A luta pela terra no Zimbábue e as ameaças dos Estados Unidos

 

Por que o Zimbábue se tornou alvo recente do imperialismo americano? O secretário de Estado, Colin Powel,  defendeu, em entrevista ao jornal New York Times,  a derrubada do governo de Robert Mugabe e insinua que após a queda os Estados Unidos serão generosos com o país africano.

Como em outros países africanos, a independência foi conquistada com intensa luta. Desde a década de setenta, movimentos guerrilheiros se opunham, na então Rodésia,  ao regime de segregação racial que governava a ex-colônia britânica. O desfecho dessa mobilização foi a obtenção da independência em 1980, com a eleição de Robert Mugabe, líder da União Nacional Africana do Zimbábue (ZANU), um dos importantes movimentos de luta pela libertação. Em 1989, a União Africana do Povo do Zimbábue (ZAPU), liderada por Joshua Nkomo, se alia ao ZANU, formando o ZANU-Frente Patriótica que tem ampliado  sua presença eleitoral e conduzido o país de forma independente e voltado para o enfrentamento dos grandes da grande maioria negra e pobre.

Um das grandes heranças do colonialismo foi o alto grau de concentração da propriedade agrária: apenas 4,5 mil famílias concentravam, até recentemente, a posse de 75% das terras cultiváveis. Em 2000, veteranos da guerra de libertação começaram a ocupar fazendas, o que deu início a uma importante reforma agrária apoiada pelo governo. Em julho de 2001, 5.030 propriedades rurais tinham sido expropriadas e entregue a camponeses sem terra, totalizando 9 milhões de hectares. Para se dimensionar tais medidas, devemos lembrar que as fazendas comerciais totalizavam 11 milhões de hectares Trata-se de algo extremamente significativo em um país ainda basicamente agrário, com a agricultura empregando cerca de 66% da força de trabalho.

Nas últimas eleições legislativas, o ZANU- Frente Patriótica obteve novamente a maioria dos votos (62 parlamentares), derrotando a aliança conservadora (32 representantes),  que conta com o apoio dos antigos lideres do apartheid.

As reações contrárias ao governo zimbabuense logo se manifestaram. Desafiando a proibição da União Européia de circular entre suas fronteiras, Mugabe esteve presente nos funerais do papa João Paulo II, numa aparente demonstração de força após as últimas eleições.

O Zimbábue tem os seus problemas e a situação econômica se agravou com as pressões do FMI e organismos internacionais, mas a opção pela reforma agrária não tem volta, como enfatiza o governo.

Além disso, o que certamente incomodou ao sr. Powell é o fato do Zimbábue contar com importantes aliados na região, como o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, que tem se oposto às investidas imperialistas do governo americano.

Estarão os Estados Unidos dispostos a abrir outra frente antes de resolvida a questão do Iraque? Mesmo sem uma resposta imediata à pergunta, devemos ampliar a denúncia de mais esta ameaça dos Estados Unidos: defesa intransigente da independência zimbabuense e da soberania dos povos. Certamente a relativa tranqüilidade na África austral atrapalha as estratégias bélicas do imperialismo estadunidense.

Antonio Cícero Cassiano Sousa