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O capitalismo se desenvolve com a seca e a miséria

Essa matéria foi publicada na Edição 460 do Jornal Inverta, em 03/08/2012

O capitalismo se desenvolve  com a seca e a miséria

Agricultor pobre sofre com a seca enquanto grandes fazendeiros terão aumento na produção.

O Nordeste brasileiro sofre com uma das maiores secas das últimas décadas. A grande parte dos municípios dos Estados do Ceará, Piauí e Pernambuco já está em situação de emergência por conta da estiagem, contabilizando 1.134 municípios. No Ceará, por exemplo, 90% dos reservatórios de água no interior do Estado já estão bem abaixo da capacidade e ameaça os municípios a ficarem sem abastecimento. Com relação ao Rio Grande do Norte, estima-se uma perda de 89,6% na produção de feijão e de 91,9% no milho. As culturas de algodão e sorgo também registram recuo superior a 80%. No caso do girassol, a perda de produção chega a 100%, assim como para a mamona. No Ceará, no mínimo 50% da produção agrícola está comprometida.

Porém, como tudo nessa sociedade de classes injusta, estes dados alarmantes atingem diretamente mais ao agricultor pobre que depende do próprio cultivo diário para sobreviver. O Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece) demonstrou que os produtores com acesso à irrigação mecânica (fazendeiros) terão inclusive crescimento na produção, por não dependerem da regularidade das chuvas.

Então, como ocorre todas as vezes que há forte estiagem, o agricultor se ver forçado a abandonar o campo e procurar outras atividades. Para o pobre camponês, resta apenas migrar para grandes centros urbanos e procurar trabalho. Há algumas décadas, o destino preferido dessa migração era o eixo Rio-São Paulo, dada a grande propaganda do Governo Militar para atrair mão-de-obra barata para a megalópole brasileira. Hoje o destino mudou a bola da vez é a propaganda para o Norte, de que lá há grandes obras, muito dinheiro e nenhum respeito aos trabalhadores, como em Belo Monte e na Usina Hidroelétrica do Jirau. O Governo também seduz sertanejos que acabam tentando a sorte nas capitais nordestinas, devido ao desenvolvimento propagandeado destas nos últimos anos. Mas é um desenvolvimento ilusório, pois o grande carro-chefe desse desenvolvimento, a indústria e o comércio, exclui a grande massa de trabalhadores por não possuir o perfil exigido. De tal forma que, a taxa de desemprego total da Região Metropolitana de Fortaleza (RMF) no mês de março, chegou a 12,9%, superior a taxa de desemprego das sete metrópoles brasileiras. Com este cenário, a estratégia dos Governos, no caso, o Governo do Ceará consiste, em conjunto com empresários, em realizar grandes obras sem inserção social e fomentar seus lucros sob a necessidade dos camponeses ávidos por emprego. Enquanto a produção agrícola cearense cai 50% este ano, a economia cresce pelo segundo ano consecutivo 5%.

A indústria pernambucana cresceu 11,3% em janeiro. O resultado contrasta com a média nacional, que apresentou queda de -3,4%, e supera o desempenho da indústria nordestina (3,8%) e da Bahia (6,5%).

Esse fenômeno (a priori, contraditório) é um processo que ocorre todas as vezes que o Nordeste passa por uma grande seca, e não coincidente, é o momento exato em que se desenvolve o capitalismo na região. Dados históricos demonstram que a cidade de Fortaleza, por exemplo, passou da condição de vila à cidade devido à demanda de exportação da produção, primeiro de charque (carne seca) e depois, o grande “boom” do capitalismo local, a exportação de algodão e derivados para os Estados Unidos e Europa, na segunda metade do século XIX. Esse nível de produção fez com que fosse necessário criar infraestrutura adequada para a cidade, o que resultou na primeira planta de Fortaleza, feita por Silva Paulet e Adolph Hebster, em 1859, já sob os preceitos do urbanismo francês, de muitas praças e grandes bulevares.

Ainda na segunda metade do séc. XIX surge a figura de Delmiro Gouveia, um dos pioneiros da industrialização do país, que ao invés de exportar matéria-prima, exportava manufaturados. Delmiro Gouveia foi inimigo do pensamento semifeudal da época que chocava com o pensamento industrial. Construiu a primeira hidroelétrica do Brasil, uma usina com potência de 1.500 HP, na queda de Angiquinho, uma cachoeira em Paulo Afonso. Porém, não para o abastamento de água do povo, mas para sustentar seus negócios. Em 1899, fundou o Derby, em Recife, Pernambuco, considerado o primeiro Shopping Center do Brasil. Em 1914 fundou a Companhia Agro Fabril Mercantil, a primeira na América do Sul a fabricar linhas para costura e fios para malharia. Sobre a história franca desse industrial que representa a primeira fase industrial no Nordeste, o filme Coronel Delmiro Gouveia, com José Dumont, é bem alusivo.

A cidade de Fortaleza do início do século XX era um espelho dessas contradições. Por possuir um porto que possibilitava grandes exportações, a elite da cidade se beneficiou muito e ficou cada vez mais rica, em contraste com as grandes secas que assolavam o sertão. Muitos sertanejos, os chamados retirantes, vinham para Fortaleza na esperança de construir nova vida. Sonho em vão, pois a elite segregava cada vez mais o povo do sertão. Foi construído campos de concentração nas proximidades da Estação Ferroviária para comportar as levas de retirantes e enviá-los de volta. Nesse mesmo tempo, o governo alistava sertanejos para a extração de borracha no norte, desde o início do século até meados da Segunda Guerra Mundial.

Esse processo ocorre ciclicamente em todo o Nordeste em tempos de seca. Dado a impossibilidade da produção agrícola para auto sustento e a miséria criada, a indústria se torna a única opção e muitas vezes o empresariado se aproveita da situação e da falta de condicionamento técnico para explorar o trabalhador. Hoje, passamos por uma grande seca e o nordeste inteiro, ao mesmo tempo em que sofre com a estiagem (fazendo o Governo liberar R$1,2 bilhões para o combate à seca), tem seus melhores índices industriais. O Ceará realiza grandes obras - o Aquário, o Centro de Convenções, a reforma do Castelão - à primeira vista, desenvolvimento e emprego, mas como são “elefantes brancos”, gerarão miséria na mesma proporção.



José Carapinima

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