A fraude da Globalização

Reportagem sobre o XI Encontro Mundial para Comércio e Desenvolvimento realizado em São Paulo, pela ONU.

 

Quando surgiu a globa-lização, foi difundido que beneficiaria a todos porque comprariam e venderiam para todo o mundo. Analisando o comércio, verificamos que se deu exatamente o oposto: as grandes organizações é que tiveram estas vantagens e as pequenas foram sufocadas mais ainda, especialmente na América Latina. Pois, as empresas americanas são as que mais compram para o consumo americano, e as que mais vendem produtos diversos para a América Latina. Essa invasão americana é que provocou a reação chinesa, na compra de soja brasileira, pois os chineses querem negociar diretamente com o produtor. Segundo o Gazeta Mercantil, de 22 de junho, as quatro maiores exportadoras de soja do país são as multinacionais ADM, Bunge, Cargill e Dreyfuss. Essas facilidades foram abertas pelo governo Collor de Mello, cujo primeiro ato foi liquidar a Interbrás, que fazia esse comércio. Essa política foi seguida por FHC na venda de várias estatais, que com a privatização entraram em colapso, como aconteceu com as hidroelétricas.

A globalização funciona com base na economia neoliberal, que tem regras rígidas estabelecidas por organismos financeiros como o FMI e o Banco Mundial. Embora o BNDES tenha tanto dinheiro quanto o Banco Mundial, está proibido pelo FMI de fazer investimentos em obras públicas, pois o FMI alega que isso aumenta o déficit público.

Globalização foi a re-estruturação da economia americana que estava perdendo terreno para a economia japonesa e de outros países europeus.

Antes da globalização, os países produziam para seu sustento e exportavam os excedentes. Com a globa-lização, mudou tudo. Eles aconselhavam aos países: vocês devem produzir para exportar e não se incomodar com a economia interna. Isso revelou uma completa mudança da economia dos países e o empobrecimento de suas populações, uma vez que, o controle de suas economias passou a ser com interesses do exterior. Como conseqüência da globalização, atualmente, 44% da população da América Latina vive abaixo da linha de miséria e o desemprego tem proporções assustadoras. Em 7 anos de globalização, houve aumento de exportações de alguns ítens, mas no total a renda per capita da América Latina despencou em 5%, enquanto que o desemprego aumentou. Isso se deve ao fato das grandes empresas estrangeiras fazerem seu modelo de exploração, reduzindo ao máximo possível a mão-de-obra, como fazem em seus países, onde a população não cresce. Para a América Latina isso se traduz num desastre, pois os investimentos são cada vez maiores para níveis de emprego cada vez menores.

Para se livrar dos controles maléficos da globalização, Orlando Caputo recomenda aos países que façam suas eco-nomias de modo a atender suas necessidades, sem depender de importações. Ele diz que a reformulação da economia depende de diretrizes de governo e não se pode esperar que o mercado resolva esse assunto. Tal como na corrida espacial, o governo tomou a decisão sem acreditar que o mercado resolvesse esse assunto. Recomenda que a moeda deve ser nacional e condena o país que pautar o preço de seus produtos de consumo interno com uma moeda externa. Isso levou o Brasil a contínuos aumentos de preço de produtos, que são totalmente ou quase totalmente produzidos no país, como energia elétrica e combustíveis, simplesmente porque um governante seguiu o canto de sereia e ligou o preço desses produtos ao dólar americano. O que não trouxe vantagem ao Brasil e prejudicou o assalariado, que não ganha em dólares e sim em reais. Caputo diz que nos anos 80 e 90 os valores financeiros dominavam os governos dos países centrais. Atualmente, esses valores foram descartados e deram lugar a economia de bens reais, tecnologia e conhecimentos, tanto que nos Estados Unidos, os ativos financeiros rendem  pouco ou nada. Na América Latina, esses ativos financeiros ainda se aliam ao capital produtivo, isto porque os investimentos que vem para a América Latina não são moedas reais e sim compensações financeiras ou de balanço, entre as firmas que operam aqui e no exterior.

Orlando Caputo Leiva é o chefe do Centro de Estudos de Empresas Transnacionais em Santiago do Chile e define empresas transnacionais como aquelas empresas que operam em todos os países, mas tem sede em países centrais da Europa, Estados Unidos e Japão. Elas seguem, portanto, interesses dos países-sede. Caputo diz que, embora a base do controle seja o mercado exportador, o que as empresas externas desejam é comprar as nossas empresas e dominar nossas economias, pois o mercado interno é dez vezes maior que o mercado exportador. Caputo afirma que elas não querem nosso desenvolvimento, pois quanto mais atrasados estivermos, mais fácil será o domínio. Cita como exemplo o cobre chileno, que à duras penas, foi nacionalizado pelo Governo Allende, que também modificou o modelo exportador passando a exportar o cobre metal, que dava muito mais lucro do que exportar a pasta, com apenas 32% de cobre. Com a reversão da nacionalização  se desmanchou o modelo de exportar o cobre metal e o Chile voltou a exportar a pasta de cobre, tudo feito sorrateiramente, sem que o povo chileno desse conta dessa modificação.

A globalização tem se revelado uma verdadeira antropofagia, onde a economia dos países mais pobres é devorada pelos países mais ricos, mas seus efeitos se fazem sentir dentro dos países onde os setores mais ricos devoram os mais pobres. Nos Estados Unidos, a classe média reclama que está sendo achatada, ficando cada vez mais pobre, enquanto os grandes conglomerados vão ficando cada vez mais ricos. Isso se reflete na qualidade de vida onde a juventude americana está cada vez mais obesa e sofrendo de doenças cardíacas e outras disfunções. No Brasil, os tentáculos da globalização criaram as privatizações, com aumentos de tarifas públicas que não param de crescer.

Retorno à Era Vargas

Para vencer este caos, o ministro Recupero, em artigo da Folha de São Paulo, recomenda o retorno da Era Vargas, época em que o Brasil deu partida para sua industrialização, com a criação das grandes empresas estatais: Siderúrgica Vale do Rio Doce, Petrobrás, Álcalis e a estatização do câmbio. Atualmente, o BNDES está cheio de dinheiro, mas não pode aplicá-lo no Brasil, pois o FMI diz que isso provocaria  inflação.

Fim da Globalização

Caputo diz que a globalização não tem fôlego para agüentar muito tempo, o que dará lugar a um novo modelo de economia mundial com a formação de vários blocos, além do bloco americano, um bloco na China, outro no Japão com os tigres asiáticos, outro europeu. Quanto ao Mercosul, seu grande desafio é de criar uma moeda independente do dólar e que realmente funcione. Por não ter essa moeda e operar com o dólar, o Mer-cosul entra em crise toda vez que seu comércio se desequilibra, pendendo para a Argentina ou para o Brasil. Como o comércio do Mercosul é feito por empresas externas que querem dólar para fazer remessas para os países centrais, o Mercosul  vem sendo sufocado no seu crescimento. Além desse problema financeiro, o Mercosul pouco ou nada vem cuidando da reformulação de sua infra-estrutura, proibindo até obras nesse sentido, como a construção de hidrovias, hidroelétricas e rodovias, como a Cuiabá Santarém. Enquanto isso, a União Européia caminha a passos largos. Portugal e Espanha receberam super rodovias nos moldes das alemães; além disso, a comunidade européia monta um reator nuclear à fusão, três vezes mais eficiente que os reatores à fusão, usados nos EUA. E, começa a usar um sistema de ônibus, com células de combustível, não poluidores e três vezes de maior rendimento que os motores que usam petróleo; inaugura vários sistemas de trens de alta velocidade, inclusive sem rodas e deslizando em campos magnéticos. Enquanto isso, o sistema ferroviário americano está atrasado em pelo menos 30 anos e o sistema  ferroviário brasileiro está atrasado em pelo menos 50 anos.

Aldo Alvim de Rezende Chaves - Cel. Aer.