1964: NÃO!

Há poucas semanas, percorrendo as ruas de Bayonne, na França, deparei com duas ruas que desembocavam na praça central da cidade e não pude fugir ao sentimento de ironia e de revolta, pois uma se chamava Victor Hugo e a outra, Thiers. Quem não se recorda do imenso desprezo e rancor que o grande poeta e político republicano manteve em relação ao pérfido anão, que foi o principal responsável pelo massacre de centenas de revolucionários da Comuna de Paris, em 1871?

Há poucas semanas, percorrendo as ruas de Bayonne, na França, deparei com duas ruas que desembocavam na praça central da cidade e não pude fugir ao sentimento de ironia e de revolta, pois uma se chamava Victor Hugo e a outra, Thiers. Quem não se recorda do imenso desprezo e rancor que o grande poeta e político republicano manteve em relação ao pérfido anão, que foi o principal responsável pelo massacre de centenas de revolucionários da Comuna de Paris, em 1871?

Acredito que se Victor Hugo, que era espírita, retornasse à Bayonne, onde escreveu parte do seu drama "Hernani", seria apossado pela mesma emoção que me empolgou. E esta sensação de revolta e desprezo é a que sempre sinto, apesar de curvar-me racionalmente às contradições da História, quando me defronto com avenidas, ruas, praças, que levam os nomes de Castello Branco, Costa e Silva, General Médici (esqueci-me do seu prenome), Oliveira Salazar, Generalíssimo Franco. Não sei ainda porque Kohl e seus seguidores não se atreveram, até hoje, em batizar alguma praça importante de qualquer cidade da Alemanha com o nome de Adolfo Hitler. Certamente - são as contradições da história - algum dia o farão.

Mas nós, os que vivemos a nossa época e os nossos dias; nós que sofremos na carne as cutiladas dos verdugos que deram o golpe de 64; nós que testemunhamos as atrocidades dos idos de 64 (fatos reais, meus senhores, não intenções subjetivas que atribuíam a Jango e seus seguidores), nós gritamos ainda hoje e enquanto tivermos algum sopro de vida: o golpe de 64 foi um crime contra a humanidade, um atentado bem sucedido contra a sociedade brasileira, uma traição à pátria.

Que os políticos profissionais desejosos de fazer carreira, que os golpistas arrependidos como madalenas, que os eternos conspiradores à cata de pretextos para concretizarem seus planos mórbidos e esquizofrênicos, botem os panos quentes. Que os Roberto Campos da vida, com a sua dialética aristotélica, pretendam resguardar a obra de alguns ditadores para salvar o golpe na sua substância, eis aí um problema que a história e as futuras gerações hão de resolver.

O nosso empenho é outro. Nós estamos preocupados com a grande política, com a política como ciência e técnica capaz de encaminhar o solucionamento das questões nacionais fundamentais, da imensa maioria do povo brasileiro. Nem todos os golpistas de 64 desapareceram, nem todos penitenciaram-se e muitos deles estão aí, em postos de comando dos aparelhos de Estado brasileiro, à espera de oportunidades para novas aventuras.

Costumava dizer o ex-presidente Artur Bernardes, um intransigente defensor dos interesses nacionais, que "a moderação no político, em vez de virtude, constitui imperdoável fraqueza e aquele que poupa o inimigo lhe morre nas mãos".

Por isso dizemos NÃO ao golpe de 64 e parodiando o inesquecível poeta Castro Alves, gritamos:

"Ao tirano dizei: tú és um carniceiro, és o crime de bronze, escreva-se ao canhão".

 

José Nilo Tavares

(Jornalista, professor universitário atingido pelo golpe de 64)

Matéria publicada na edição 28 do Jornal Inverta em 1º de abril de 1994