Sueli Dantas, PRESENTE!

É com imenso pesar que comunicamos a todos os militantes de nosso Partido, amigos e simpatizantes de nossa causa, aos demais lutadores sociais a perda de nossa querida camarada, Sueli de Mendonça Dantas, membro do Comitê Central do PCML e presidente, em licença, do Conselho de Administração da Cooperativa INVERTA. O sepultamento da camarada Sueli Dantas foi realizado no dia 17 de agosto de 2006, quinta-feira, às 14 horas, no Cemitério de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense-RJ. O sepultamento foi marcado pela comoção dos familiares, camaradas e amigos de Sueli, que tomaram conhecimento da perda e puderam chegar ao local a tempo. O correspondente da Prensa Latina no Brasil, o jornalista cubano, Rolando Rivera fez questão de estar entre os camaradas nesse momento tão difícil. Outros camaradas do PCML nos outros estados e de Cuba enviaram condolências à família de Sueli, que publicaremos nessa edição. O editor de INVERTA Aluisio Bevilaqua se despediu da camarada em nome do PCML, do Jornal e da Cooperativa: “Aos companheiros de luta que estão presentes tanto do Brasil quanto de fora do Brasil, que estão presentes e que ao longo de 25 anos estiveram ao lado de Sueli a cada dia, a cada minuto. Ela conseguia existir entre duas famílias, uma consangüínea, formada das suas relações internas e outra família que é a família de solidariedade, compreensão e de luta por mesmos ideais. Sueli nos ensinou muitas coisas, que ser filha de camponês humilde não significa que não possa crescer em seu conhecimento de mundo, na dimensão de aprender as coisas e se doar ao mundo até seu último momento de vida; fazer dele parte do universo de cada pessoa em cada lugar, daqueles que passam fome, dos que são explorados e convertidos em cobaias de um sistema de opressão que massacra todos nós; isso não quer dizer que ela, por ter feito essa opção, tenha ficado inimiga de todos que pensem de uma forma diferente. Vamos ficar eternamente com a historiadora, a revolucionária, com a mulher que conseguiu romper todas as barreiras e assumiu um papel dentro da história, dentro da construção de um país melhor e o tanto que ela conseguiu fazer num mar de escuridão que existe em nosso país, de trabalho duro, fome, miséria, ela fez aquilo que qualquer revolucionário faz: se doar ao mundo, e precisamos acreditar naquilo que a Sueli acreditava, acreditava no ser humano, que cada um é capaz de transformar e fazer as coisas. E isso a tornou imprescindível, como está escrito na comenda que a camarada recebeu do Jornal INVERTA, em 2004. Nós também acreditamos que as pessoas são capazes de saírem da condição de submissão e se tornarem sujeito da história. E mesmo quando sua vida é dedicada a algo, é porque ela quis dedicar e não porque alguém mandou que ela dedicasse ou alguma cartilha rezou para ela o que ela deve fazer ou não na vida. Livre Sueli! Livre Camarada! Livre revolucionária! Livre mãe! Ela continuará para sempre em nossa luta e na construção do que a gente faz. Com a bandeira do PCML e o Hino da Internacional Comunista foi dado o adeus a camarada. A historiadora Sueli Dantas tinha 52 anos; adoentada havia meses, a camarada estava internada no Hospital da Posse, em NI e veio a falecer, às 14 horas do dia 16 de agosto de 2006. Nesta edição republicamos a entrevista de Sueli Dantas publicada em INVERTA.

I - Qual é sua origem, camarada?

SD - Sou filha de um paraibano da Serra do Ingá e de mãe fluminense, filha de operário. Tenho 50 anos de idade e desde criança já participava da luta política.

Nasci em Nova Iguaçu, mas vivi minha infância em um sítio em Xerém, Duque de Caxias (Fazenda São Lourenço), onde presenciei, ainda criança, a violência do grileiro e da repressão e o conflito de terras.

Meu pai chamava-se João Henrique da Silva, semi-analfabeto, mas de inteligência brilhante. Minha mãe era natural do Estado do Rio, chamava-se Anerê da Silva Dantas e estudou até a 4ª série primária.

Os dois criaram a primeira Associação Rural e mais tarde o primeiro Sindicato Rural dos Pequenos Produtores de Duque de Caxias, que sofreu intervenção com o golpe militar.

Ela ficou três dias presa no Quartel Central do Exército - RJ, na Central do Brasil, acusada de comunista. Procurada pelos camponeses que queriam aprender a fazer contas para trabalhar na feira, colocou como condição para ensinar que eles também aprendessem a ler e escrever; daí surgiu a Escola Sagrado Coração de Jesus, existente até hoje, e que foi a primeira escola da região.

E hoje, embora ainda exista, há a necessidade da criação de uma escola de 5ª a 8ª série e de transporte, pois as crianças continuam tendo apenas esta escola e precisam andar horas para estudar.

I - Como o ambiente familiar e da região se apresentava para você?

SD - Apesar de ter mudado ainda pequena para esta região, trago muitas lembranças boas da luta, da cultura simples da roça e da convivência com pessoas migrantes de diversas regiões do Brasil, todos camponeses ou ex-camponeses.

Difícil era conviver, quase que diariamente, com os velórios dos chamados “anjinhos”: nossa casa ficava a beira da estrada e era comum ver passar enterros de crianças e adultos vitimados por “barriga d’água”, “mal de sete dias “, desnutrição e verminose - o que era visto como vontade de deus - ou vitimados pelos grileiros contratados por latifundiários apoiados pela polícia.

Os sítios mais longínquos ficavam mais expostos e as notícias chegavam pelo sobrevivente do massacre; lembro-me que minha mãe teve que comprar uma arma para se proteger de grileiros.

Certo dia ela denunciou o capanga do grileiro que a ameaçara de morte e ficou presa; meu pai pegou uma espingarda velha e tirou ela da cadeia na marra.

As primeiras estradas cortadas na mata e as primeiras pontes construídas na região em sistema de mutirão são boas lembranças da minha infância. Uma das lembranças mais tristes foi quando houve o golpe militar e tiraram o trem: os camponeses, em sua maioria, tiveram que abandonar as terras, pois não tinham mais para quem vender a produção que garantia a compra de produtos como sal, roupas, ferramentas, sementes para nova produção.

Aquilo que os grileiros e latifundiários não haviam conseguido com toda a repressão, conseguiram com a retirada do único meio de transporte que cortava a região como promessa de se criar uma rodovia que até hoje inexiste.

I - O apreço pelo conhecimento, melhor dizendo, foi incentivado pelos familiares?

SD - Aprendemos a ler e escrever e estudamos até a quarta-série com minha mãe, cujo sonho de ser professora foi viabilizado pelos projetos desenvolvidos com a eleição de João Goulart, que desenvolveu cursos de formação e aperfeiçoamento de professores, ainda que sem formação - os chamados professores leigos - como minha mãe, embora ela tivesse alfabetizado já cerca de 100 pessoas, entre crianças, jovens e adultos, inicialmente num galpão e depois em nossa casa, que foi transformada em escola; os bancos e móveis foram feitos pelos pais e alunos. Minha mãe fazia cursos em Niterói, promovidos pelo governador Roberto Silveira, e nesta época, com 7 anos, como já estava  cursando a 2ª série, era eu quem tomava conta da escola.

Como a turma era multiseriada, minha mãe tinha por prática colocar as crianças mais adiantadas a ensinar as outras, daí meu gosto pelo magistério. Em relação às dificuldades de sobrevivência, era a mesma de toda família camponesa, como perda da produção com estiagem, enchente e chuva de granizo; dívidas no banco e dificuldades como dívidas nas vendas; falta de assistência médica.

Em relação à educação, diferentemente das outras crianças, as dificuldades começaram no ginásio: andávamos 2 horas para ir e 2 para voltar para cursar a quinta série, chegávamos enlameados e com cadernos sujo de borra de lamparina e éramos discriminados pelos professores, pois estes eram de fora da região e davam aula na Vila. Material escolar tínhamos porque uma tia materna nos ajudava.

I - Quando e como foi iniciada sua militância política?

SD - Quando meus pais se mudaram para a região e começaram a articular os mutirões, íamos às reuniões, eu e minhas 2 irmãs, e fazíamos anotações para minha mãe; participávamos das assembléias da associação, das assembléias camponesas e fomos à passeata dos Cem Mil em apoio a João Goulart.

Quando veio o golpe vi meu pai juntar-se ao grupo que confiscou o gado do Manoel Português e ir para o Capivari, onde sob a influência do PC foram cavadas trincheiras para resistir ao golpe.

Meus pais, ao saberem da deposição de Goulart, nos tiraram da região. Ouvia muito sobre a ação dos comunistas, sobretudo pelo meu avô, que havia sido integralista e dizia que os comunistas comiam crianças e que queriam provar que deus não existia. Minha mãe tinha uma idéia equivocada sobre os comunistas, mas era contra o integralismo.

Existiam brigas políticas nas assembléias com militantes que afirmavam ser do PC. Quando houve o golpe, ela enterrou os documentos para evitar prisões; depois de solta, ficou traumatizada, se recusava a falar sobre o que ocorreu, mas afirmava não concordar com as torturas, prisões e mortes. Esta fase despertou em mim uma curiosidade sobre o que era o comunismo e o espírito de luta.

A leitura que os camponeses faziam era que os comunistas iriam tomar os sítios.

I - A luta no Sindicato dos Professores - fale um pouco da importância que essa militância teve em sua formação e os limites da luta sindical?

SD - Em 76 eu já estava trabalhando como professora da rede pública, profundamente inconformada com o tratamento dispensado aos professores, tanto pelas direções, pelas Coordenadorias e Estado, como pela maneira como o corpo docente tratava os alunos.

A primeira briga foi com a orientação pedagógica e contra a proibição de esquentar a marmita, pois os professores não tinham direito ao café e acesso à cozinha. Em 79, outra luta política, já no Colégio D. Pedro I, em Mesquita, foi pelo direito de usar bermuda, fazer vaquinha de café para os professores e defender os colegas junto à orientação pedagógica de que era necessário formar turmas especiais, diminuir o número de alunos para melhorar o aprendizado - e não apenas responsabilizar os professores - além de exigir que a diretora abrisse a porta sem dar chutes e parasse de gritar e dar socos na mesa, coisa que era rotina quando lá cheguei.

Depois disto foi criada a primeira turma de crianças excepcionais. Nesta escola fui convidada pela professora Iraí a participar de uma assembléia de professores, em Niterói, no Sindicato dos Metalúrgicos, onde tinha milhares de docentes. Posteriormente, fizemos uma assembléia e paramos a escola, que entrou em greve.

A diretora, depois de um período tentando fazer o pessoal voltar ao trabalho, convocou a comunidade e os professores com carro de som. Tentamos manter a greve e, não conseguindo, entrei para o comando de greve. Os meios de comunicação espalhavam que os grevistas estavam espancando e depredando.

Prossegui no comando da greve e só voltei ao trabalho com o fim dela. Com as inúmeras greves, começaram as articulações para formar o sindicato, participei, embora indiretamente, pois era muito respeitada pela categoria; fiz filiações, participava ativamente, mas percebia que não iríamos passar disto.

O que conquistávamos numa greve perdíamos nos anos seguintes. Com o tempo percebi que os movimentos e o sindicato não passavam de trampolim eleitoral.

I - Você teve contato com os camaradas do agrupamento que veio a resultar na OPPL. Como foi esse encontro e como foi transformada sua militância como comunista?

SD - No ano do retorno dos exilados políticos e com a eleição de Brizola, o CEP - Centro Estadual dos Professores foi abandonado pelas direções que assumiram cargos nos governos.

Numa assembléia da categoria, no Sindicato dos Metalúrgicos, em Nova Iguaçu, tinha na mesa um pessoal que eu não conhecia, eram pessoas simples, falavam em unidade do movimento sindical, rede municipal e estadual e da articulação e unidade entre o movimento popular e sindical. Uma dessas pessoas era a camarada Osmarina Portal.

Na mesa estavam representantes do MAB e da FAMERJ, Aluisio Bevilaqua e Ana Alice, eram companheiros da OPPL - Organização Popular é Prá Lutar. Falavam de uma outra sociedade, denunciavam a prática reformista e eleitoreira, do sindicato como instrumento de conscientização, falavam da sociedade socialista.

Identifiquei-me com o grupo; realizei campanha pelo fundo de greve, arranjei na categoria companheiros para fazer plantão na sede que foi alugada, ajudei na reorganização do núcleo, e, em 3 meses - que era proposta do grupo - reorganizamos o Sindicato Estadual de Professores em vários municípios, realizando, primeiro, eleições em Nova Iguaçu, enquanto outros companheiros da OPPL assumiram a reorganização do núcleo na sede central no Rio.

Fui convidada para formar a chapa de unidade, não queria ser da diretoria, mas firmei compromisso, se não sair chapa de unidade, entro na chapa. Passei a atuar com outro objetivo: avançar na consciência e formação política para a revolução comunista, formar novas lideranças e quadros.

Participei das primeiras assembléias de fundação do CEPPES e das atividades por ele desenvolvidas, como cursos, Semana do Socialismo Vivo, a palestra com Prestes.

A atuação política destes camaradas levou à unificação do sindicato dos funcionários e professores, ao qual vários setores eram contrários, e a uma participação ativa da FAMERJ e do MAB e associações em todo estado a exigir Saúde e Educação junto ao movimento sindical.

I - Há quatro anos foi realizado o Congresso de Refundação. Como você avalia o papel do Partido na luta pela revolução comunista no Brasil?

SD - Em 88, eu já havia reativado a Associação do meu bairro e o Diretório Acadêmico; estava no movimento sindical e sofri ameaças que tinham o intuito de me afastar do agrupamento.

Esta era a tática da direita e também dos reformistas para através do terrorismo e das calúnias afastar o povo da OPPL. Só então fui convidada a entrar para a ALP (Aliança de Libertação Proletária), mas nos cursos e palestras ouvia falar da necessidade da refundação comunista, do partido revolucionário, da vanguarda, da revolução comunista.

Quando criamos o INVERTA, o Movimento 5 de Julho e depois o processo da Refundação Comunista, que constituiu o PCML, acompanhei as posições do Partido por entender que é o correto para a realidade brasileira.

O Partido de quadros é uma necessidade, assim como a consolidação da refundação e um centro ideológico capaz de combater a contra-revolução.

I - Como você destacaria o papel de uma Cooperativa como a INVERTA?

SD - A INVERTA Cooperativa tem um papel importantíssimo em nossa proposta política. Tem em sua direção e no corpo dos cooperados, filhos e filhas da classe operária que se dedicam à ela - integralmente ou com parte de seu tempo - para que esta possa prestar cada vez mais serviços, como a edição do órgão central do PCML - o Jornal INVERTA, seu principal produto; além das teses e livros do Partido - de formação política, como o “Reacender a Chama”; o “Manifesto 5 de Julho”, “Enigma da Esfinge” de P.I. Bvilla e outros; e trabalhos externos com a edição de livros, folhetos, jornais para sindicatos e movimentos, e outros materiais editoriais e noticiosos (...) Como diz o INVERTA: Confia no teu povo! Privilegie ter um livro editado numa cooperativa de trabalhadores que, além da sobrevivência, luta por um ideal de justiça social.

I - O estudo da realidade do país, da ciência marxista-leninista, tendo o Jornal como órgão central são particularidades que distinguem o PCML?

SD - O INVERTA surgiu da necessidade que os companheiros da OPPL e do CEPPES colocavam de formar quadros e surgiu numa conjuntura em que a mídia burguesa decretava o fim da história; a crise ideológica estava instalada entre os comunistas e para minha tristeza, em particular, teve em seu número zero a manchete: URSS GOLPEADA.

Como já prevíamos, foi fundamental para manter a unidade do nosso agrupamento, reaglutinar os comunistas revolucionários, os marxistas-leninistas dispersos por entender que o PCB e o PCdoB não atendiam aos interesses da classe operária e da revolução.

Tanto é verdade que muitos camaradas sérios e de projeção histórica na luta internacionalista permaneceram até o fim de suas vidas em nossas fileiras, como Elisa Branco, Delci Silveira, e outros de igual projeção e representatividade se mantêm até os dias atuais no PCML.

A importância de nosso jornal também tem sido a de propiciar formação política não só aos militantes, mas também ao povo, além de ser um contraponto em relação à informação da burguesia e do imperialismo, e um espaço político para denúncias, tanto em nível de Brasil como internacionalmente, contra as atrocidades do imperialismo.

(BJ)