França: Briga entre socialistas e comunistas

O primeiro-ministro francês, Leonel Jospin, anda mais atarefado do que nunca, às voltas com a decisão unânime dos comunistas de não aprovar a lei pálida proposta pela “esquerda plural” sobre as demissões em massa.

França:

Briga entre socialistas e comunistas

ou a ante-sala da política européia

Por: Roselis Batista
Correspondente na França



O primeiro-ministro francês, Leonel Jospin, anda mais atarefado do que nunca: além de recusar o sistema federalista alemão como modelo da futura Europa unificada, além de ter ocultado o seu passado numa organização partidária de tipo trotskista (a linha lambertista francesa, da qual ele se separou depois - e o problema não é ter pertencido a ela, mas tê-lo negado), há pelo menos um mês está às voltas com a decisão unânime dos comunistas de não aprovar a lei pálida proposta pela “esquerda plural” sobre as demissões em massa perpetradas pelas empresas, em particular pelas multinacionais - como a Danone, por exemplo.

O PCF entendeu a mensagem dos trabalhadores e assalariados quando estes não o favoreceram nas urnas nas recentes eleições municipais e cantonais. Muitos membros do partido comunista andavam há tempos de nariz torcido com esse flerte que o PC iniciou ao fazer parte do governo. O PCF então passou a participar massivamente dentro das inúmeras manifestações de luta contra empresas riquíssimas, que só têm aumentado seus lucros nos últimos anos, mas que mesmo assim estão despedindo seus empregados. Todo mundo já sabe que algumas que no passado recente fecharam as portas em território francês, dizendo-se deficitárias, um ano ou dois depois foram abrir uma filial num país segundo ou terceiro mundista, onde as leis que protegem os trabalhadores são mais moles, para não dizer quase inexistentes, os salários muito mais baixos, logo, aportam mais lucro para os insaciáveis empresários do mundo capitalista.

Neste último sábado 20 000 (vinte mil) manifestantes em Paris recordaram aos políticos comunistas que esperam deles a aprovação de uma lei que realmente resolva essa imposição arrogante dos donos e acionários das empresas de despedir a torto e a direito a qualquer momento sem levar em conta o destino de seus trabalhadores, e sem ter o argumento de déficit.

A primeira votação dessa lei - chamada de Lei de modernização social - já teve lugar, mas foi rejeitada pelos comunistas, e sem o apoio deles os socialistas não conseguiram sua aprovação na Assembléia. A lei, revisada, foi submetida outra vez à aprovação no dia 12 de junho. A cabeça do PCF, Robert Hue - que já confirmou a sua candidatura às próximas eleições presidenciais, criticou o texto da mesma, julgando-o muito fraco. Disse: “Isso não convém de maneira nenhuma ao que se tem que pôr em prática”.

Apesar de que os operários não têm muitas ilusões sobre o seu próximo estado de desemprego - da empresa DIM, que fabrica roupa íntima feminina, sobretudo meias - entre os que estavam na manifestação, eles continuam protestando, pois é a única forma de tentar conseguir algo, e têm esperanças de que os políticos comunistas realmente os ajudem. A lei fala de “um mediador” obrigatório para participar do diálogo entre os parceiros - patrões e empregados - e evoca também “ uma nova definição da demissão econômica”.

Não resta a menor dúvida de que esse tema é da maior importância para o futuro das relações trabalhistas no território europeu, que construíra brevemente sua constituição. A França, que continua sendo um dos países - apesar de tudo - com as leis que mais favorecem o trabalhador - desde e quando o trabalho exista - tem que esclarecer que é moderna sem ser carrasca e verduga.

Dito de outra maneira, o primeiro-ministro socialista - que também será candidato à presidência ao que tudo indica - tem um abacaxi difícil para descascar, pois além de estarem bisbilhotando muito no seu passado - coisa muito em moda na política francesa de hoje - ele tem que conservar a sua popularidade, fazendo algo no sentido de evitar que a onda de demissões aumente o desemprego. Ele tem que ser socialista dentro da Europa que possui vários modelos de socialismo - alguns deles mais inimigos do trabalhador do que qualquer sistema de direita - como o de Tony Blair, eleito não por unanimidade, mas por masoquismo esperançoso, diria eu. O primeiro-ministro Jospin tem também que convencer os comunistas a cederem um pouquinho que seja nessa lei. Esta exige que se comunique aos trabalhadores que eles serão despedidos, antes de que se aplique a ação. Ora, num gesto de prepotência, o representante de Max & Spencer - a grande loja inglesa de roupas, cosméticos e alimentos - respondeu que eles respeitaram essa condição, pois avisaram ao representante dos trabalhadores uns “quinze minutos antes”.

Na Alemanha se comenta que a rejeição de Jospin ao projeto alemão de uma Europa Federal tem a ver com um discurso eleitoreiro da parte do primeiro-ministro francês. Os alemães estavam cansados de esperar uma manifestação francesa sobre as propostas que eles faziam. Disseram que pelo menos agora Jospin tinha dito algo (30 de maio). Por enquanto parece que só as questões relacionadas à polícia de fronteiras e à polícia por delitos criminais são as que não causam problema. Por outro lado ficam ainda abertas as questões relativas aos parlamentos nacionais, à política agrícola comum, e sobretudo à divisão e administração econômica de todo o novo mundo europeu unificado - (os países que entraram, lógico). De todas as maneiras, há nisso tudo, além da época de eleições que se aproximam, o fato de que a Alemanha é vista na França como um país que além de economicamente mais forte, tem tendências a querer impor o seu modo de ver, e portanto os franceses querem se precaver antes de sentirem que certas ingerências nem tanto. A França marca bem que no seu território há problemas econômicos e sociais sérios, mas que podem ser resolvidos graças justamente a uma política socialista com tendências bastante filantrópicas. Agora só falta ver se os socialistas vão mesmo escutar os comunistas para avançar um pouquinho no que nesse sistema como um todo, será finalmente, um paliativo a mais. Ou dito de outra maneira, um remédio alopata, cura num dia para abrir uma nova chaga no outro!