O terror de 40 anos atrás – Copa da Argentina

O futebol é uma paixão, pois os amantes choram, gritam, perdem a voz, brigam, discutem e até morrem. Há emoções com gols, vitórias, conquistas de títulos, defesas do arqueiro, desarmes e dribles que, agrupando todas as etnias, religiosidades e idades, até mesmo, por muitas vezes, a maioria desses torcedores não tem a oportunidade de estar nem de conhecer seus ídolos. Contagia, interpõe, agrupa multidões.

O futebol é uma paixão, pois os amantes choram, gritam, perdem a voz, brigam, discutem e até morrem. Há emoções com gols, vitórias, conquistas de títulos, defesas do arqueiro, desarmes e dribles que, agrupando todas as etnias, religiosidades e idades, até mesmo, por muitas vezes, a maioria desses torcedores não tem a oportunidade de estar nem de conhecer seus ídolos. Contagia, interpõe, agrupa multidões, não há como negar, ainda mais quando se trata do evento “Copa do Mundo”. Porém, não defendo o futebol como esporte e sim como espetáculo, e tenho plena convicção do esporte como outro fator.

Estamos em 2018 e, com isso, em clima de “Copa do Mundo”, agora na Rússia, antagonismo da ocorrida na Argentina, no ano de 1978, exatamente 40 anos atrás, quando o termômetro era abominável, onde milhares de pessoas desapareciam, até adolescentes, como o garoto Pablo Miguez, de 16 anos, quando preso com sua mãe em 12 de maio de 1977, homenageado com uma estátua em aço pela artista plástica Cláudia Fonte. Seguiam-se com torturas, prisões ilegais, roubo de bebês - isso mesmo, roubo de bebês filhos dos revolucionários -, crise econômica, desvalorização do peso, queda nas reservas cambiais, inflação galopante, e mergulhada numa dívida externa de 30 bilhões de dólares, sem falar na interna. O mesmo regime de terror no qual se encontrava o Brasil, extensão na América Latina (AL).

A Argentina foi um dos países latino-americanos mais ricos e, por diversas vezes, tentou trazer o mundial. Só em 1966, no congresso da FIFA (em francês: Fédération Internationale de Football Association), na Inglaterra, foi definido como país-sede. Juan Perón havia governado por dois mandatos antes, eleito com um programa nacionalista, com concessões de garantias sociais aos trabalhadores, referência à justiça social, surgindo o “justicialismo, estorvando os reacionários. Deposto num golpe em 1955, se exilou na Espanha, voltando em 1972, e foi reeleito em 1973, apoiado pela maioria da sociedade, porém, veio a falecer em 1974, assumindo o posto a sua companheira Isabel Perón, em meio a agitações políticas. Em 1976, os setores tirânicos militares, empresariais, maioria da igreja e do judiciário, junto com o imperialismo - o agitador terrorista, os Estados Unidos -, implantaram uma feroz ditadura, através de uma junta militar esculpida pelo general Jorge Rafael Videla, o almirante Emílio Massera e o brigadeiro Orlando Agosti, da força aérea, que governam de 1976 a 1981. Assim como em outros países, como a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Brasil com seus despóticos milicos, os EUA e outros, a ditadura na Argentina utilizou o futebol com fins políticos para se legitimar junto ao povo, fortalecer o governo, dentro e fora do país, e usando o maior símbolo nacional no momento, a seleção, que, após o golpe decretam intervenção na AFA (Associação de Futebol da Argentina), nomeando para presidente uma pessoa de total confiança e controle da junta militar, Alfredo Francisco Cantilo, que presidiu a instituição de 1976 a 1979.

Traduzia-se na primeira Copa do Mundo sob o comando do investigado - não na época e sim anos depois - João Havelange na presidência da FIFA, com vários questionamentos e pressões de entidades internacionais que não queriam a copa na Argentina em virtude das denúncias de violações dos direitos humanos, e que usaria o evento para se autopromover. Havelange os ignorou, pois fazia jus a não dar ouvidos às entidades, já que a AFA secundou a elegê-lo e o responsável no país pelo campeonato mundial, o seu amigo pessoal e almirante argentino Carlos Alberto Lacoste, posteriormente tornou-se o seu vice na FIFA. Uma dessas entidades, um movimento de exilados surgido na França, o COBA (Comitê de Boicote à Copa da Argentina), chamava à atenção da mídia internacional, denunciando as rudezas da ditadura, solicitando às autoridades deste país a aderirem ao movimento, como o presidente Valery Giscar. Até França e Holanda pensaram em desistências, mas, temendo sanção da FIFA, recuaram. Apenas 20% dos franceses eram a favor. Pessoas importantes aderiram às manifestações, como Jean P. Sartre, Roland Barthes, o holandês Van Hanegem e o craque alemão Paul Breitner que não foi ao mundial. Os jornais franceses Le Monde e Figaro denunciavam as atrocidades da ditadura. Com a troca de nome de COBA para C. O. B. A. M. foi acusado de “grupo fascista”, por apontar o esporte de um modo geral como fator de alienação da consciência social (para refletirmos: faremos a revolução socialista sim, com ou sem carnaval e futebol aqui no Brasil, minando as fontes populares, ocupando todos os espaços) e, no pior momento desse movimento, incentivaram a boicotar os Jogos Olímpicos de Verão de 1980, realizados em Moscou, fazendo coro com os EUA.

Crescia a pressão contra a ditadura, e países como Holanda, Bélgica e Brasil (com sua ditadura) mimosearam a opção do país sul-americano para sediar o mundial de 1978, como apresentou o jornalista Luiz Alberto e também como expôs e foi confirmado no documentário por Glória, “que pairava dúvida se a Argentina seria sede ou não, devido às pressões de várias partes do mundo, porque sabiam dos horrores que estavam acontecendo no governo” ditatorial de Videla e seus capachos. O movimento pela troca de país era grande, impulsionado pelas denúncias internacionais, mas a decisão final era do dirigente máximo da FIFA, João Havelange, que depois ele próprio relata no documentário que não “se misturava com política”. Pois, afirmo que “política, futebol e religião, se discute sim”. E a boa ação desse senhor foi ter incólume o casal e poderia ter preservado o maior número possível de pessoas das masmorras. Os horrores seguiam, até uma bomba foi detonada no Centro Cultural de San Marti, e uma transmissão na TV, de 13 minutos, na cidade La Plata, denunciando as barbaridades do despotismo, nem assim Havelange cedeu às pressões externas, definindo a Argentina como sede do Mundial, e seguiam as boas amizades com o bestial Videla, relatando na abertura do mundial ao microfone: “que finalmente o mundo poderia ver a verdadeira imagem da Argentina”. Só que existindo disputa pelo poder entre os milicos por dinheiro, corrupção, mortes entre militares contrários ao regime torturador, e outros fatores, e um véu de silêncio sobre o genocídio se ampliando, com as denúncias na imprensa com a abertura democrática no viés burguês. Massera era da marinha e queria a copa. O exército, a força armada principal. Videla faz predileção como entre-autárquico, e o general Carlos Omar Actis, usado como “marisco”, é assassinado, indo ao encontro com a imprensa. Há forte suspeita sobre os mandantes Massera e Lacoste, culpando os montoneros. Sobre Actis, tinha referência honesta, resistindo aos superfaturamentos e às pressões de milicos e empresários corruptos quando fora vítima.

O secretário de Fazenda, Juan Alemann, contrário aos desperdícios, sofreu atentado, mas sobreviveu. Lacoste, conhecido como “El Gordo”, gastando em excesso na organização do mundial, falava em torno de U$$ 700 milhões. A divulgação na imprensa é que em 1982, no evento da Copa na Espanha, gastou-se 1,71% do consumado na Argentina, e olha que quatro anos depois. Não há como suspeitar? Divulgado que Lacoste era o homem de confiança de Havelange e que foi uma das testemunhas na justiça, El Gordo, depois da copa, justificou seu elevado patrimônio. Isso é normal? Lacoste com um casarão em Punta Del Este, no Uruguai? Expondo a porta dos negócios da FIFA, a velha troca de obséquios. E, recordando o Brasil, que tal a morte de Castello Branco, no período tirânico ditatorial, noticiado pela imprensa que conhecemos como o “golpe dentro do golpe”? As aeronaves, a Piper que estava Castello e a T-33 de treinamento? Em 2003 estive no local e nem pássaros há. É rota de que? Aceitar a versão oficial como designam?

Entre torturas, mortes, prisões, roubo de bebês, desaparecimentos a todo vapor, outro caso que chamou a atenção é o de Floria Rudge Leite, namorada de Paulo Antonio Paranaguá, filho dos embaixadores do Brasil, Paulo Henrique Paranaguá e Glória Paranaguá, acusados de pertencer ao grupo armado ERP (Exército Revolucionário do Povo). O casal foi detido e preso na Argentina no auge da repressão do despótico Videla e sua corja. Ainda tiveram a audácia de perguntar à Gloria “se ela queria assistir a tortura de seu filho”, isso relatado pela própria, iniciando uma história de muitas lutas, recorrendo a várias instituições brasileiras, como ao tal ministro da Justiça na época, Armando Falcão, que a destratou, recebendo-a em pé, e, depois de várias investidas para encontrá-lo, até chegar ao cartola da FIFA, Havelange, que havia deixado recentemente o posto da CBD (Confederação Brasileira de Desportos, hoje CBF), com forte e decisiva influência na libertação do casal, que ficou preso de 1975 a 1977, por atos de terrorismo, documento de 04-04-1978, “Origem PRG 6020/78–Classificação: A-2”, Informação nº 094/16/AC/78). Até sua morte, não há divulgação de que Havelange manifestou-se sobre outras vítimas da ditadura argentina quando fora entrevistado. Será mesmo que nunca ouviu falar da “caixa de sapato voadora”, avião que levada os lutadores sociais para um voo e eram lançados lá de cima, nas cordilheiras e nas águas? Que a 700 metros do principal estádio, que acolheu o jogo da final, ali reinava um dos maiores campos de concentração, um dos mais famosos centros de tortura, como ficou conhecido depois a ESMA (Escola Superior de Mecânica da Armada), e que o poderoso chefão da inteligência era o verdugo José Eduardo Acosta? Do corpo de Pablo Miguez, que antes de ser lançado do avião aplicaram injeção anestésica deixando-o sonolento, partindo para a morte, assim como outras vítimas no mesmo avião de fabricação irlandesa, utilizado para carga e descarga, com rampa traseira, por facilitar o descarregamento, conhecido como “caixa de sapato voadora”. Seu corpo foi encontrado flutuando nas águas do Rio Prata. Mas morte de garoto era praxe, fato idêntico no Brasil, como de um estudante do Colégio Pedro II, Campus Humaitá, de nome Alex de Paula Xavier Pereira, ausente até hoje, por militar na ALN (Ação Libertadora Nacional) e outros. Glória recorreu até o bispo da Argentina, que saiu pela porta dos fundos às carreiras da catedral para não recebê-la. O acordado entre Havelange e Videla e confirmado pelo cartola da FIFA em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, de 26/06/2008, afirma que solicitou sim a libertação do casal, como esclareceu também a ex-embaixatriz Glória, ao jornalista Lúcio de Castro no documentário. Havelange exigiu e narra: “é para tirar esse casal daqui”, e realmente tirou, e ambos vivos, acompanhados por um empregado de empresa de material esportivo. E assim ficou garantida a copa e o mundial na Argentina.

Com espeque dos milicos, empresários, maioria da igreja e judiciário, e do imperialismo, o terrorista mor, os Estados Unidos, na pessoa de Videla, utilizaram bem a “Copa do Mundo” de 1978, promovendo o governo, com boas imagens e a maior propaganda, anestesiando o povo dentro e fora das quatro linhas do gramado. No período, aumentou o número de homicídios e, com conluio da corja de mercenários, estouram as denúncias e detectam ligações com os grupos chamados de “barrabravas, utilizando-se do tráfico de drogas, de partidos políticos e políticos, tornando mais agressivos, com apoio da ditadura. O exemplo é o que fizeram no governo Raul Alfonsin. Somente no período da Copa, com duração de 25 dias, 65 pessoas foram mortas ou desapareceram. Mas, com tudo isso, não há como negar a importância do evento. E assim começa o mundial. O maior, o principal torneio de futebol do planeta como competição, e que nos moldes capitalistas, impera o lucro. Videla e seus asseclas, para ocultarem os horrores da ditadura, pregava que era necessário exterminar todos os opositores, modificar o caos econômico, corrupção, a insubordinação da classe operária, empresariado sem utilidade, o princípio da moralidade na sociedade direcionada pelas religiões e o principal inimigo, o estigma do comunismo, contribuindo com a repulsa dos guardiões da AAR – Aliança Anticomunista Argentina.

O “Gauchito” sendo mascote, representando a cultura do país, uma abusiva estruturação se realiza na maior central de televisão para a copa. O primeiro mundial com transmissão de imagem colorida para todos os países. Mas, a antinomia maior estava dentro do país, já que os argentinos assistiram em preto e branco. Mas, tinha a benção do governo ianque, o criador das “guerras sujas”, do Henry Kissinger. Algo sedutor no inconsciente coletivo afastava as massas para o combate à tirania, como: a Miss Universo Silvana Suáres eleita, vitória de Guilhermo Villas no tênis, na fórmula 1 com Carlos Reutemann. Ameaçava o Chile pelo Canal Beagle, por seu poderio militar, apoiado pelo Papa João Paulo I (Giovanni Battista Enrico) e os assassinos da CIA (Central de Inteligência Americana), que inseriram várias ditaduras nas décadas de 60 e 70 na América Latina, principalmente no Brasil (documentário: Um Dia Que Durou 21 anos). É neste cenário que os burgueses, órgãos de imprensa, civis, fundamentalistas e milicos, que Daniel Mariania, não estando em sua residência, metralhada por 200 milicos, perdeu assassinada sua esposa Diana Teruggi. Mariani e Teruggi, ambos membros dos Montoneros. Quis a vida que a filha Clara Anahi estivesse numa banheira e fosse salva. Fato bastante divulgado na imprensa de vários países. O goleiro da Holanda, Jan Jongbloed, participou dos protestos das “Madres de La Plaza de Mayo” e em entrevista à Agência Télam teve conhecimento da Escola Superior de Mecânica da Armada – ESMA (campo da morte), assim como Ronnie Hellström e outros jogadores da Holanda. Com a censura, só poderia falar bem da ditadura e da seleção alviceleste, tanto é assim que Videla, o verdugo, fora aplaudido seis vezes pelos presentes nos estádios e, principalmente na conquista do título na Praça de Maio, com a multidão alucinada. A pornochanchada da propaganda da ditadura era “Los argentinos somos derechos e humanos”, assim negava torturas, assassinatos, os escândalos de corrupção, etc.

Muitos atletas, jogadores, treinadores e outros colaboraram com o governo tirânico, como já é de conhecimento, como o ex-goleiro Edgardo Norberto Andrada, conhecido como Andrada, que jogou nos clubes Vasco da Gama (RJ) e Vitória (BA) no Brasil - o que levou o milésimo gol de Pelé, no ano de 1969. Acusado pela imprensa de pertencer ao grupo de nome “Patotas”, que praticava sequestros, torturas de civis, com aval da ditadura, sendo um dos agentes do C-3, do “Destacamento de Inteligência”, acusado pelo sequestro dos integrantes do Partido Justicialista (Peronista), Osvaldo Cambiasso e Eduardo Pereira Rossi.

Mas o maior “orgasmo” de todos os jogos dos mundiais continua sendo a peleja entre Argentina e Peru, já que o nome do sanguinário Videla torna-se perceptível em toda mídia, conhecimento da “Teoria da Conspiração”. O goleiro da seleção do Peru, o Quiroga, de nacionalidade argentina, teve sua família ameaçada (que morava em Rosário), por designação de Videla, como também o suborno de 14 mil toneladas de trigo argentino e “créditos especiais” na permuta do resultado do jogo, e mais, o ditador deu a cada um dos jogadores peruanos 50 mil dólares, o que na exibição do documentário foi narrado e confirmado por alguns jogadores na entrevista sobre a “multinacional do terror” – Operação Condor. Ainda, divulgado na imprensa pelo jornal argentino El Tiempo, uma das principais testemunhas do caso, o ex-senador peruano Genaro Ledesma revelou na audiência ao juiz o pacto entre os ditadores Videla e Francisco Bermudez (peruano), e que aceitou, no âmbito da conhecida multinacional do Terror – Operação Condor, receber 13 detentos peruanos que lideravam greves, em Lima, capital do Peru, para derrubar a ditadura de Bermudez. Em troca, Videla exigia a vitória da Argentina. Ledesma perdura ter conhecimento detalhado, pois era um dos presos, alvo da troca em 1978 quando sequestrado. Os 13 estavam no avião militar no dia 25 de maio de 1978 e foram levados para o exílio em Paris, o que evitou serem lançados ao mar, prática do verdugo argentino. Já o juiz argentino Norberto Ovarbide abriu processo contra o ditador Bermudez. Outro fato é o do helicóptero militar da Argentina que caiu a dois quilômetros, não chegando ao local, quando ia transportar Jorge Videla, jogo entre Brasil e Argentina. Fato não cicatrizado até hoje, ainda sangra, nesses 40 anos passados, quando o profético jogo eliminou o Brasil. O capitão da seleção alemã Berti Vogto, um dos defensores da copa no país sul-americano, em entrevista, declarou “que na Argentina era só normalidade e não constatou nenhum fato político”. Pergunto eu: ele repetiria as mesmas palavras? Lógico, tudo era censurado. Sobre os torturados, dois jogadores argentinos afirmaram: Carlos Alberto Rivada, do Huracán, contrário à ditadura. O goleiro Cláudio Tamburrini, por ter amigo de esquerda, ambos, conduzidos ao centro de tortura, campo da morte, de nome Mansion Seré.

Com a abertura do mundial, antes do jogo entre Alemanha Ocidental e Polônia, encontram uma bomba no centro de imprensa. As grandes meios de comunicação, como O Globo, Folha de São Paulo, Estadão, e outros, abafaram o caso. O César Menotti, antes de ser treinador da seleção principal argentina, jogou nos clubes brasileiros Santos e Juventus, ambos de São Paulo, e comandou o pequeno time Huracán, campeão em 1973, e a seleção alviceleste juvenil em 1975, e seu jargão era “jogando nós protegemos nossa fronteira, nossa pátria” e “a filosofia do time era não ter pessoas de estatura baixa”. Menotti teve relação com o Partido Comunista, tanto que não era consonância entre os milicos, pois sabiam de seu mérito e a certeza com a substituição (igual a João Saldanha, demitido, seis dias antes do embarque, da copa de 1970, no México, por ter sido quadro do Partido Comunista Brasileiro); os resultados não seriam imediatos, levando tempo para obtê-los, resolveram deixá-lo no cargo, já que comandava a seleção desde 1971 e não queriam arriscar um trabalho pronto, receando a organização do proletariado com a perda do título. A grande incógnita dos hermanos era o temor de oito anos sem vitória sobre o Brasil. A copa tem presenças de Mário Kempes, Ardiles, Passarella pelo argentino, e de Rivelino, Roberto Dinamite, Reinaldo, e Zico pelo Brasil, Nawalka da Polônia, Rosembrick (autor do milésimo gol nos mundiais) e Joham Meeskens da Holanda, Paulo Rossi e Michel Platini da França. Mas algumas seleções de peso ficaram de fora, como Tchecoslováquia, Uruguai, Inglaterra e URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) que, foi o primeiro país a utilizar o computador junto com a ciência para otimização das performances tanto dos atletas esportistas como dos jogadores de futebol, isto na década de 1960. Houve novidades em tudo, como Irã desmandando o primeiro mundial, e uma seleção africana ganhando uma peleja em mundial, a protagonista fora a Tunísia sobre o México.

Começou a armação suja para a seleção alviceleste, contra a Hungria, que tem dois jogadores expulsos e várias controvérsias, logo na estreia. O Brasil enfrenta a Suécia, que aos 44 minutos do segundo tempo o juiz confirma escanteio para o Brasil e é cobrado, e com a bola no alto, gol de cabeça do Zico, que daria a vitória ao Brasil. Os jogadores e torcidas comemorando, só que o juiz apitou o final do jogo com a bola ainda no alto, gol anulado. Mais reclamação, até da imprensa internacional. A bela equipe, e com um futebol bonito, a Holanda, conhecida na época como “Carrossel Holandês”, veio ao mundial sem seu principal craque, Johann Cruyff, por motivos particulares que, em entrevista ao jornal inglês The Guardian relata tentativa de sequestro na Espanha. E mesmo com os jogos da copa em plena atividade, o assassino Jorge Videla não deu trégua. Uma missa, em memória de uma das lideranças peronistas, foi interrompida com repressão, assim como as manifestações das “Madres de La Plaza de Mayo”, que foram presas, agredidas e arrastadas no centro da capital.

Mas a pior imoralidade se dá no quadrangular final, Grupo B, Brasil e Argentina, somente uma seleção se classificaria, indo à final do Grupo A. O Brasil ganhou do Peru por 3 X 0, empatou com a Argentina por 0 X 0, a Argentina ganhou da Polônia de 2 X 0. Mais confusão para o último jogo do Grupo B. A seleção canarinho derrotou a Polônia por 3 X 1 e a alviceleste teria que ganhar o Peru com diferença de quatro gols, devido ao saldo, e foi para o jogo sabendo do resultado e de quanto precisaria, já que o horário de seu jogo era depois da peleja do Brasil. Minha percepção definida já indicava Argentina campeã. Muitos amigos chamaram-me de maluco, mas os ensinamentos de Marx na sua forma dialética, dando-me respostas às conclusões assertivas desde a copa de 1978, e tinha asserção que em 2014 o Brasil não teria mais um título. Aquele 7 x 1 para a Alemanha é para refletirmos e muito sobre este fato (no ditado popular 7 é conta de mentiroso). Era a destituição dos seguidos governos do PT (Partido dos Trabalhadores), como já vinha denunciando o Jornal Inverta, chamando de “terceiro turno das eleições”. Não era uma seleção de bom nível técnico para golear o Brasil. Aproveitam, como estratégia para derrotar, humilhar, utilizar a insatisfação do povo, contra o governo do PT, de formação social-democrata, e não contra a seleção brasileira. O arqueiro Barbosa da seleção de 1950 foi trucidado até sua morte pelo resultado da final do Mundial. E com o arqueiro Júlio Cesar e os jogadores, a comissão técnica, e Felipe Scolari? Mas, voltando ao jogo Peru e Argentina, a vitória do Brasil sobre a Polônia, a canarinho com 7 pontos, 5 de saldo, e a Argentina igual no número de pontos, perdendo no saldo, que era de 2 gols. Terminada a peleja, goleada de 6 X 0 sobre o Peru, caindo numa insídia o Brasil, que jogaria no dia 21/06/1978 em Rosário, contraditando a imprensa até hoje, não estando no campo Ardiles. Noticiado na mídia por alguns jogadores da seleção do Peru, asseverando Videla e do seu lado o terrorista mor Henry Kissinger, adentram no vestiário dos jogadores do Peru, minutos antes de iniciar o jogo, invocados de “irmãos latino-americanos”, coagindo que “se ganhassem o jogo seriam mortos”. Tudo convicto, a Argentina iria à final de qualquer forma para a ditadura não fracassar. O povão teria o ópio, já que o capitalismo vive de mentiras, caso contrário, não sobrevive.

O desapontamento, aversão da imprensa, dos torcedores e do treinador da seleção, citado na imprensa brasileira como agente do SNI (Serviço Nacional de Informações) e milico, Cláudio Coutinho, ex-treinador do flamengo, relatou “somos campeão moral”. O Brasil foi eliminado sem perder nenhum jogo na copa. E com dissabor, a França usa da artimanha de olho na punição da FIFA, não usando o uniforme tradicional contra a Hungria, em campo pela última rodada, fase do Grupo 1, ambas decidem por camisas brancas e já eliminadas. Atraso do jogo, público vaiando, quando a polícia vai ao Club Atlético Kimberley, cidade de Mar Del Plata e faculta o seu tradicional uniforme, de listas alviverdes, dispondo de numeração nas camisas de 1 a 16 (exceto nos shorts), e fora da disputa alguns jogadores, assim tem início a partida, só que os shorts na cor azul, meiões vermelhos e, o pior, as numerações das camisas não eram as mesmas dos calções. A França venceu por 3 X 1, e Rocheteau com a camisa 7 e o short 18. Dá para acreditar num Mundial sério como esse? Já a decisão final, Argentina enfrenta a Holanda numa tarde de 25/07/1978. Como na Copa de 1974, Holanda fica com o vice-campeonato. Kempes faz um a zero, no primeiro tempo. Holanda empata com Neeskens, aos 38 minutos do segundo tempo, indo para prorrogação. A Holanda não resiste e Kempes faz o segundo gol e Bertoni finaliza aos onze do segundo tempo e, assim, a Argentina com o seu primeiro título mundial, mas carregando um fardo, antes, durante e depois do evento, sangue, tortura, roubo de bebês, sequestros, em campo, nos resultados, porém, como resultado de tudo na competição sempre explicarão fatos que não sejam futebolísticos. 40 anos depois, o “Mundial Sujo”, os libertadores sociais acudiriam “cenas que hoje soam inverossímeis”, não tiravam os olhos para ver a final. Argentinos ofuscados comemorando. Mas jamais serão reconhecidos como os campeões em 1986, comandados por Diego Maradona. Ainda hoje, entre os que sobreviveram ao Estado de terror, aos campos de concentração, escutam-se sons de chaves abrindo a porta, “logo vem uma lembrança de passagem na prisão, quando se fazia o encaminhamento para tortura” ou “voo da morte”.

Logo após o título do mundial, os algozes levaram alguns presos políticos, como a socióloga (atualmente) e sobrevivente da ESMA, Graciela Daleo, para celebrar junto ao povão, uma forma de dizer: “vocês perderam, nós ganhamos”. E Havelange e o principal financiador externo do terrorismo Henry Kissinger e o facínora Videla, homens nefastos, garantiram as masmorras do silêncio, junto com a chamada multinacional do terror, deixando o povo entorpecido, como relata o ex-jogador Ricardo Villa, campeão do mundo pela seleção Argentina em 78, exposto no documentário que a ditadura de Videla “usou politicamente a copa e o significado do evento para esconder... deixou marca... na conquista do título mundial”. O também campeão mundial René Houseman explanou que “... se soubesse não teria participado da copa”.

Um dos piores crimes, e para o qual não há de ter qualquer forma de perdão, foi o sequestro de 500 bebês que foram “entregues como butins de guerra” aos assassinos da ditadura argentina e de outros países, como relata no documentário Luis Alberto Volpe: “é triste lembrar para narrar a verdade histórica desse tempo de genocídios, sentimento de nojo e estupidez para que nunca mais isso se repita, como conhecemos, chamado de o traço mais sujo de uma guerra suja, reside a mais cruel das permanências”.

No entanto, o assassino Videla diz no mesmo documentário: “os desaparecidos são algo abstrato, uma incógnita... não têm identidade, não está nem morto nem vivo...”. Fala de um verdugo que é um abominável fato interrompido dos melhores anos, vidas ou plenitudes de um ser humano. Uma ditadura banhada de sangue, e com envolvimento em muitos escândalos. Ainda hoje é o único dos campeões do mundo questionados de toda a história das copas de futebol. Pergunto-me, por que também não questionar o Brasil de 1970, no México? Se o Brasil não tivesse conquistado o título, como o povo reagiria? O tempo da ditadura não teria durado menos, e não 21 anos? Fatos para refletirmos e muito. Dos homens nefastos que comandam o poder temos que exigir que nunca, nunca mais queremos campos de concentração, não mais sequestros de bebês dos filhos dos revolucionários, nem genocídio, “senhores da vida e da morte, das torturas físicas e psicológicas, que sofram as prisões permanentes”.

Sabe como morreu o assassino Videla? Parece piada, mas não é. Em 2013, numa prisão militar, sentado num vaso sanitário, onde cumpria pena pelos crimes que cometera e que antes de morrer estercou que “iria sem se arrepender do que fez”. A sua condenação foi por usurpações, sequestro de bebês, execução de 31 revolucionários, 504 prisões ilegais e vários outros crimes. Em 1985, após ser condenado à prisão perpétua, o traidor Carlos Menem, em 1990, convoca uma votação parlamentar de anistia geral e assim todos os militares são postos em liberdade. Mas, em 1998 eles voltam aos cárceres privados novamente. Lá, pelo menos os assassinos foram presos. E aqui, onde estão? No “Éden”, gozando de sua felicidade. Pois no capitalismo, condenação judicial é só para a classe proletária. E aí dizem: “e a Lava Jato?”. Existe para um único partido, não para os poderosos. Somente para os lutadores sociais. O povo pode até ficar disperso, mas não é idiota, já que muitos documentos mais serão analisados e que eram secretos, quando o agitador terrorista Barack Obama, que governava os EUA, encaminhou em 2017 ao presidente argentino Macri.

Longa vida aos lutadores sociais, à sociedade civil organizada, aos verdadeiros Montoneros, ao Partido Comunista da Argentina, aos socialistas, à ERP, à organização das Avós da Praça de Maio e CLAMOR.

 

Ousar lutar, ousar vencer! Venceremos! Socialismo ou morte!

Antonio Soriano