Plante Reggae: Cultura e consciência

A cidade serrana de Nova Friburgo, agraciada com uma natureza exuberante e com um povo trabalhador e criativo, é fértil também numa juventude que promete movimentar o cenário cultural da cidade. Ao lado de ritmos tradicionais da região, como o forró, nasce de mansinho, com o maior respeito e consideração, o grupo Plante Reggae.

 

I - Qual a formação do Plante Reggae?

PR - Alexandre Borges, faço vocal e violão; Guilherme Valente na percussão e backing vocal; Guilherme, na bateria; Merlin Brown, no baixo e vocal; Fernando, guitarrista, que não pôde vir hoje; o Tute, também na guitarra e Bebeta, o Bernardo, no vocal e na guitarra. Estes dois moram no Rio, vêm só de vez em quando para alguns shows, alguns eventos, são membros honorários da banda e estão sempre vindo aqui.

I - O Reggae surge na Jamaica como um movimento de resistência à dominação estrangeira. Fale um pouco da influência que levou vocês a formarem um grupo de Reggae.

PR - A Jamaica tem uma peculiaridade, é bem parecida com o Brasil em certos aspectos até musicais, mesmo o batuque, muita influência afro, de ritmos. No nordeste, eles adotaram o Reggae e o transformaram juntamente com o samba em samba-reggae, já tem um pouco disto inserido na nossa cultura, assim como é muito parecido com o xote. Acho que por afinidade foi fácil o Reggae entrar no Brasil. Nossa influência maior foi o Bob Marley mesmo, o grande difusor do Reggae no mundo. No Brasil, quem ajudou a difundir o Reggae foi o próprio Gilberto Gil, com a regravação de “Woman No Cry”, e outros artistas que tocaram a música do Bob Marley. Foi a partir dele que vieram outros, até o próprio Peter Tosh que era da mesma banda e fez carreira solo de repercussão mundial, e Wailer, que não sai da Jamaica, e faz um som de qualidade, e o Jacob Miller. A gente começou a conhecer o universo reggae e viu que não era uma simples batida. Gente preco-nceituosa fala que a música dá até sono, mas não pega a história, a raiz, não sente a vibração do som ao vivo, que para nós é como se fosse um momento de meditação para refletir sobre as coisas que estão acontecendo no mundo, Bob Marley tinha muito disso.

I - Quais as outras influências do grupo?

PR - O rock’n roll, blues, antecedem o Re-ggae. O Reggae veio um pouco depois, mas quando bateu também não saiu mais, e até o rock nacional mesmo que a gente teve muito contato nos anos 80. Nossa faixa de idade é 26, 27 anos, mas música boa não tem idade, ouvimos músicas da década de 70, como Led Zeppelin, Jimmy He-ndrix, BB King. Curtimos muito Elis Regina, Clara Nunes, Chico Buarque. O bom do Brasil é isso, tem muita coisa para você pes-quisar, ouvir, dá para todas as tribos assimilarem várias coisas. Além do samba, Cartola, Paulinho da Viola. E uma influência de todos nós é o Raul Seixas.

I - Vocês são todos aqui de Friburgo?

PR - A maioria, o Guilherme é do Rio, mas foi criado em Friburgo.

I - O mercado fonográfico não abre espaço para o som que está surgindo, não tem espaço, mata ainda no nascedouro. Como é que vocês estão vendo esta indústria cultural?

PR - É complicado porque hoje em dia as gravações quando estão na mídia estão por interesses comerciais. Numa conversa que tive com o Aluísio, ele lembrou Cazuza, “...enquanto houver burguesia não vai haver poesia...”, porque a burguesia sufoca o movimento que continua acontecendo, mas não aparece na mídia, onde só aparecem as coisas comerciais, que vendem. Quanto à expectativa de projeção da banda, somos muito pé no chão e sabemos que a música realmente sofre certo preconceito, mas quando consegue se instalar é valorizada, porém, até conseguir, sofre muito preconceito. O reggae é um ritmo que o pessoal gosta, a juventude gosta mais, mas ainda tem uma certa resistência. É interessante quando tocamos no centro urbano, tem muita gente que se identifica; quando tocamos no interior, também tem gente que curte, mas ainda é um grupo pequeno. O Reggae está conquistando espaço, por exemplo, já tem um programa de rádio só para o Reggae, na Rádio Cidade. Dizemos que fazemos música também como musicoterapia, uma forma de nos encontrarmos. Nenhum de nós vive de música, é complicado.

I - Fale um pouco sobre isso:

PR - Todo mundo aqui tem sua profissão. O Merlin é advogado, eu (Alexandre) sou engenheiro, o outro guitarrista é engenheiro, o Guilherme está se formando, o outro Guilherme acabou de se formar.

I - Como vocês vêem a situação que vive o povo brasileiro e como isso se reflete na música de vocês?

PR - Apesar de tudo, o povo brasileiro sabe contornar algumas situações e criar outras. O povo, a mistura de etnias, acho que isso nos deu uma resistência, uma coisa universal que a gente desenvolve, e que o mundo inteiro consegue absorver. É na dificuldade que as pessoas se superam. As pessoas nestes países do chamado Primeiro Mundo estão sempre na mesma, elas não têm o que superar, elas já têm um padrão de vida bom, enquanto o povo brasileiro tem que estar sempre se superando para sobreviver. Assim como o povo jamaicano. O interessante do Reggae é que ele leva uma mensagem, não é só um ritmo que você dança; você procura saber sobre Bob Marley, quem se interessa começa a ver a tradução de uma letra e vê a mensagem, o conteúdo forte e universal porque vai perdurar por anos e anos essa mensagem do Bob Marley, vai estar nas gerações futuras, meus netos, bisnetos vão acabar gostando também, sendo cada vez mais raiz.

I - Nova Friburgo tem a influência muito do regional...

PR - Friburgo sempre teve bons músicos, aqui sempre foi um cenário em que se fez muita música e de qualidade. Temos duas bandas sinfônicas centenárias, a Terpe e a Campesina. Para se ter idéia da influência de Nova Friburgo na música e no contexto nacional, a coisa começou muito com o turismo, a cidade teve uma das primeiras linhas férreas do Brasil, começaram a ser construídos muitos hotéis de luxo que recebiam uma galera burguesa, depois começaram a vir fábricas de renda. Houve uma época em que as fábricas desempregaram um monte de gente e a cidade ficou com uma mão-de-obra qualificada levada para a fabricação de moda íntima. Friburgo hoje domina o cenário brasileiro, de cada quatro mulheres brasileiras, uma veste roupa íntima fabricada em Nova Friburgo, segundo uma pesquisa. Para cá veio muita gente estudar nas faculdades. Temos faculdade de Direito, de Comunicação, Enfermagem, vem muita gente, até do Nordeste, Minas Gerais. Friburgo sempre teve um apelo de natureza ambiental, água e rio, acho que todo mundo aqui da banda sente muito isso, a gente vive em Lumiar, São Pedro, Macaé de Cima. É estimulante esse contato com a natureza, achamos que foi meio por aí que a gente acabou chegando ao Reggae, foi uma coisa natural, pelo menos comigo foi assim (Merlin) e acredito que com todo mundo.

I - Como é que vocês estão vendo esse cenário de guerra em países como o Iraque, por exemplo?

PR - Acho que tudo isso vem da ganância do capitalismo selvagem, das multinacionais, eles têm que ganhar dinheiro a todo preço e não importa como, é por isso que os países subdesenvolvidos estão miseráveis. Com esse negócio de internet a comunicação no mundo se difundiu de uma tal maneira, mas as pessoas ainda não sabem usar o poder incrível que elas têm nas mãos, como algo produtivo, mas estão aprendendo e vão começar a se mobilizar. Com toda essa crise no país, acho que nunca se viu ou ouviu falar tanto em política; as pessoas nunca se interessaram tanto nesses últimos vinte anos, desde a ditadura. Esse sistema do capitalismo que o Guilherme falou é verdade, é a ganância do homem de querer cada vez mais.

I - Não se pode falar em Reggae sem falar em África e resistência...

PR - O Reggae tem uma raiz muito forte na África, e isso também é interessante, acho que a cultura branca abraçou o reggae e aos poucos está começando a conhecer mais a cultura afro. Uma parte interessante também é que Marcus Mosiah Garvey, o profeta rastafari, antecedeu a vinda do que seria o deus na terra, o messias Haile Selassie, o rei da Etiópia. Essa coisa da redenção, de voltar para a mãe África, mesmo que seja uma utopia, tem o significado de voltar para ser respeitado. O Haile Selassie, apesar de ser um rei opressor, não deixou Mus-solini entrar Etiópia, combateu tudo isso.

I - Quais são os planos no Plante Reggae para agora?

PR - Plante Reggae pretende agora ensaiar toda segunda-feira, uma vez por mês, domingo, por causa do guitarrista que tem esse problema de horário, segunda e quarta é um projeto assim. Estamos começando a desenvolver também nossas músicas. Estamos dando prioridade as nossas músicas, além dos covers que a gente faz. O cover foi uma base, fazer um Bob Marley, um Baner Spel, um Peter Tosh foi uma base para o nosso swing, a nossa musicalidade. A sorte dessa banda é que a gente reuniu amigos que têm o mesmo propósito, acho que é por isso que há uma grande chance de termos uma projeção, pelo menos em nível regional.

I - Vocês querem deixar alguma mensagem ao leitor?

PR - Curta o reggae bastante, ouçam a mensagem, tentem entender, porque não é só o ritmo.

Bianka de Jesus