Niemeyer: NÃO! ao Plano Colômbia

Em entrevista ao INVERTA, Oscar Niemeyer responde com a clareza e objetividade que lhes são características às perguntas sobre a conjuntura nacional e internacional. A pedido do PCML, recentemente, desenhou o cartaz para a Campanha Internacional contra o Plano Colômbia

Niemeyer: NÃO! ao Plano Colômbia

 

"Não acredito mais nas soluções legais. Todos os nossos governantes representaram e defenderam esse regime de classes que anda por aí, sem nos darem uma única brecha para o regime mais justo que desejamos. Mas me tranqüiliza lembrar que a miséria é grande demais para ser contida."


Leia a Convocatória do I Encontro Internacional de Solidariedade e pela Paz na Colômbia e na América Latina. Um encontro de luta contra o Plano Colômbia

 

 

 

Em entrevista ao INVERTA, o arquiteto Oscar Niemeyer, recentemente agraciado com o título de “O Arquiteto do Século" pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil - comenda que muito lhe agradou, como revela na entrevista - responde com a clareza e objetividade que lhes são características às perguntas sobre a conjuntura nacional e internacional.

A pedido do PCML, Niemeyer criou um cartaz-símbolo para as FARC-EP contra o Plano Colômbia. O arquiteto também assinou a convocatória, junto a outras personalidades mundiais, para o I Encontro Internacional de Solidariedade e pela Paz na Colômbia e na América Latina. Um encontro de luta contra o Plano Colômbia.

Do monumento aos trabalhadores de Volta Redonda, passando pelo monumento dos Sem-Terra recentemente inaugurado, ao cartaz-símbolo da luta contra o Plano Colômbia, Niemeyer sempre manifesta sua indignação contra as barbaridades cometidas pelo sistema capitalista.

E tudo isso vanguardiado pela firmeza ideológica e humildade revolucionária, que o torna um exemplo de homem de nosso tempo, um quadro da revolução proletária, um propagandista do comunismo no mundo.

 

INVERTA -Recentemente você criou um cartaz-símbolo para as FARC-EP contra o Plano Colômbia e aderiu à convocatória, junto a outras personalidades mundiais, a um encontro internacional contra o Plano. Como você vê esta luta para a América Latina e o Brasil?

 

 

OSCAR NIEMEYER - Pelo que dizem, a luta é antiga, já tem mais 30 anos. Luta contra a miséria, contra essa discriminação social que se multiplica por toda América Latina. E apoiá-la é, ao meu ver, a única posição possível.

 

 

I - Você foi eleito o arquiteto do século pela IAB. Como você recebeu mais esse prêmio por parte dos arquitetos brasileiros?

ON - É claro que me agradou.


I - Nos últimos anos, apesar de você continuar criando arrojadas obras arquitetônicas, tem expressado mais artisticamente sua compreensão de mundo através de imagens e monumentos sobre as questões sociais, como o Monumento aos Trabalhadores de Volta Redonda, aos Sem-Terra, a Luís Carlos Prestes, a série de esculturas, e mais recentemente o cartaz para as Farc. A que você atribui isto?

ON - Primeiro, à minha posição política. Como gostei de ver a foto do monumento ao MST, inaugurado dias atrás no Paraná, com a presença de centenas de brasileiros. Para mim é o movimento de protesto mais justo e importante que ocorre, neste momento, em nosso país, e Stédile, um grande líder.


I - Em todos os processos históricos no mundo os grandes cientistas, poetas, escritores, quase como um reflexo direto das crises sociais também cresciam em produção artística e literária. Que fenômeno é esse? Você se sente compelido por ele?

ON - Acho que as crises sociais, os momentos mais agudos de miséria e desespero, levam todos a uma atitude mais definida e constante em seus protestos.


I - A luta das FARC na Colômbia, assim como a luta de Fidel e Che Guevara, em Cuba, foi diretamente contra o imperialismo norte-americano e governos títeres, através das armas. Você acha que esta forma de luta impede uma maior solidariedade a estas revoluções?

ON -Eu sempre digo que, quando a vida se degrada e a esperança sai do coração dos homens, só a revolução.


I - Você acha que o Brasil tem que passar por isso necessariamente?

ON- Não acredito mais nas soluções legais. Todos os nossos governantes representaram e defenderam esse regime de classes que anda por aí, sem nos darem uma única brecha para o regime mais justo que desejamos. Mas me tranqüiliza lembrar que a miséria é grande demais para ser contida.

 

Cartaz Plan Colombia


I - O Encontro mundial contra o Plano Colômbia que você, do Brasil, Peres Esquivel, da Argentina, Saramago, de Portugal, Chomsky, dos EUA e outros convocam, terá um papel decisivo na luta de toda América Latina por sua libertação do imperialismo americano. Qual deve ser o engajamento dos comunistas revolucionários e do povo brasileiro neste processo?

ON - Acho que o problema que convoca a todos, sem diferenças ideológicas ou de nacionalidade, é a solidariedade humana que deve prevalecer.


I - O que você acha da retirada dos EUA da presidência da Comissão de Direitos Humanos da ONU?

ON - Achei ótimo.


I - Qual a relação entre a luta contra o Plano Colômbia e a defesa da soberania nacional e da Amazônia?

ON - É que o Plano Colômbia não tem como objetivo - ao contrário do que alegam - o combate ao narcotráfico na Colômbia. É a crise dos EUA que poderá fazer ressurgir um velho sonho do imperialismo norte-americano, no qual inclui a Amazônia.


I - Os Estados Unidos vivem uma crise econômica e política, que já não podem esconder do resto do mundo, tendo a Alca como uma via para tentar conter esta crise. Qual a sua opinião sobre isso?

ON - Como disse antes, a crise norte-americana, com a presença de Bush no governo, vai criar problemas cada vez maiores para os povos da América Latina. E a Alca é uma prova disso.


I - Como você vê as perspectivas para o Brasil dentro de uma América Latina, onde Cuba começa a sair do isolamento, com a subida de Chavez ao poder na Venezuela, o avanço da guerrilha na Colômbia e no México, e a queda de ditadores como Pinochet, no Chile, e Fujimori no Peru?

ON - É difícil predizer o futuro, principalmente neste mundo tão conturbado. É claro que surgem novos pontos de resistência e a situação internacional começa a se modificar.

 

 

I - O que você acha da atitude de Fernando Henrique Cardoso ao defender agora o Mercosul, após ter seguido no Brasil à risca, todo o receituário do FMI e a política neoliberal dos EUA?

ON - Para mim, o Mercosul é importante para a economia brasileira, ao contrário da Alca, que nada mais é do que uma afronta a toda América Latina.

 

I - Como você vê a crise econômica e política que atravessa o país, com apagão, CPI da Corrupção e a renúncia do líder do governo Arruda e do ex-presidente do Congresso ACM, por quebra do decoro parlamentar?

ON - Nunca vi coisa igual.


I - Você é a favor da CPI da Corrupção?

ON - É lógico que sou.


I - Você acha que as eleições possam resolver o problema brasileiro?

ON - Quando uma eleição traz para o governo pessoas nacionalistas, honestas, compreensivas diante da injustiça reinante, a impressão que fica é que a coisa vai melhorar. Mas, no fundo, a miséria continua - as crianças a viverem pelas ruas e esse desprezo pela pobreza que caracteriza a classe dominante em nosso país. Não queremos o caos, mas sem a noite não haverá o dia.


I - Dos nomes da oposição cogitados para a sucessão presidencial, quem você acredita que poderia fazer alguma coisa realmente pelo país?

ON - Não sei. Mas desta vez precisamos de um nacionalista, um homem que defenda este país.


I - Você apoiou o Congresso de Refundação do Partido Comunista, Marxista-leninista. E após a refundação o Partido em conjunto a vários grupos revolucionários no país têm organizado vários comitês de luta contra o Neoliberalismo ou mais especificamente, contra o Plano Colômbia, e em apoio aos zapatistas, etc. O que você pensa de um Congresso de todos estes comitês para unir e avançar a luta contra o imperialismo, inclusive convocar uma greve geral?

ON -Estou certo de que só assim as esquerdas poderão se unir e se manifestar como é preciso.


I - O Jornal INVERTA, que é o órgão central do Partido Comunista, Marxista-leninista, completará 10 anos de existência, em setembro. Gostaríamos que você, como membro do Conselho editorial, deixasse uma mensagem aos leitores.

ON - Como eu disse, é muito importante que as esquerdas se organizem para juntas lutarem melhor. E a todas procuro atender e ser útil. Entre elas estão vocês do Partido Comunista, Marxista-Leninista, radicais como mais me agrada. Por isso mesmo, eu os felicito por esse longo período de luta que vêm mantendo em defesa de nosso povo.