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Lula, a crise e as eleições de 2010

Apesar dos esforços da grande mídia para dar a crise por terminada e mostrar o Brasil como grande paladino anticrise, a “marola” de Lula ainda não passou.

Lula, a crise e as eleições de 2010

(foto: Pinheiro/Abr)

Apesar dos esforços da grande mídia para dar a crise por terminada e mostrar o Brasil como grande paladino anticrise, a “marola” de Lula ainda não passou. O prestígio do presidente, no entanto, cresce internacionalmente e será utilizado como alavanca propulsora de seu candidato - seja ele Dilma Roussef ou qualquer outro – para as eleições de 2010. No fim de setembro, Lula rumou para Pittsburgh após participar da Assembléia Geral da ONU, em Nova Iorque. Na reunião do G-20, sentou-se ao lado de Obama, com quem trocou elogios e gracejos mútuos.

Há cerca de um ano, o estouro da bolha financeira a partir do mercado de ativos hipotecários dos EUA revelou uma crise de superprodução e deu-se a conhecer para o mundo quando, apesar de todas as medidas intervencionistas do governo deste país, inclusive com a estatização das de suas maiores hipotecárias, a FreddyMac e a FannieMae, o banco de investimentos Lehman Brothers quebrou. Ao longo do ano, empresas quebraram, bolsas de valores evaporaram no ar e a presença do Estado na economia voltou a ganhar importância no cenário político.

Em abril de 2009, o Brasil anunciou o empréstimo de US$ 10 bilhões ao Fundo Monetário Internacional (FMI), provenientes das reservas brasileiras – principalmente do superávit da balança comercial, portanto – representando, em abril, 5% do total dessas reservas. Além disso, o montante equivalia a duas vezes a participação do Brasil no Fundo, de US$ 4,5 bilhões. O empréstimo indicou claramente as pretensões do governo brasileiro na negociação do aumento efetivo da cota e do poder de voto do país na instituição, que só será definido em janeiro de 2011, na assembléia de reorganização das cotas do FMI.

As reservas brasileiras são compostas por dólares, títulos do Tesouro americano e por Direitos Especiais de Saque (DES) junto ao FMI, nominados em dólares, euros, libras e ienes. Muitos analistas consideram que o crescimento do poderio da China pode refletir-se na incorporação do yuan à cesta dos DES. É bem verdade que, se utilizados para controlar o câmbio do dólar – fim dado normalmente às reservas do país – os dez bilhões de dólares emprestados ao FMI não teriam tanto impacto na economia brasileira. Mas, em um país onde uma a cada três crianças é desnutrida e o índice de desemprego extraoficial chega a 20% em algumas regiões, haveria muito que fazer com dez bilhões de dólares.

Assim, o total emprestado pelo Brasil é, proporcionalmente, maior que o da China – US$ 40 bilhões, ou 2% de suas reservas. A União Européia, por exemplo, cedeu em conjunto US$ 100 bilhões. Do total de U$ 1,1 trilhão de injeção acordado na reunião do G-20, em abril, US$ 250 bilhões se destinaram a um fundo de impulso ao comércio mundial, US$ 750 ao FMI e US$ 100 bilhões para outros organismos multilaterais. Como era de se imaginar, o empréstimo brasileiro pouco contribuiu para a melhora da crise mundial: Na opinião do Banco Central Europeu, a crise está longe de seu fim, apesar de alguns sinais positivos. Em setembro, o presidente do Banco Central de Luxemburgo e membro do BCE, Yves Mersch, afirmou que “A crise não acabou. Problemas ainda são possíveis. (...) Se as coisas estão melhores no momento, isso é por conta das intervenções fiscais e monetárias e também das medidas de liquidez, e ainda é preciso saber como os bancos vão passar sem essas medidas”. Mersch destacou, ainda, como a própria manutenção dos juros baixos, por exemplo, poderia gerar nova bolha financeira. O BCE, por exemplo, manteve a taxa de juros nos 16 países da zona do euro em um recorde de baixa de 1% em setembro e outubro.

Na realidade, o problema não se encontra apenas nos bancos, mas na própria economia real, que continua em recessão. Os milhões de miseráveis, famintos e desempregados paridos pela crise dificilmente se recuperarão dentro do sistema capitalista. Segundo Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mesmo no Brasil é precipitado apontar o fim ou a melhora da crise, uma vez que os fundamentos que levaram à sua eclosão seguem existindo. Os paraísos fiscais, por exemplo, são destino ou passagem de 70% dos investimentos brasileiros no exterior. De acordo com os últimos dados consolidados pelo Banco Central (BC), os investimentos diretos de empresas brasileiras em outros países foram de US$ 103,9 bilhões, em 2007, sendo metade nas Bahamas e nas Ilhas Cayman. Quanto às pessoas físicas, do total de US$ 22 bilhões depositados por brasileiros no exterior, 34% passaram por paraísos fiscais.

Podemos ter certeza de que todas as políticas anticíclicas lançadas por Lula no marco da crise – PAC, Minha Casa Minha Vida, o aumento da participação internacional com o empréstimo para o FMI – e até aquelas que não estão diretamente relacionadas à crise – como o abrigo a Zelaya, a Copa e as Olimpíadas no Rio – serão utilizados em seu afã eleitoral. Mas as contradições que levam à crise, à miséria e à fome dos brasileiros e dos povos do mundo não foram resolvidas e não podem ser superadas dentro do capitalismo.


LSF

 

 

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