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Barack Obama rechaça novo pacote e discussão divide governo

Essa matéria foi publicada na Edição 440 do Jornal Inverta, em 17/11/2009

O governo Obama está dividido. Mesmo após os pacotes trilionários lançados pelos EUA – em especial os U$ 787 bilhões do início de 2009 – a crise segue se aprofundando no país e a possibilidade de um novo pacote divide republicanos e democratas. Enquanto isso, Barack Obama anunciou recentemente que, por hora, não será lançado nenhum novo pacote anticíclico.

A diminuição progressiva de pacotes de auxílio tem sido defendida por muitos organismos, baseada na crença de que o pior da crise já passou e no hipócrita princípio capitalista do “livre mercado”. O tema – discutido na última reunião do G-20 – já conta com ações efetivas de alguns dos principais bancos centrais do mundo: O Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) informou que vai começar a desacelerar os leilões de curto prazo (84 dias) do Term Auction Facility (TAF) no início de 2010 – reduzindo-os para US$ 50 bilhões em outubro e para US$ 25 bilhões em novembro e dezembro – enquanto o Banco Central Europeu (BCE), o Banco Central Suíço e o Britânico afirmaram que reduzirão a garantia da liquidez em dólar para recursos de apenas uma semana, que serão fornecidos também até janeiro de 2010. As operações de 84 dias, no entanto, serão suspensas após o dia 6 de outubro e só serão retomadas no futuro em caso de necessidade .

As declarações coordenadas refletem a melhor defesa da socialização das perdas da crise entre os povos do mundo, uma vez que os programas de auxílio teriam ajudado a estabilizar os mercados de crédito e, agora, quando o principal problema se resume à economia real e ao aumento do desemprego, os mesmos já não seriam mais necessários. 

Nos EUA, os republicanos têm, ao mesmo tempo, atacado os pacotes lançados por Obama e defendido ora a não intervenção, ora o lançamento de pacotes distintos, privilegiando o corte de impostos. Por sua vez, apesar da negativa do presidente sobre o lançamento de novos pacotes, no início de outubro um de seus principais assessores econômicos, Lawrence Summers, afirmou que os EUA estariam a caminho da recuperação econômica graças aos pacotes anticíclicos, defendendo a possibilidade de um novo pacote caso necessário. Segundo Summers, “Graças principalmente à Lei de Recuperação, aliada a um plano agressivo de estabilização financeira e um programa para manter em suas casas os proprietários de imóveis com dívidas hipotecárias, temos nos afastado substancialmente do abismo e estamos no caminho da recuperação econômica”. A afirmação foi feita em resposta ao líder republicano da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, John Boehner.

Enquanto a mídia propala o “fim da crise nos Estados Unidos”, a situação da economia do país continua piorando concretamente: Apesar do ritmo na perda de postos de trabalho ter diminuído, no terceiro trimestre do ano os estadunidenses ainda tiveram um saldo médio de 256 mil postos de trabalho a menos por mês. A taxa de desemprego chegou a 9,8%, e o país enfrenta enormes déficits orçamentários.

Na opinião do FMI, os países mais ricos não terão energia suficiente para recuperar a riqueza perdida durante a crise, de modo que o organismo sugere aos mesmos que reformem seu mercado de trabalho para atenuar as perdas. No entanto, tais reformas se enquadrariam provavelmente no marco da flexibilização dos direitos trabalhistas, o que levaria a um aumento ainda maior no subemprego. A proposta do Fundo é de que, no futuro, “subam-se os juros antes e mais” quando se verifique explosão do crédito, do investimento em imóveis e do déficit por conta corrente, que costumam anteceder a queda de preços - uma saída polêmica que pode levar justamente à própria precipitação da crise.

Em episódios de crise no passado, a perda não recuperada chegou a 10% do PIB em sete anos, segundo análise do FMI sobre 88 casos nos últimos 40 anos. A repercussão é mais séria se considerarmos que o PIB conjunto dos países imersos na crise é de quase um quarto do PIB mundial. Ao estudar as ações tomadas por governos e bancos centrais em 13 países desenvolvidos nos últimos dois anos, para conter a crise, o FMI encontrou vários níveis de eficácia entre as 153 intervenções.

O sistema de crédito é necessidade inerente no capitalismo, e a acumulação de capital é estruturalmente antagônica, de modo que novos pacotes não poderão evitar novas manifestações da crise. Mas o frágil mercado de trabalho estadunidense pode pôr em risco as pretensões políticas dos aliados de Obama nas eleições legislativas do ano que vem, o que constitui um motivo a mais para que o tema seja analisado cuidadosamente.


Joana de Oliveira

 

 

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