Novos cenários para URSS

O novo quadro instaurado na URSS apresenta três diferentes cenários possíveis, estando estes alinhavados pelos últimos acontecimentos internacionais, sobretudo os acontecimentos no antigo continente europeu.

 

A 1ª possibilidade é a de que a URSS venha a integrar a Comunidade Econômica Européia (CEE). Isto acarretaria a hegemonização do bloco europeu sobre o restante do mundo capitalista — tendo à frente a Alemanha Unificada. Com isto, pode-se, prever a proletarização intensa do povo soviético a exemplo do que se sucede na Polônia, na ex-Alemanha Oriental e Leste-Europeu em geral. No decorrer deste processo é possível que a URSS se transforme no grande foco de ressurgimento do movimento comunista ao nível internacional, logo após a onda de avanço da contra-revolução capitalista mundial. Abriria-se, assim, num nível superior, um novo período de luta pelo Socialismo, onde os comunistas soviéticos, juntamente com os neocomunistas europeus, estariam em condições de implantar a primeira revolução continental comunista — a Revolução Européia.

 

Neste caso, é fundamental a apreciação da população soviética (280 milhões de habitantes) que, comparada a européia (cerca de 500 milhões) equivale hoje a 35% aproximadamente da população soviético-européia.


A 2ª possibilidade é a de que a URSS marche para uma formação autônoma em relação ao resto do mundo, criando um mercado próprio. Este é um cenário muito concreto, como transparece do resultado a que chegou o Congresso de Deputados do povo da URSS, em 05/09/91.

Segundo a Agência Nóvosti, o CDP resolveu dissolver-se transferindo as suas competências para o Conselho de Estado e o Soviete Supremo da URSS.


De acordo com o diploma, o Soviete Supremo da URSS, composto por duas Câmaras, passa a ser o órgão representativo máximo de poder para o período de transição. As câmaras não terão direito iguais como antes. As leis aprovadas pelo Soviete da União só entrarão em vigor após serem aprovadas pelo Soviete das Repúblicas.


Foi estabelecida a formação de um novo órgão de poder — o Conselho de Estado, para coordenar as

questões da política interna e externa que dizem respeito aos interesses comuns das repúblicas. No mesmo sentido foi criado, o Comitê Econômico inter-republicano, formado pelas repúblicas com base na paridade.


Quanto a tudo isso, cabe ressaltar que cada estado da URSS pode determinar, a seu ver, a forma de sua participação na União. O que a lei oculta é que há um fator material determinante. É que as diferenças econômicas (recursos materiais, quantidade de indústrias, etc) são gritantes, prevalecendo sobre as restantes repúblicas a supremacia territorial e econômica da Rússia de Yeltsin.


Trata-se da ética do desenvolvimento desigual e combinado, só que com tendência a desenvolver as desigualdades entre as Repúblicas e as classes sociais na URSS.


Neste cenário é possível manifestar-se a tendência de consolidação de um Imperialismo Russo. Seria a vitória do que Lênin, criticando, chamou de espírito Grão-Russo, na figura agora de Boris Yeltsin. Bush e Major, Mitterand e Kohl manifestaram preocupação, nesses últimos dias, à tendência nacionalista Russa - um possível Saddam Hussein de armas atômicas na mão.


A 3ª possibilidade é a de que tudo isto não passe de mera farsa e lapso histórico - parte de uma estratégia de busca de recursos econômicos (a Perestróika) para o nivelamento da produção

soviética com o resto do mundo. Assim, nada de novo a não ser o próprio Socialismo em processo de reafirmação e reestruturação.


Este cenário não é um sonho. Ele transparece nas afirmações de Gleb Iakunine, padre da Igreja Ortodoxa Russa Nikolskaia, da cidade Chelkovo (região de Moscou) em entrevista concedida à Novosti em 05/09/91 onde compara o acontecimento a um abcesso: "Graças a Deus o abcesso rompeu... Embora não se deva excluir a possibilidade de um novo golpe de estado, penso que o processo de saneamento terá caráter irreversível. Mas, se o último golpe de estado foi apenas uma farsa, o novo golpe (caso tenha lugar) será uma farsa dupla. O único que eu receio são as ações extremistas por parte de fanáticos."


A nova administração do país, para se prevenir deste perigo,, "deve investigar o mais rápido possível o próprio golpe de estado a fim de descobrir todos os seus participantes e isolá-los. Mas, o principal é que deve ser continuado o processo de reformas democráticas, iniciando no quadro da Perestróika. Deposito muitas esperanças no novo tratado federal, que deve sanear as relações entre as Repúblicas que proclamaram a soberania."


Quanto a Gorbatchev, ele afirmou: "é evidente que ele fez algumas concessões aos reacionários, recorrendo às vezes a sutilezas. Qualquer político é por vezes obrigado a recorrer a sutilezas. Graças a Deus ele venceu aos reacionários. Apelamos a isso há muito tempo."


Deste processo até que se firme tal conjuntura é certo que se intensifique a

desconexão entre os movimentos comunistas do centro (Europa e URSS) e da periferia, anteriormente sob o comando do PCUS. A internacionalização das relações de produção, que se processa pelo mundo afora — é só observarmos o aumento das migrações mundiais para constatarmos este fato — fará da pobreza e da miséria um problema verdadeiramente internacional, e isto deverá criar as condições para que seja implantado revolucionariamente o Comunismo (com a concretização da autogestão, com a abolição das classes sociais, logo também do Estado e do Partido) em todo o mundo.


Renato Fialho Jr.

Sociólogo