64 nunca mais!

A sociedade brasileira hoje, passados 30 anos de golpe militar, tem o dever e o direito de saber o que aconteceu em nosso país nos 21 anos de arbítrio institucionalizado, com cotidianas perseguições políticas, torturas, assassinatos, sequestros e desaparecimentos.

A sociedade brasileira hoje, passados 30 anos de golpe militar, tem o dever e o direito de saber o que aconteceu em nosso país nos 21 anos de arbítrio institucionalizado, com cotidianas perseguições políticas, torturas, assassinatos, sequestros e desaparecimentos.

A sociedade brasileira hoje, diante do grave quadro sócio-institucional que se nos apresenta, tem o dever e o direito éticos de saber que a violência que cada vez mais grassa em nossas cidades e campos tem entre suas mais diversas causas a impunidade trazida daqueles anos de chumbo.

Se antes, nos anos 60 e 70, perseguiam-se, das formas mais cruéis e selvagens, os opositores políticos, hoje esta perseguição recai sobre os que, por sua humilhante miséria, denunciam a violência do perverso modelo econômico vigente.

Apontar a violência é a impunidade de hoje é falar desses 21 anos de ditadura militar. E falar dos milhares de brasileiros perseguidos, presos e torturados das centenas que foram exilados. É falar dos 384 mortos e desaparecidos políticos-listagem ainda hoje incompleta - que, em sua maioria, tiveram mortes falseadas e mentirosas e, até hoje, não foram assumidas oficialmente pelo governo brasileiro.

Recentemente três Relatórios da Forças Armadas com carimbos de "confidencial" traziam as mesmas versões oficiais dos anos 70, com relatos pífios e sórdidos sobre as circunstâncias das mortes e desaparecimentos, de centenas de militantes políticos que, nos anos 60 e 70, tombaram em uma luta desigual.

Reconhecer a responsabilidade da União para com esses mortos e desaparecidos é, a nosso ver, o primeiro passo para se resgatar parte de nossa história.

Sabemos que esse resgate histórico se faz necessário, pois a memória "oficial" tem perversa e sistematicamente tentado ocultar e apagar os vestígios que as classes populares e os opositores vão deixando ao longo de suas experiências de resistência. Há um esforço contínuo para excluir essas forças sociais do lugar de sujeitos que forjam a história, nunca narrada oficialmente.

Resgatar a história dos mortos e desaparecidos políticos do período da ditadura militar e a de todos os demais períodos de nossa história é resgatar visões sempre esquecidas, forjadas pelas práticas dos movimentos sociais, nas suas lutas, no seu cotidiano, na sua teimosia em produzir outras maneiras de estar neste mundo. E, portanto, resgatar também os atuais movimentos de resistência do povo brasileiro que são sistematicamente excluídos e colocados, quando muito, como acontecimentos pontuais, despontecializados e de menor importância.

O Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, outras entidades de Direitos Humanos e de familiares de mortos e desaparecidos políticos tem ao longo desses anos tentado resgatar uma outra memória através de uma série de pesquisas em alguns órgãos oficiais. Começa-se, então, a levantar, ainda que timidamente, o véu de uma outra história. Começa-se a revelar a história das violências cometidas com o carimbo oficial e que estão escondidas sob algumas pás de terra - veja-se as recentes valas clandestinas descobertas no Rio e São Paulo - ou impregnadas de teias de aranha. Segredos que estão longe de serem totalmente revelados, trazidos à luz, pois as negativas sistemáticas do governo brasileiro e de suas Forças Armadas pregam, ainda hoje, o que chamam de esquecimento.

Entretanto, não se pode esquecer e ocultar a história. Não se pode esquecer quando não sabemos até hoje como, quando, onde, por quem foram assassinados e desaparecidos centenas de militantes políticos. É necessário, é urgente, que esta outra história, ainda considerada menor apareça e com força se afirme.

O esquecimento desses acontecimentos, o obscurantismo de sua significação não traz a história em suas mais diversas, polêmicas e ricas facetas. Cabe, portanto, lembrá-los sempre; e, por isto, justificar o lema: 64 NUNCA MAIS!

 

Cecília Maria B. Coimbra

(Presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ)

Matéria publicada na edição 28 do Jornal Inverta em 1º de abril de 1994