Che, a morte, a traição e a verdade histórica

Com o filme "Sacrifício", os suecos Erik Gandini e Tarik Saleh, pretendem investigar e reabilitar a prisão de Ciro Bustos e Regis Debray, contatos da guerrilha liderada por Che na Bolívia que, na versão oficial, teriam dado informações à repressão contribuindo para a derrota da guerrilha e a morte de Che em 1967.

Che, a morte, a traição e a verdade histórica

Por: Antônio Cícero
Historiador


O cinema pode se tornar um importante instrumento de investigação histórica, aliás, nos seus primórdios, a nova invenção era vista basicamente como meio para a pesquisa científica.

Alguns anos após o aparecimento do cinematógrafo, um autor polonês escreve um livro intitulado "Uma nova fonte de história", onde acredita que o estudo da história estava para ser radicalmente alterado com a possibilidade da preservação de imagens que simulam o movimento real.

Dois jovens cineastas suecos, Erik Gandini e Tarik Saleh, realizaram com o filme "Sacrifício", exibido no Rio e em São Paulo, no 6º Festival Internacional de Documentários “É tudo verdade”, não apenas esta missão de preservação da memória que parecia tão inovadora para os pioneiros do cinema: mas também um interessante exercício de investigação histórica.

Eles partem da hipótese de que a história da prisão de Ciro Bustos, artista plástico e contato de Che com os revolucionários argentinos, e de Regis Debray, francês que acompanha os primeiros momentos da revolução cubana e escreve um livro intitulado "A revolução na revolução", que teorizava sobre a importância estratégica da luta guerrilheira, está mal contada. Tanto Bustos como Debrey participaram do episódio que levou à derrota do guerrilheiros liderados por Che Guevara na Bolívia, em 1967. A derrota leva à morte boa parte dos revolucionários e de seu líder, assassinado depois de feito prisioneiro.

Os dois cineastas desconfiam da versão divulgada pelo historiador Pierre Kalfon, amigo de Debray, que atribui a Ciro Bustos a responsabilidade de ter revelado à polícia informações que levaram à localização dos guerrilheiros. Kalfon se baseia, particularmente, nos desenhos que Bustos fez dos revolucionários para enfatizar a alegada delação.

Debray e Bustos foram presos uma semana antes da morte de Che, ocorrida em 8 de outubro de 1967 e permaneceram presos até 1971. Se atribui à prisão dos dois a descoberta de informações que permitiram localizar os guerrilheiros.

Na ocasião, Debray é citado como tendo passado informações relevantes, mas é paulatinamente reabilitado, mantendo-se ainda articulado a setores de esquerda e chegando a ser conselheiro para assuntos internacionais do governo de François Miterrand, na França. Ciro Bustos, por seu lado, recebe apenas a parcialidade de historiadores que leram “partes” de livros para tachá-lo como traidor e vive, hoje, em Malmo, na Suécia, ocupando como aposentado “o posto mais baixo na escala econômica”, como ele afirma em entrevista à Folha de São Paulo.

Além de ouvir os dois protagonistas, o filme constrói um amplo quadro da questão, procurando registrar as versões dos agentes da CIA, dos membros do aparato repressivo boliviano e de parentes de Camba, um outro guerrilheiro acusado de traição.

Na verdade, Regis Debray é pouco ouvido, não por falta de insistência dos entrevistadores, mas porque se mostra reticente e revela não ter nenhum interesse em esclarecer as dúvidas que estão sendo colocadas. Bustos rompe o silêncio, e diz que sua atitude de parecer estúpido e o fato de ter desenhado retratos de guerrilheiros, onde ele incluía figuras fictícias, visava proteger a rede local de apoio à guerrilha.

O filme registra bem a trajetória de ambos: Debray é localizado num castelo onde deveria pronunciar uma conferência, Bustos está no seu exílio, na Suécia, e vive num meio onde Che continua sendo uma referência. Numa seqüência, em que dois jovens gravam o desenho do revolucionário com a estrela na boina, os entrevistadores perguntam porque eles não cortaram a estrela, ao que um deles responde: “a estrela é o que associa Che ao comunismo, e consideramos isso importante”.

Esta abertura da questão não deve ser vista, como a imprensa burguesa já se apressa em querer apresentar o problema, a partir do prisma “a revelação do verdadeiro traidor”, que seria agora Regis Debray. O filme serve mais de alerta contra versões apressadas e comprometidas com os interesses das classes dominantes, que patrocinam interpretações mais adequadas à manutenção da sua dominação de classe.

Em 1967, mais do que mostrar o grande esforço do imperialismo em esmagar a luta dos revolucionários em todo o mundo, os meios de comunicação ressaltavam o papel dos traidores, inventados ou de fato. Não nos contentarmos com estas versões parciais e enganosas é uma postura verdadeiramente científica. Façamos isso com o cinema, como os jovens suecos, ou com os meios que tenhamos à mão.

Bruna
Bruna disse:
24/10/2013 20h32

Baixar o Documentário - Sacrificio: Quem Traiu Che Guevara? - A história oficial diz que foi o argentino Ciro Bustos quem informou ao exército boliviano que Che Guevara estava nas selvas daquele país. Será? http://mcaf.ee/3qve4

MARCELO RODRIGUES DIAS
MARCELO RODRIGUES DIAS disse:
13/01/2011 17h31
As discussões que visam desmascarar possíveis traidores devem ser interpretadas cuidadosamente. Em circunstâncias extremas, como a fome, a fadiga, e {imprescindivelmente} de tortura e intimidação não podemos execrar ou salvar pessoas. Não vejo motivos para ressentimentos maiores e repugno os julgamentos que desacreditam pessoas e as levam ao ostracismo. Lamento que isto tenha acontecido com Bustos, mas não taxo Debray como um deliberado delator e traidor.
Oscar de O. Siqueira
Oscar de O. Siqueira disse:
13/01/2011 17h31
A escasses de informações precisas tem sido a maior causa dos
"equívocos históricos". O certo é que as ideologias são tão capases de cegar homens e mulheres, que estes falam a verdade advinda da prenhês sofrida pelos próprios ouvidos! Daí, a razão de tanta asneira dita por quem não sabe nem o mínimo!
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