Duas táticas da direita contra todo o povo

Parece que a fração burocrata entendeu que foi passada para trás. Também é evidente que não quer ser humilhada como está sendo o até então todo poderoso chefe do centrão (da escória nacional), o deputado Eduardo Cunha. Este foi usado e, agora, substituído por um medíocre parlamentar, Rodrigo Maia, de um medíocre partido (DEM), testas de ferro do PSDB.

Com o golpe do impeachment parlamentar contra a presidenta Dilma Rousseff bastante avançado, a direita anda tramando duas táticas contra a classe trabalhadora. Uma arquitetada pela oligarquia dominante, vinculada à banca financeira e aliada incondicional dos Estados Unidos, que inclusive já está colocando-a em prática neste momento, e outra pela direita burocrática, vinculada ao setor da máquina burocrático-estatal, que tenta implementá-la em meio a força omnipotente da oligarquia dominante.

A tática da fração burocrática, composta por intelectuais (no sentido de não trabalhar diretamente na produção de serviços) do alto escalão da máquina pública, como, por exemplo, a cúpula da Procuradoria Geral da República (PGR), do Ministério Público Federal (MPF), Polícia Federal (PF), Tribunal de Contas da União (TCU) etc., é articular o impedimento da presidenta Dilma no sentido de direcioná-lo para a formação de um governo de intelectuais orgânicos e burocráticos, isto é, um governo “puro”, sem qualquer ligação com o movimento operário e a indústria nacional. Estes intelectuais de um suposto partido “puro”, formado por membros ligados à consultorias especializadas em instituições jurídicas, governamentais e financeiras, é velho conhecido de todos, o PSDB.

Apesar do curriculum do presidente golpista, o jurista Michel Temer, a fração burocrática não aceitou a sua composição ministerial devido a sua estreita ligação com as grandes empreiteiras (logo, com as obras públicas), ao agronegócio e as formas primitivas de acumulação de capital (varejo em geral, tráfico de drogas e armas etc). Logo após a nomeação do primeiro escalão do governo golpista de Temer, o Procurador Geral da República, Rodrigo Janot, vazou a articulação para acabar com a Operação Lava Jato, que inclusive passava pelo processo de impeachment. Mas o que importava para Janot não era o golpe contra a presidenta, mas a cúpula do PMDB que colocava por baixo um pretenso “governo puro”. Assim, o ministro golpista do Planejamento recém empossado, Romero Jucá, o presidente do Senado, Renan Calheiros, o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e o ex-presidente da República, José Sarney, foram todos condenados à prisão.

Ao tentar mexer na cúpula do aliado dos tucanos, os burocratas sentiram a força da oligarquia dominante. A oligarquia chamou o Supremo Tribunal Federal (STF) para apagar as luzes dos holofotes sobra aquela fração burocrática. A mídia então passou a destacar o seu representante maior no STF, o ministro Gilmar Mendes. Este passa a atacar violentamente este “vazamento seletivo” contra a cúpula do PMDB “vazado” pelo procurador geral. Os vazamentos contra a cúpula do PT, por sua vez, mesmo aqueles considerados ilegais, jamais foram objeto de qualquer menção negativa pelo ministro tucano; ao contrário, eram acintosamente elogiados. De forma que, pela primeira vez, um membro do STF, neste caso o ministro Teori Zavascki, não só negou todos os pedidos de prisão, como os considerou como denúncias descabidas, excessivas e arbitrárias!

Com sua tecnicidade arbitrária, os burocratas não compreendem que a oligarquia dominante precisa de um governo de transição do período petista ao dos banqueiros “puro-sangue”. Um governo de transição que faça o serviço sujo, que aplique todas as medidas antipopulares e antinacionais, em suma, neoliberais (liberalização da terceirização, fim da aposentadoria por tempo de serviço, fim da vinculação dos gastos de saúde e educação, privatização da Petrobrás e do Pré-Sal etc.). Um governo que seja o alvo de xingamento da sociedade. Um governo deste tipo não consegue se eleger, mas é necessário não só para aplicar tais medidas a curto prazo e sem eleições, mas também para criar as condições para um novo governo de salvação nacional, qual seja, o próprio PSDB. Quem é que está dando sustentação ao governo golpista senão o mesmo PSDB! A oligarquia sabe perfeitamente que o governo que aplicar tais medidas neoliberais jamais passará pelo crivo das eleições. Daí a necessidade de se jogar o PMDB no rio como boi de piranha para completar a travessia golpista. Esta é a tática da fração oligárquica, que no fim é a mesma da fração burocrata. A divergência é o meio para este fim.

Parece que a fração burocrata entendeu que foi passada para trás. Também é evidente que não quer ser humilhada como está sendo o até então todo poderoso chefe do centrão (da escória nacional), o deputado Eduardo Cunha. Este foi usado e, agora, substituído por um medíocre parlamentar, Rodrigo Maia, de um medíocre partido (DEM), testas de ferro do PSDB. Acreditando que possuem o poder da caneta pretendem voltar a roda da história para o período pré-impeachment, quando gozavam de todo o poder e do amparo midiático. Agora o MPF vem a público dizer que as tais pedaladas do governo Dilma não constituíram crime de forma alguma, depois de ter dado de bandeja o escuso motivo para o golpe. Com o recuo do MPF todo o processo de impedimento virou uma grande fraude. Logo, Dilma deve retornar ao cargo de presidenta e comandar o país.

Será que esta mudança de tática será o suficiente para sensibilizar o Senado? Provavelmente não, haja visto os intempestivos pedidos de prisão do PGR, rejeitados pelo STF. Talvez apareça uma e outra “Tia Eron” de última hora. Mesmo que o trâmite do impeachment caia no Senado, a oligarquia ainda tem uma cartada decisiva no STF contra os burocratas: trata-se da análise das contas da campanha eleitoral da chapa Dilma–Temer de 2014. A decisão se encontra nas mãos do mais tucano (PSDB) dos ministros do STF, Gilmar Mendes, o que significa que não haverá vacilo ou compaixão. Ele apenas está aguardando pacientemente o melhor momento para julgar as contas de campanha. Como as recentes pesquisas indicam a ida do ex-presidente Lula para o segundo turno, em qualquer uma das várias simulações e cenários, o mais provável é que a oligarquia faça a opção de caçar a chapa Dilma–Temer no início do próximo ano, quando não haverá mais a possibilidade de realizar novas eleições diretas. Com isso, a legislação permite apenas eleição indireta para a Presidência da República. Por meio desta forma indireta, a oligarquia poderá impor de forma mais fácil o seu candidato de transição, que pode ser o atual ministro golpista das Relações Internacionais, José Serra, ou mesmo o atual ministro golpista da Fazenda, Henrique Meirelles.

José Tafarel