfase. Porquê? Porque encheu espaços vazios. Trouxe para cá a indústria automobilística, a indústria naval, a indústria siderúrgica, a indústria metalúrgica, para transformar uma nação que antes da guerra importava gasolina em barril porque só tinha uma refinaria no Rio Grande do Sul para refinar petróleo, quando o Uruguai tinha uma igual. A Argentina tinha seis. O Brasil era realmente um país agrícola e atrasado e transformou-se numa nação industrial que é hoje, com todos os defeitos, essa fase eu considero importantíssima. Veio rodeada das ocorrências da guerra. Havia aquele sentimentalismo da coisa francesa. Os alemães tiveram prestes a ganhar a guerra. E se ganhassem a guerra, o sul do Brasil já tinha nome, ia se chamar Alemanha Antártica. E tudo o mais que ocorreu de brutal no Brasil. Houve uma aliança com os Estados Unidos, porque os americanos necessitavam basicamente da base de Natal, em troca, Getúlio Vargas negociou, com um empréstimo, com tecnologia para criar uma grande indústria siderúrgica, a Companhia Siderúrgica Nacional de Volta Redonda (...)”.

A vitória soviética na Guerra

“(...) No final da guerra, o mundo dividiu-se em dois. As potências capitalistas não mandavam tão diretamente e tão absolutamente no Brasil. Havia o outro poder, que era o poder soviético, que havia saído da guerra com uma vitória brilhante. Foi, na verdade, a grande vitória da guerra, a vitória sobre o Exército alemão e o mundo apresentava de outra maneira. Foi mais fácil ao governo brasileiro negociar as empresas estatais que não agradavam muito ao processo capitalista, mas tiveram que aceitar. A Eletrobrás e a Petrobrás foram coisas que os chefes absolutos, isso está demonstrado em todos os jornais, e, sobretudo na imprensa alternativa, demonstraram a enorme expansão que produziam essas empresas. Surgiram em conseqüência de tudo isso, a Vale do Rio Doce, conseqüência de um estado capitalista maior, mais forte, mais responsável. Foi um grande momento (...)”.

Os 5 de Julho e Juventude

“(...) Houve o 18 do Forte. Veio o Levante de 1922 e de 1924 em São Paulo, a Coluna Prestes, que foi uma demonstração de eficiência de tecnologia militar, um espetáculo de eficiência. Na Revolução de 24 em São Paulo foi superativa, o pensamento brasileiro vivendo o Forte. Depois 30, que já foi uma guerra civil. As guerras civis, como se sabe, são produtivas, criativas, trazem soluções imediatas. Gerou uma série de coisas novas que vieram a ter conseqüências interessantes mais tarde, como foi a legislação social de Getúlio Vargas. São coisas nacionais brilhantes, importantes, que não se destacam, porque a comunicação, a opinião pública, está entregue a uma imprensa que ou está comprometida ou confusa. Ela é quem informa, é a única a informar. Então a juventude só é movida quando essa imprensa quer”.

O grupo do ISEB

“O ISEB foi muito interessante. Eu lembro do ISEB, porque o jornal está sempre falando sobre isso. Osny Duarte Pereira, Nelson Werneck Sodré, Roland Corbesier, meu colega na ABI. O ISEB foi uma conseqüência dialética disso, porque foi composto pelo grupo de Itatiaia, que fica no meio, entre Rio e São Paulo. Era um grupo de São Paulo, insatisfeito, inconformado, como eram os 18 do Forte. E havia um outro grupo no Rio. Se correspondiam, criaram a revista e acabaram se juntando. Todos tinham dinheiro, eram rapazes intelectuais. Infelizmente não fiz parte desse grupo. Conheci todos depois,  no meio da estrada, na divisa Rio São Paulo, eles ocupavam um hotel em Itatiaia, por isso se chamou Grupo de Itatiaia. Grupo de Itatiaia é uma coisa que devia ser comemorado no Brasil, assim como o 15 de Novembro”.

O neoliberalismo e a abolição
da carteira de trabalho

“O novo sistema, na verdade não tem nada de novo. É o liberalismo levado ao extremo. É como se estivéssemos retrocedendo. Eu tenho um amigo, que é o Leon Vateon, quem é um filósofo do pensamento novo. Ele diz o seguinte: Eles não estão querendo deter o avanço das conquistas sociais, eles estão querendo tirar o que já foi alcançado. Em vez de oito horas de trabalho, sete horas, trabalhar dez. Ao invés de ter décimo terceiro, não ter décimo terceiro nenhum. Os contratos de trabalho já estão aí visivelmente é uma coisa extremamente perigosa. Sem a carteira de trabalho o cidadão não é nada. Eles estão nessa fase. O neoliberalismo funciona com base num ponto da teoria econômica: a moeda, o pacto monetário. Não leva em conta em segundo ou terceiro plano, a potencialidade notável do Brasil, que talvez seja a maior do mundo devido às formações”.

A potencialidade do Brasil
e a negação do liberalismo

“Essa potencialidade extraordinária não inspira nada. A única inspiração deles, e essa é a primeira tese que eu diria que será a tese alternativa nossa a saber: a primeira tese deles é a moeda, a primeira tese alternativa nossa deve ser a negação disso e dizer é preciso fé. A fé que devemos ter é na potencialidade nacional e cuidar da moeda certamente, mas ela é secundária. O fundamental é essa potencialidade incrível. E equilíbrio não existe em economia capitalista, liberal. A própria filosofia do liberalismo, ela não é de equilíbrio, ela é de lutas, de oscilações. Eles próprios confessam isso. É um choque da procura, da oferta, dos grandes interesses com os pequenos interesses, da classe dominante com a classe trabalhadora. Não haverá nunca equilíbrio. Então, nós partirmos, para uma política que começará com um plano que já é uma negação do liberalismo. O liberalismo não aceita planos. A tese deles é que as coisas se resolveram naturalmente, espontaneamente, o mercado se ajusta. Isso, a meu ver, é uma idiotice”.

A imprensa alternativa

“Há uma alienação com as potências dominantes, mas há também um começo de reação. A própria imprensa vem se manifestando. Penso que deveria haver um cartel da imprensa alternativa. Precisamos quebrar o monopólio da imprensa. Nosso primeiro esforço deve ser contra esse monopólio terrível”.

Soberania: O Único Fator Escasso

Domar Campos, ao longo de sua vida de militância intelectual e prática, jamais pensou em condensar suas idéias sobre o Brasil em um livro e somente tomou essa iniciativa como uma tarefa do Movimento 5 de Julho. Entre sua simplicidade e espírito de camaradagem e o compromisso revolucionário com o povo levou adiante o encargo e em 12 de julho de 2001, lançou pela Editora INVERTA, seu livro: Soberania: O Único Fator Escasso. Esta iniciativa acabou por se constituir em uma grande contribuição ao pensamento econômico do país, justamente, em um momento que as idéias do neoliberalismo se impunham com força total e a escassez de formulações autóctones e realistas, sobre nossa formação econômica e social, exigiam uma reparação imediata.


O livro Soberania, O Único Fator Escasso, de Domar Campos é um retrato do Brasil, sob a forma de texto jornalístico, destacando por um lado, a vocação da grandeza do país, sua enorme extensão conquistada com muita bravura e competência. Ele revela a existência de uma estrutura industrial de bom nível, chegando aos seus quinhentos anos como uma nação de crescimento relativamente harmônico, mantidos os fatores essenciais ao desenvolvimento econômico e social.
Por outro lado, o país ainda apresenta aspectos econômicos e sociais extremamente negativos. Alguns caracterizadamente de terceiro mundo. Comparáveis aos padrões mais baixos internacionalmente.
Nesse particular, o livro enfatiza ainda,  alguns males crônicos da estrutura política do país, particularmente a passividade como é encarada a influência externa que, no momento é ainda mais dura e humilhante que no passado.
Soberania, o Único Fator Escasso, lançado pela Editora INVERTA foi o único livro lançado pelo jornalista e economista Domar Campos.