As eleições na Itália

 

As últimas eleições regionais e administrativas que aconteceram no início desse mês na Itália abriram numerosas fissuras no cenário político italiano. A derrota do grupo de Silvio Berlusconi ficou clara para todos, inclusive para ele. Houve um deslocamento dos votos em direção ao grupo de centro esquerda.

Até mesmo em Puglia, região do sul da Itália, elegeu-se um representante de a Refundação Comunista. Trata-se do partido de Fausto Bertinotti, um homem que se apresenta como líder comunista e se põe à extrema esquerda no panorama político parlamentar italiano, e de muito tempo um reconhecido homossexual. Enfim, uma verdadeira revolução cultural, um terremoto das convenções.

Podemos entrever, todavia, alguns problemas para o futuro. Ë improvável que o grupo de direita de Berlusconi consiga manter o controle do país somente com promessas vazias, sem propostas concretas. O governo tem procurado apenas defender e administrar sobretudo o produto da riqueza e a posição jurídica e econômica dos líderes empresariais que, neste ano, reduziram vertiginosamente os custos da produção.

Somente alguns líderes do grupo de Berlusconi reagiram aos resultados das urnas, conscientizando-se da derrota. Outros, inclusive o próprio Berlusconi, limitaram-se a repetir a mesma ladainha do anticomunismo, da submissão cultural e da hegemonia social da esquerda em relação ao níveis do poder central. Até mesmo a morte do Papa tornou-se leimotiv dessa discussão. Em todas as declarações que levaram a tão conhecida Casa da Liberdade a perder também essas eleições, após diversas situações eleitorais negativas que foram registradas a partir de 2001, o governo apareceu prostrado, sem qualquer argumento político ou iniciativa prática.

Desse modo, essas eleições, que são consideradas relevantes em âmbito nacional, quatorze regiões das vinte foram às urnas, demonstraram os limites das frentes do governo. No ano passado em várias regiões o grupo de direita já havia sido também derrotado. Essas dificuldades e incapacidade do governo de movimentar-se com inteligência também atravessaram os eleitores.

A Aliança Lombarda de Bossi foi a única que confirmou a vitória do grupo na Lombardia e no Veneto, duas regiões ricas que são os únicos feudos do partido racista do norte, mas cuja conquista não é significativa, pois trata-se somente da resistência de algumas províncias distantes e das cidades atrás dos Alpes. Todavia esse resultado é um dos sinais mais fortes do enraizamento do partido de centro direita. De fato, se Berlusconi consegue manter-se somente aliando-se a Bossi, deverá se conformar a ser um representante local ou quem sabe “ultralocal”? Penso que seja muito pouco para quem está ao lado de Bush, Putin etc.

O problema para o grupo de centro esquerda é oposto àquele de centro direita. Por enquanto, é um problema de perspectiva. A vitória dos partidos de esquerda deu-se apenas porque o país empobreceu e os eleitores decidiram de lhes provar isso. Mas essa estrutura política, que abriga ao mesmo tempo diversas alas como as mais radicais do partido de Refundação Comunista e a do Partido dos Comunistas Italianos de Armando Cossutta, as católicas e aquelas absolutamente mais moderadas e prontas para assumir compromissos, terá sérias dificuldades de propor um programa em conjunto.

É bom lembrar que quando esses mesmos líderes estiveram no governo, do fim dos anos 1990 até 2001, sempre ao lado de Romano Prode como leadership, que hoje retorna à cena política nacional, foram implementadas duras medidas econômicas que alteraram o nível de vida dos italianos: o Euro, o pacote Treu, que decidiu pela introdução do trabalho flexível, uma espécie, por enquanto, de “jornada nas estrelas”.

Enfim, não nos parece que seja uma boa alternativa optar por uma ou outra dessas duas frentes políticas. Nesse momento, os piores estão à direita, mas ficaremos atentos, pois no próximo ano teremos as eleições políticas nacionais.

Tiziano Tussi

Tradução: Profa. Dra. Maria Aparecida Rodrigues Fontes