TAIGUARA

O trabalho de um artista deve refletir a sua personalidade; deve ter em sua transparência a própria transparência do seu criador. Taiguara tem essa qualidade diáfana, esse espírito; no combate que trava pelos tempos; na firmeza de suas palavras, na fluência de seus versos, nos acordes de suas canções. Quando menino aprendi que o tiê-sangue, se cativo, nega o canto. Taiguara é um tiê-sangue, um pássaro livre, insubmisso e insinuante, de vôo ousado e canto livre, que prenuncia o novo amanhecer.

 

Eis aí Taiguara, para os leitores de INVERTA:

I - Houve um momento difícil na vida política brasileiro em que você andou um pouco sumido. Conte-nos um pouco dessa época.

T — O momento difícil que vivemos cabe-nos trazer à memória. Tentar fazermos avançar a memória até agora. Aquele momento, talvez não tenha sido tão difícil quanto este aqui. Foi um momento em que a censura não era econômica: quando a maior parte dos músicos brasileiros — falando como músico, como cantor e compositor, que é a minha atividade — saiu do país. E eles estão saindo de novo, por razões econômicas; porque não se consegue fazer um disco, também por razões econômicas; porque a arte realista que brota da realidade brasileira, que é nacional, a que é reconhecidamente bonita pela maioria do povo brasileiro, essa não tem dinheiro para chegar até a cera para fazer um CD — um "Compact-Disc'' para gravar, para reunir músicos em um estúdio. Então esta nova forma de censura substitui aquela, daquele momento difícil a que você se referiu. Quando as medidas era policiais eles não tinham como arrancar dinheiro do bolso, como têm, hoje em dia. Eles não tinham como roubar a nação brasileira inteira. Então, quando o processo capitalista, na sua fase imperialista, não consegue ainda, por meios econômicos, desapropriar uma nação inteira, é evidente que ele tem que usar os meios militares, que foram usados na época. A ditadura militar me proibiu 68 músicas, perseguiu os nossos espetáculos pelo interior de São Paulo, Santa Catarina e Paraná — onde eu fiz três circuitos universitários quase impossíveis de realizar porque a polícia federal chegava. Agentes disfarçados, à paisana, chegavam nas rádios e cancelavam a entrevista, cancelavam o show pela rádio, ameaçavam o público. Quando nós chegávamos com o ônibus, com todo o equipamento, após ter feito um gasto enorme, o clube estava fechado a cadeado e não se encontrava a diretoria — isso aconteceu em Piracicaba, Bauru e várias cidades do interior de São Paulo. Então, como eu não podia mais gravar, a censura proibia tudo e não podia mais sobreviver com o trabalho, a saída foi o aeroporto.

 

I — Agora, voltamos ao momento atual, à sua base estética, o que você chama Alma Criolla e qual a proposta embutida nesse trabalho?

 

I — Esse nome está escrito entre outros mais de 200, numa folha de papel em branco — tenho guardado isso — e durante muito tempo nós discutimos esse nome. Na prática, o Joelson e eu começamos a trabalhar faz uns oito anos. Mas faz bem menos essa escrita dos 200 nomes, por vários companheiros do grupo uns seis anos. Isso vinha da prática da gente. Nós começamos a nominar o que fazíamos. E respeitamos, então, a maioria do povo brasileiro, o sentido que, através da religião, o povo fez passar historicamente sobre suas vontades, desejos, sobre os seus anseios, sobre aquilo que o povo gosta. O povo da Bahia gosta de comer acarajé. Isso tem um motivo que vai na alma. O povo do Rio de Janeiro gosta de pertencer a uma Escola de Samba e se dedica a ela. Isso também vai da alma, isso é sempre associado à religião ou com um processo sensitivo, quando não há religião. O companheiro pode ser ateu mas ele é sensitivo, ele é religioso no cultuar aquilo que ama. Então, alma vem daí. Do Dizzi Gillespie vem uma música linda que é do repertório dele: a menos norte-americana era mais caribenha! Parece feita por um compositor do Caribe, que chama

 

"Con Alma". Então nós escolhemos esse substantivo porque feminino, não é?... Porque da maioria menos reconhecida, porque com essa coisa sensitiva, histórica do nosso povo, e também porque, através desse substantivo, poderíamos colocar um adjetivo que traduzisse a proposta cultural da gente. Aí vem o criolla, porque alma é abstrata para tudo, a alma é aberta para o que gosta, para o que sente, às vezes a alma ouve a razão e passa a gostar do que não gostava.

 

  "De vez em quando a razão descobre para o coração coisas lindas como o marxismo-leninismo e vira coisa de coração!"

 "O coração tem razões que a própria razão desconhece." Mas, seguindo a proposta do Jornal INVERTA, vamos inverter: a razão também tem razões, que o coração desconhece! De vez em quando, a razão descobre para o coração coisas lindas, como o marxismo-leninismo, por exemplo, e vira coisa de coração! Então, criolla. Porque criolla? Porque criollos foram os primeiros habitantes do nosso continente. A primeira aplicação européia colonial da palavra criollo foi em relação ao branco degradado, ou por outro motivo qualquer, que vinha de lá para aqui se estabelecer. Foi o primeiro criollo. Depois a Europa descobriu, eu não sei se degradado chegava aqui sem saber que existia na Guiné e no Cabo Verde uma língua, o criollo-africana. Então, criollo é o branco chegado e o negro da Guiné Bissau, do Cabo Verde. E crioulo é, por fim, o índio, no Rio Grande do Sul, no Uruguai, Argentina, Paraguai, Bolívia, Chile. A palavra criollo, é tudo o que tem a ver com a descendência indígena. Então, criollo juntou os três elementos étnicos básicos para a formação do nosso povo. Está ai, Alma Criolla. É o que nós almejamos colocar dentro dessa música, que é reconhecidamente européia, que tem influência norte-americana da melodia de Cole Porter — e tudo isso que aprendi na infância; mas dentro dessa coisa lírica, que pode ser sinfônica. Carregamos uma alma crioula.

 

I — Numa conversa, aqui, antes da entrevista, houve um momento em que falávamos sobre a música latino-americana e você dizia do cuidado em sentir essa saudade. Seria uma saudade sem o ranço do passado, como é isso?

 

I — O que eu penso sobre a saudade é que ela sempre foi um sentimento legítimo. A idéia de ranço a esse respeito vem desse processo pseudo-renovador, pseudo transformador, essa coisa da moda, essa idéia filosófica de geração; que cada geração tem que ter as suas próprias idéias e tem que combater a geração anterior. Isso, filosoficamente, é furado e nem os norte-americanos acreditam mais nisso. Do ponto de vista do mercado, também é furado, porque a moda, seja na alta costura ou nos modelos dos automóveis, ela não obedece mais a essa obrigação de renovação. Está se resgatando tanta coisa do passado... até o capitalismo está aprendendo a aprender com a história; está aprendendo que não se pode manter apenas à base de ditaduras e processos policiais. Então ele tem que se aprimorar e é evidente que, ao se aprimorar, ele alonga mais um pouco a sua existência; mas isso não é de todo ruim porque, aí, aprendemos entre outras coisas, que sentir saudade é gostoso; hoje em dia a juventude gosta da saudade, da idéia da saudade; ela é o passado que você gosta; não é o passado que você quer recusar; é o passado que marcou e que criou laços com o presente e com o futuro.

 

I — E a música brasileira, como vai, agora?

 

T — Nesse momento ela vai mal, como durante o período em que sofreu com a ditadura Médici, com o mais alto índice de censura, de repressão e de perseguição, isso porque hoje a censura econômica substitui a policial. Não interessa a uma empresa capitalista, gravar nada brasileiro, realista, com cunho socialista, que exalte a revolução cubana. "O Cavaleiro da Esperança! Há nove ou dez anos atrás, eu fiz essa música com a letra que tem hoje; ela não foi mudada — uma raridade — porque eu costumo mudar a letra até gravar. Mas o Cavaleiro da Esperança ficou com aquela letra; impressionante! Não tinha o que mudar. Então, essa letra, porque ficou assim, imutável — talvez a receptividade do povo — ela é cantada em uníssono, o do "Cavaleiro da Esperança"», nunca existiu no Brasil — não tenho gosto por ser singelo — nunca existiu no Brasil uma música que vai fazer uma década e não foi gravada... e o povo canta. Que absurdo, é ou não é o que vocês estão vendo... é a censura, econômica! Porque ninguém quis gravar O Cavaleiro da Esperança? — Porque ninguém quer gravar com Taiguara?

 

Quando eu gravei "Canções de Amor e Liberdade", "Cavaleiro da Esperança" já existia. Essa música não entrou nem no "Canções de Amor e Liberdade". Entrou música para Cuba, música para minha filha, para a filha de Prestes — a Anita — mas o "Cavaleiro da Esperança" não entrou. Parecia muito épico, muito saudosista, — aí já vem aquela coisa de saudade como arma deles. A música concorreu ao festival da Globo e sumiu no meio do processo desonesto em que eu estaria entre os dito finalistas.

 

I — Uma denúncia...

T — Sim, uma denúncia... até nessa época eu estava trabalhando no "Hora do Povo". Eu não pertencia aos quadros do oito. Eu discutia muito as idéias deles e ouvia muito o Prestes. Eu não posso dizer que eu era um prestista, mas eu ouvia muito o Prestes. Era então o suficiente para perceber que a política do MR8 estava equivocada — política de assimilação pelo partido burguês — e estão padecendo do mesmo equívoco até hoje.

 

Então, eu discutia muito, mas o Jornal me possibilitava trabalho. Eu fazia uma página de cultura — fui diretor de cultura durante alguns meses — e nessa época nós tínhamos essa influência do

"Hora do Povo", que devíamos aceitar taticamente algumas das desonestidades da burguesia. Então, os companheiros me convenceram — muitos companheiros a aceitar. Aceita..., tem que ocupar o espaço... aquela coisa... pois olha, a música sumiu! Sumiu no balaio!

"...criollo juntou os ires elementos étnicos para a formação de nosso povo. É o que nós almejamos com Alma Criolla."

 

 

 I — Você deixa transparecer um grande entusiasmo, quando se refere ao Cavaleiro da Esperança, à figura de Luiz Carlos Prestes. Certamente ele influiu em certa etapa de sua vida com uma linha direcional. Essa amizade com Prestes, como nasceu e até que ponto ter-se-ia exercido essa influência?

 

T — A bem da verdade foi entre os companheiros da "Hora do Povo" que eu ouvi falar com mais profundidade da política dos prestistas, no papel do Prestes à frente do PCB como secretário-geral, da discussão que existia, do voto vencido que ele já representava no Comitê Central, da discordância dele da política burguesa nacional libertadora ultrapassada, das idéias de Anita Prestes, o escrito que conheci ainda escrevendo na "Hora do Povo" — A que herança os Comunistas devem Renunciar, o estudo da obra de Florestan Fernandes — A Revolução Burguesa no Brasil — comprovando que no Brasil tinha já havido uma revolução, essa que a burguesia queria realizar de novo, com a ajuda dos comunistas. Então todo esse processo de desmitificação do marxismo como doutrina e do marxismo como guia prático-teórico, eu ouvi falar dele mesmo, depois da África, porque conheci companheiros revolucionários na África e lá estudei marxismo. Mas, foi entre os companheiros da "Hora do Povo' que conheci a posição do Prestes, em uma tarde em que lá foi levado por Ricardo Lessa, Cláudio Campos, principalmente pelo Ricardo Lessa, de quem fui sempre muito amigo — chegamos a estudar Lênin juntos. Foi ele quem me levou a Prestes pela primeira vez e eu então resolvi ir outras vezes sozinho; é que apesar de toda a amizade, não o Ricardo pessoalmente, mas os outros companheiros, abertamente o Cláudio, nós discordávamos muito! Então, não dava para irmos juntos à casa do Prestes porque eu não conseguia colher a informação que eu queria. Eu percebia que indo com eles era a nível de política burguesa. Não era isso que eu queria saber. Eu queria o que o Prestes justamente queria me ensinar. A história do Brasil, a formação,do povo brasileiro, os erros da esquerda no Brasil, era disso que eu queria saber. Então, eu passei a ir sozinho ver o velho. E aí nasceu essa amizade que mais que amizade foi uma aula de existência para mim.

 

I — Você, como um artista definido politicamente, como vê a questão da arte engajada?

 

T — É sério este problema. Nós não podemos dizer que o panfleto não existe. Ele existe e é colocado, indevidamente, no lugar da obra de arte por muito companheiro bem intencionado que às vezes não é um profissional daquela área, mas com todo o seu fervor revolucionário faz, o que é preciso em determinado momento e, às vezes, grava um disco com uma coisa que não chega a ser uma música ou um poema — é um panfleto. Está bom, isso é verdade! A gente sabe que existe e eu já quis fazer música e não estava inspirado. Pensei fazer música com companheiros, e aí saiu um panfleto, não saiu uma música, não saiu um poema. Eu começo pelo reconhecimento de que existe, é claro. Mas, isso é de muito menor importância, porque o mais que a gente vê é o fenômeno internacional da arte alienada, da arte tão desassociada de suas raízes, tão desassociada da realidade que também deixa de ser arte por outras vias, vai se vulgarizando, vai atendendo ás necessidades do mercado e passa a ser produto de consumo. Isso é pior do que o panfleto, não só na qualidade. É pior na quantidade... e é isso que está aí pelo mundo. Panfletos sem qualidade-artística, existem poucos... agora, músicas que atendem às necessidades da economia de mercado e sem qualidade artística é o que mais se ouve no mundo, até nos países socialistas, para falar da minha área.

Então, eu penso que com esse desequilíbrio — da forma como está desequilibrado este processo — a arte engajada é tão mais importante para a evolução, para o progresso da arte e até de toda a ciência artística, do estudo da literatura, da semântica, da historia da linguagem; tudo o que leva poesia. Por exemplo, tudo o, que leva música, que é ciência anterior, progride muito mais através da arte engajada até quando ela não tem qualidade e, muito menos através desse processo alienante que não chega a ser arte, não chega a ser ciência e que é mera mercadoria

 

"...Eu queria o que justamente o Prestes queria me ensinar. A história do Brasil; a formação do povo brasileiro (...), mais que uma amizade foi uma aula de existência para mim".

 

I — Como você vê a conjuntura internacional e, em particular, a questão do socialismo?

 

T — Nós estamos vivendo uma etapa muito difícil, em que a nossa autocrítica vazou, nos escorreu, como o próprio suor, entre os dedos. O laboratório do inimigo estava logo abaixo de nossas mãos e colheu nosso suor, fez uma análise científica do nosso suor e soube criar quimicamente o antídoto — o antídoto químico. Agora, nós queremos derramar o nosso suor pela causa e não temos onde. Não temos como. Eles souberam nos paralisar... e por quê? Porque essa autocrítica, a Perestróika e a Glasnost — a transparência e a reestruturação — a autocrítica enfim, não podia ser tão pública. A clandestinidade já tinha sido abandonada fazia muito. A clandestinidade é necessária ao casal, é necessário à criança; quando nós nascemos já começamos a ser clandestinos. A criança guarda para si uma parte do que aprende. E essa parte ela não revela nem para os pais. Há coisas que a criança olha, sabe e não diz. Começa aí a clandestinidade. Depois, um dia, quando casamos, dividimos a clandestinidade com a esposa, com a companheira... e continua aí a clandestinidade e isso se estende no partido, se estende na organização, entre os companheiros. Quebrada a clandestinidade socialista, porque, é claro, a clandestinidade exagerada, o processo stalinista, o excesso de necessidade de defesa da revolução e os excessos cometidos em nome dessa defesa e que não eram praticados por ela, o stalinismo é um processo criticado sobre o qual nós temos que fazer autocrítica, mas nós não podemos nos mentir sobre o fato de que aquela defesa era tão necessária enquanto um processo histórico inevitável. Toda revolução tem o seu momento de defesa. O jacobinismo passou como terror pelas informações da monarquia, derrotada durante o processo da Revolução Francesa. O stalinismo passou por criminoso — apenas criminoso — pela burguesia; pelos órgãos de imprensa da burguesia, derrotada pelo socialismo. Evidente, da mesma forma, crimes foram cometidos. Esta autocrítica tinha que vir corajosa como veio, mas clandestina. A Perestróika nos levou a um processo de entrega dos segredos e dos métodos; segredos que chegavam até o proletariado, pela sensibilidade que o povo tem; muitas vezes não estudava o marxismo, mas sabia que aquele processo era necessário e que estava realmente construindo a igualdade e o direito aos direitos humanos básicos. Mas esse segredo, essa saber fazer nas mãos dos inimigos, apenas nos levaram a uma derrota tão grande que eu não sei se nós estamos podendo mesmo realizar esta autocrítica. Porque, quando falo stalinismo, falo em processo criminoso e digo que tenho que refutar, que renegar esse momento da história do socialismo, eu tenho dúvida, sim... Eu tenho dúvidas porque eu gostaria de ter iniciado esse processo por livre e espontânea vontade, por razões históricas e não porque estou sendo tão derrotado, ao ponto de a imprensa transformar o futuro da humanidade numa coisa morta com tanta facilidade e convencer as pessoas e até alguns companheiros a falarem em releitura e em revisão e a pouca vergonha tomar lugar. Eu me lembro que em um dos dias, no João Caetano, me deu uma inspiração e eu disse uma coisa que me convenceu mesmo: — pior do que o muro da vergonha era a pouca vergonha que morava dos dois lados: do lado capitalista há sem vergonha como há do lado socialista. Do lado socialista era uma exceção a vergonha chegar ao poder, porque Ceausescu é uma exceção e do lado capitalista, a vergonha é o patrimônio da favela, das maiorias marginalizadas, porque a burguesia tem na sem-vergonhice, na falta de caráter, no vença-a-qualquer preço, no suba na cabeça de qualquer um para vencer ha vida, o seu próprio lema., Salve-se quem puder, cada um por si e Deus por todos, e por aí vai...A pouca vergonha, a falta de solidariedade humana, é a norma do processo que começa com a concorrência e acaba no monopólio.

 

I — Para onde caminha o Brasil neste contexto?

 

T — É delicado, difícil mesmo... Prestes vivo diria: "Nós não podemos fazer profecias. Nós não somos profetas". Nós sabemos que este instante está caminhando para um momento pior. Sabemos que a realidade imediata é uma piora das condições de vida do povo brasileiro. O aumento da miséria, o descontrole econômico, a falta de uma política nacional, a entrega da empresa brasileira por um processo de privatização. O convencimento de alguns setores tecnológicos, tecnocráticos, de que a privatização era a única solução, de que o estado é que é corrupto — essa loucura, essa mentira — tudo isso vai levar a uma piora imediata. Para onde vai, depois, a gente não sabe. Nós estamos vendo o mundo em crise no momento e é verdade quando os jornais capitalistas dizem que é o mundo que está em crise, porque eles conseguiram abater o processo que não estava em crise. O processo onde a crise era a exceção, a regra era a vitória, era a comunidade. A regra é que a gente vê ainda acontecendo no processo cubano — um processo vitorioso, que exporta ciência e felicidade para o mundo.

 

I — O que você acha do nosso Jornal INVERTA, como proposta?

 

T — É uma daquelas saudades a que me. referi. Eu tenho uma saudade de contribuir para um Jornal com uma linha definida, não definida à priori. O que vocês me colocaram, o que me mostraram como proposta, é uma linha como as linhas de palma de mão; é a linha da vida, a linha com uma única estrada a seguir como vida, ela própria uma linha inevitável — a linha do progresso. Eu vejo que vocês são progressistas e estão formando um apoio, toda a minha vontade e toda a minha saudade dos momentos em que o Brasil teve Jornais como a Voz Operária, momentos em que tivemos o processo revolucionário livre, progredindo, apesar dos desvios do momento stalinista; do momento em que, sabendo assumir uma autocrítica, nós chegaríamos sem repressão. É aquilo! Se a gente não aprende pela vida, pela teoria, aprende apanhando. Assim é na vida. Pois estamos apanhando pra aprender. Num momento como este, delicado, o surgimento de um Jornal é um ato corajoso. Vocês estão de parabéns!!!