Lei Financeira na Itália

Até o fechamento dessa matéria aqui na Itália, ainda não havia sido decidido o destino da Lei Financeira. Essa lei é realmente importante e merece ser analisada com atenção.

Ela traça o direcionamento econômico para o próximo ano do governo de centro-esquerda de Romano Prodi. A lei, pesadíssima, foi aprovada na Câmara dos Deputados e está agora em discussão no Senado, onde os primeiros sinais dizem que passará, mesmo com dificuldade: são 35 bilhões de euros entre cortes nas contas estatais e novos impostos.

Sobre a lei, já foram dirigidas críticas, seja pelo setor da Indústria e Comércio, seja por algumas categorias de trabalhadores, metalúrgicos, das escolas e das universidades, seja dos sindicatos de base e autônomos.

Está é uma Lei Financeira que a direita do país, o time de Berlusconi, tirado do poder nas últimas eleições no início da primavera, por poucos votos, diz ser de esquerda.

E que a esquerda, de acordo com alguns dos setores mais radicais e expoentes do mundo da política, diz ser uma lei generosa demais com as classes mais ricas e que não defende com decisão as necessidades dos trabalhadores, martelados por anos de sofrimentos, mas que propõe cortes e diminuições apenas das despesas sociais.

De fato, a lei diminui muitos gastos e  aumenta algumas alíquotas financeiras. O jogo é o seguinte: à diminuição direta de impostos para as classes baixas e médias corresponde o aumento de muitas taxas indiretas e de despesa para serviços sociais - saúde, educação, finanças locais.

Um resultado, no fim das contas, negativo para muitos milhões de italianos. Já foram realizadas algumas greves e outras estão previstas para dezembro, como, por exemplo, a dos funcionários das escolas.

A Lei financeira, entretanto, tornou-se o teste de prova político de um governo que une setores do centro; católicos e parcelas do antigo partido comunista que ainda estão em cena - os DS (Democratas de Esquerda), o PdCI (Partido dos Comunistas Italianos) e a RC (Refundação Comunista).  Este último partido pode contar com o terceiro cargo institucionalmente mais importante do país, o de presidente da Câmara dos Deputados, na pessoa de Fausto Bertinotti (ex-secretário-geral da RC) eleito em maio.

Enfim, é uma bela prova para Prodi e seus parceiros. Caso a supere, contará com um horizonte de tempo razoavelmente longo para aprofundar mais suas bases no país.

A bancada governamental é maioria mínima no Senado, com pouquíssimos senadores a mais que a oposição de centro-direita.

Corre, sobretudo, uma suspeita de corrupção contra a oposição centro-direita de Berlusconi, que teria transformado, nas últimas eleições, votos brancos em votos a favor de seu partido, Força Itália.

Nesse cenário de luta entre os grandes, de fato os interesses e a vida de milhões de italianos não vêm sendo minimamente considerados.

Temos que nos perguntar até que ponto os pedidos de filiação à centro-esquerda podem alavancar o medo de um retorno da direita ao governo.

Por quanto tempo ainda o medo da volta de Berlusconi como chefe do executivo servirá como sustento político para a coalizão de Romano Prodi?

Tiziano Tussi

Correspondente Itália