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Olimpíadas RIO 2016: Um legado para uma cidade largada?

Essa matéria foi publicada na Edição 440 do Jornal Inverta, em 17/11/2009

Os bares ficaram cheios como num jogo da seleção brasileira de futebol em uma final de copa de mundo, mas não era. Na verdade o que fez a cidade parar na hora do almoço da Sexta-Feira, dia 02 de Outubro, foi outra decisão. Estava em jogo o direito de sediar a XXVIII edição das olimpíadas da era moderna. Quatro cidades estavam na disputa: Tóquio, Chicago, Madrid e Rio de Janeiro, sendo que estas últimas duas ficaram para a escolha final da sede.

Quando o Rio foi anunciado como cidade vitoriosa, o povo que se aglomerava em frente às TVs dos bares na Cinelândia vibrou como um gol. Mas em minha mente, que presenciei ao vivo este momento, veio logo uma certeza: apesar de todo o discurso de melhoria para a cidade e todas as conhecidas promessas, mais uma vez o povo brasileiro em geral, e carioca em particular, se deixa levar pelo “oba - oba” dos políticos que fazem desta escolha uma plataforma de campanha.

O governo promete investir bilhões em infraestrutura, melhorar a educação, investir em segurança, incentivar o esporte, incrementar o turismo, gerar empregos.

Ótimo! Mas será que tudo isto não é um direito nosso? Uma obrigação do Estado independentemente de sermos sede ou não de uma olimpíada?

Seria, mas não no atual modelo político e econômico em que vivemos: o capitalismo. Principalmente em sua fase atual, onde impera o modelo neoliberal, que reduz o Estado a um mero comitê gerenciador dos negócios da burguesia.

Infelizmente é isto que acontece e não será diferente com as olimpíadas, afinal o dinheiro investido, em sua esmagadora maioria, será público e isto para os políticos representa não ter a menor responsabilidade com ele. Fazer dele o que quiser e a história mostra claramente isto.

Desenvolvem projetos mirabolantes, gastam aos “tubos”, constroem “elefantes brancos”, destroem o que já está pronto para refazer. Pois, pra eles, só interessam as “mamatas” e “maracutaias”. O lobby com empresários e empreiteiras. Vide o exemplo da cidade da música.

Assim tem sido e somente quem for muito inocente vai acreditar que o espírito olímpico irá mudar alguma coisa, pois esta é a lógica do capitalismo: o lucro.

Temos um exemplo concreto e recente, que foram os jogos Pan-Americanos. Quem tiver boa memória ou consultar as noticias da época verá que o discurso era o mesmo. Pois bem, vieram e passaram os jogos. Gastaram-se “rios” de dinheiro e onde será que está o tão famoso “legado do Pan”? Quem souber me avise, por favor!

O que temos sim é uma cidade que continua largada! Uma CPI do Pan que não deu e nem vai dar em nada, como tantas outras. Um punhado de instalações esportivas quando muito sendo subutilizadas.

Já se passaram mais de dois anos após o fim dos jogos Pan-Americanos e do Parapan e muitas das estruturas que custaram milhões aos cofres públicos sequer receberem uma única competição esportiva. Além do que, o povo não tem acesso a elas para a prática de esportes. O que de fato deveria ser o principal investimento não passa de discursos vazios que, na pratica, nunca saem do papel: Formar não só atletas para depois se venderem por alguns milhares de dólares e virarem garotos propaganda de marcas famosas. Mas sim investir na formação de um Homem novo. E a prática esportiva influência decisivamente este processo, ao ocupar as crianças e ensinar-lhes outros valores.

Mas isto não interessa, pois não vai gerar lucro material, certo?

Sim, mas somente na lógica capitalista. Temos o exemplo de Cuba, um país com a população praticamente igual a da região metropolitana do RJ, mas que é uma potência esportiva mundial, apesar do bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos há décadas. E não adianta vir com o discurso de que os atletas cubanos estão fugindo de lá. Pois, afinal, onde estão os nossos maiores craques? Onde treinam os atletas brasileiros que alcançam os maiores feitos esportivos a nível mundial? Em Cuba a prática e o incentivo ao esporte são uma das prioridades da sociedade socialista.

Bem, a euforia inicial da escolha já passou e a população saiu do sonho dourado e voltou à sua realidade:

Trens lotados e com atraso, gerando revoltas e confusão. Ônibus completamente sucateados que circulam por vias cheias de crateras, enchentes e desabamentos de encostas nos morros sempre que chove. Filas gigantescas nos hospitais, conflitos urbanos que impedem milhares de trabalhadores de retornarem às suas casas com segurança todos os dias. Os assaltos e as balas perdidas, que ceifam mais vidas em um ano do que alguns dos piores conflitos bélicos que estão em curso atualmente no mundo. Uma cidade suja e abandonada após décadas de governos neoliberais que se sucederam. O desemprego e o choque de ordem.

Não se trata de um discurso pessimista, mas sim da realidade a que está exposta nossa cidade atualmente.

Ainda faltam alguns anos para as olimpíadas e todos nós temos a obrigação de sermos participativos nas decisões que irão ser tomadas para a realização dos jogos. Devemos fiscalizar as atitudes do governo e manifestar nosso repúdio e indignação a toda e qualquer decisão que nos prejudique ou nos lese. E quem sabe através de uma questão que, apesar de não ser a prioritária, mas que é de interesse comum e consegue mobilizar uma grande parcela da população, possamos nos acostumar a ser participativos na política no dia-a-dia e caminhar rumo a questões mais decisivas para a sociedade.

As propostas do PCML acerca dos comitês de luta contra o neoliberalismo e comitês de autodefesa podem vir a cumprir este papel e ser o embrião do futuro poder popular.

 

Alípio Laurindo

Juventude 5 de Julho - RJ

 

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