Um olhar para o futuro
Essa matéria foi publicada na Edição 440 do Jornal Inverta, em 17/11/2009Nesta edição a carta enviada da prisão por Arnaldo Otegi, Rafa Díez, Sonia Jacinto, Arkaitz Rodriguez e Olhem Zabaleta e que foi publicada pelos diários vasco Gara e Berria. Estes cinco dirigentes da esquerda independentista presos no dia 16 de outubro. O artigo recolhe a testemunha do “capital de denúncia, força e ilusão que tomou as ruas donostiarras” um dia depois de uma onda popular que deve capitalizar-se para abrir as portas à outra fase política: “Uma nova fase dentro do processo de libertação nacional que, indispensavelmente, precisa de novas estratégias, compromissos e instrumentos políticos”.
A manifestação que inundou as ruas de Donostia em resposta a nossa detenção e encarceramento nos proporcionou uma grande satisfação, insuflando força e moral à nossas reflexões e convicções; vai, pois, por diante, nosso agradecimento às dezenas de milhares de pessoas que, sob o lema “Askatasunaren alde. Eskubide guztiak guztientzako (Pela liberdade, pelo direito a liberdade)”, responderam em massa a esta nova atuação repressiva do Estado. Temos satisfação ao avaliar a enorme resposta articulada depois da enésima intervenção repressiva contra setores políticos independentistas.
A exemplar convocação realizada pela maioria sindical, com ELA e LAB como tratores principais, tem voltado a plasmar uma foto social e política há tempo esquecida, mas, não por isso, menos exigida e almejada pela grande maioria do espectro sociológico patriota e progressista de nosso povo.
Têm sido muitas as operações político-judiciais, em matéria de perseguição política, que com detenções, registros, “incomunicações” têm finalizado em acusações e encarceramentos. Esse genocídio político vem-se realizando com intervenções periódicas plenas de arbitrariedade e discricionariedade. Primeiro situa-se o objetivo político e depois conseguem-se/constroem os argumentos de acusação. Uma roda de atuações que surpreendem à sociedade basca por acusações que, longe da realidade, só perseguem condicionar a situação em função da estratégia do Estado para abordar a atual fase do processo político.
Agora, por fim, chegamos a um ponto em que, com uma leitura política correta em torno das verdadeiras intenções políticas da atuação repressiva do Estado, a sociedade basca tem reagido em massa de forma esperançosa. Isto é, sem os lastres que nos deixam aos olhares ou análises retrospectivas, o verdadeiramente importante neste momento. A sociedade basca acordou-se do letargo provocado por muitas inércias, erros e indefinições, com responsabilidades múltiplas, que ninguém deveria/deveríamos evitar. Tem demonstrado sua capacidade e potencialidade ante às atitudes arrogantes e politicamente impunes das ações dos poderes do Estado contra o Euskal Herria (País Basco). E esse capital de denúncia, força e ilusão que tomou as ruas donostiarras não pode nem deve diluir-se ou ser flor de um dia. Ao invés, em frente à perseguição das atividades políticas de um setor da sociedade basca, às ameaças palpáveis de criminalização em cascata contra outros setores políticos, sindicais e sociais, à interminável vulnerabilização de direitos civis e políticos, a sociedade basca tem que dar continuidade e profundidade a um movimento social expansivo e ideologicamente transversal em demanda de liberdades democráticas; em exigência de todos os direitos civis e políticos para todos os cidadãos do País Basco.
Ante a estratégia do Estado por condicionar, com a repressão e criminalização arbitrárias, o mapa político vascão e controlar a evolução do processo neste trânsito entre dois ciclos políticos, o povo basco tem que responder com iniciativas múltiplas e em massa pelas liberdades democráticas. Em Donostia comprovou-se que os compromissos básicos são possíveis e, sobretudo, que a cidadania patriota e progressista demanda convergências sociais que implementem ou sejam o estímulo coletivo que permitam o desenvolvimento eficaz da pressão social.
Mas esse setor social reivindicativo não pode se desenvolver de forma isolada. Se afogaria rapidamente e, outra vez, voltaríamos a descapitalizar o valor e a potencialidade quantitativa e qualitativa da mobilização que tanta ilusão tem gerado. Portanto, com a onda social surgida, é preciso abordar iniciativas globais e setoriais que rompam o atual bloqueio e abram as portas a outra fase política. É possível É necessário. E, ademais, o povo basco está demandando de maneira urgente.
Uma nova fase, dentro do processo de libertação nacional, que tem de ter como objetivo ganhar um palco democrático “pivoteado” pelo reconhecimento nacional do País Basco e o respeito à vontade democrática da cidadania, abrindo espaço a uma estratégia independentista. Fase e objetivos que, indispensavelmente, precisam de novas estratégias, compromissos e instrumentos políticos.
Nesta fase do processo de libertação, a Esquerda Patriota deve liderar e compartilhar uma estratégia cimentada exclusivamente na adesão popular; na acumulação e ativação de forças sociais patriotas, “soberanistas” e independentistas por uma mudança política e social. A estratégia eficaz que demanda o atual momento histórico só pode se construir sobre maiorias políticas e sociais democraticamente articuladas. Isto é, a sociedade basca tem que ser a protagonista, com sua força e organização, para, em um processo democrático, avançar para essa mudança política. Não temos que esperar a ninguém. Não temos que estar condicionados pelos que apostam no bloqueio para debilitar as variáveis sociopolíticas, culturais e simbólicas de um projeto nacional vascão definido e reforçado na batalha contra o modelo constitucional-estatutário imposto na transição pós-franquista.
A aposta em um processo democrático requer decisões de perfil estratégico por parte de todos os agentes sociais e políticos, sem exceção, para “vertebrar” os meandros de uma nova fase política. Neste sentido, a modificação dos atuais parâmetros de confrontação política, questão finque no bloqueio existente, tem de ser uma aposta unilateral da Esquerda Patriota, a qual deverá se complementar com compromissos e acordos tático-estratégicos entre os diferentes agentes políticos, sindicais e sociais.
Posto em marcha o processo democrático, desde onde iremos avançando e fazendo irreversíveis tanto o estabelecimento de liberdades democráticas -hoje negadas para adulterar a vontade democrática do povo basco- e a libertação de todos os presos políticos, como a definição e determinação -via negociação política- de um acordo democrático que, respeitando a vontade do País Basco, nos permita “vertebrar” política e institucionalmente o sujeito nacional vascão e avançar para a independência e o socialismo desde o respaldo democrático da cidadania.
E nesta estratégia de acumulação e ativação progressista, são indispensáveis instrumentos adaptados às características deste pulso político. Não estamos em uma conjuntura de caráter resistencialista. Não podemos especular com meros movimentos táticos influídos pelas trajetórias específicas dos diferentes agentes políticos e sociais. Há que se construir uma ofensiva democrática para conseguir pôr os alicerces políticos -acordo democrático- de uma estratégia independentista em uma Europa em constante movimento político.
Neste sentido, “soberanismo” e “independentismo” precisam convergir em compromissos, propostas e iniciativas de massas e, inclusive, institucionais. Esse “independentismo” e “soberanismo” têm que modificar as correlações de forças no tabuleiro político e, como conseqüência, nas relações País Basco/Estado, impulsionando, de forma simultânea, um modelo econômico e social que satisfaça as necessidades e interesses da maioria popular e trabalhadora. Uma tendência convergente que tem que incidir no espaço político, sindical, social e cultural, tanto a nível nacional como local.
Por conseguinte, convergir e somar forças para multiplicar efeitos políticos e sociais. Sem medos, com decisão e ambição. O caminho percorrido tem sido muito importante. Temos coberto uma etapa básica com a neutralização dos objetivos “assimilacionistas” do Estado espanhol com o chamado Estado das Autonomias. Agora temos que articular as maiorias democráticas que determinem um novo marco político para os País Basco na senda independentista. Essa é a fase.
“Nova fase, novas estratégias, novos instrumentos”; essa tem de ser a aposta, referência e compromisso da Esquerda Patriota. O povo basco espera atento e expectante. Todos devemos estar à altura desse anseio coletivo. Sem tabus e sem complexos. Aurrera!
Rafa Díez, Sonia Jacinto, Arnaldo Otegi, Arkaitz Rodríguez, Miren Zabaleta.
Desde a prisão de Estremera, a 25 de outubro de 2009
Saludos!
Esquerda Independentista Basca






