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Estação de Arte: Uma chance à cultura

Essa matéria foi publicada na Edição 436 do Jornal Inverta, em 02/06/2009

Entrevista com Francisco da Conceição, graduado em Artes Cênicas, que montou um pequeno centro cultural em frente à estação de trem de Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, sendo assim chamado “Estação de Arte”. O espaço, que fica aberto das 9h às 20h, atende ao público jovem em sua maioria, que cadastrados podem pegar livros, fazer atividades de pintura e teatro.

Estação de Arte: Uma chance à cultura


Francisco da Conceição, nascido em 10 de novembro de 1978, é formado em Artes Cênicas desde 1997, começou a trabalhar formalmente em 1999, já fez 30 peças de teatro. Chegou ao Rio de Janeiro em 1982, sendo o primeiro ator analfabeto a fazer uma peça de teatro. “Eles liam para mim o texto, eu tinha que ouvir, entender e decorar. Eu tive uma parceria muito grande com o professor que me ensinou, o Luiz Carlos Lessa, a partir daí eu fiquei interessado em estudar teatro. Eu era analfabeto, tive que conciliar o teatro com o trabalho e a escola. Fiz Unirio, mas me formei no Martins Pena, entre 97, 98. Comecei a desenvolver um trabalho no teatro. Eu pinto também, mas não me considero artista plástico. Eu pinto mais para mim, só que de uns tempos para cá as pinturas que eu tenho feito têm dado um resultado até inesperado. Hoje em dia já pinto, já vendo bastante”. Lembra Francisco, “Chico”, como é conhecido. Há alguns anos, com a ajuda de um comerciante local, montou um pequeno centro cultural em frente à estação de trem de Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, sendo assim chamado “Estação de Arte”.

O espaço que fica aberto das 9 da manhã às 20 horas atende ao público jovem em sua maioria, que cadastrados podem pegar livros, fazer atividades de pintura e teatro. “O centro cultural ajuda a gente no desempenho em casa, na nossa família, na escola, a leitura é muito importante”, acrescenta Lorena, 14, estudante frequentadora do centro cultural. Evandro Haddad, 46, comerciante, que cedeu um espaço de sua farmácia para desenvolver o trabalho lembra: “Abri esse espaço aqui, um pedaço do meu estabelecimento, para ajudar a população, pois ela está pura e simplesmente se perdendo do saber. Então precisamos que as pessoas passem a ler, as linhas, as entrelinhas e saber que as pessoas tendo cultura, sabendo o que desejam para dar, elas vão receber, não adianta querer receber sem dar. Este espaço aqui tem zelado para as pessoas dos colégios poderem pegar os livros, recortar, ter todo o aparato necessário para o crescimento, então aqui na estação de Bangu, precisamos muito da população”.


IN - Como surgiu essa ideia e quando surgiu?

FC - A ideia é por causa dessa dificuldade que eu tive, de leitura, da época em que eu cheguei aqui, analfabeto. Quando eu entrei para o teatro abri a mente, por essa razão eu queria fazer alguma coisa em função da cultura e da educação. Mas eu poderia abrir uma loja para vender livro? Não, porque seria um comércio para benefício próprio, eu poderia pegar livro para levar para escola? Não sei, porque na escola tem biblioteca, fica trancada. Eu queria uma coisa que todos tivessem acesso, e o mais importante é que ela não precisasse gastar nada para ter isso. Aqui, por exemplo, tem vários livros, várias coisas para eles, mas do momento que eles tirassem 50 centavos do bolso para adquirir esse livro, então já mudaria tudo. Porque a dificuldade financeira das pessoas é muito grande, às vezes você não tem 1 real para comprar um pão, vai ter um real para alugar um livro? Não vai. Eu deixo a critério de cada um, quem pode colabora, quem não pode não colabora. Por esses motivos, eu queria colocar alguma coisa para que as outras pessoas que tivessem um sonho de fazer o que eu fiz não tivessem dificuldade de encontrar pela frente o que eu encontrei. Porque só fiquei da maneira que fiquei por não ter chance de estudar no Maranhão. A ideia que eu queria era alguma coisa nesse sentido, para que algumas pessoas não tivessem a dificuldade que tive na questão da cultura. Essa ideia vem desde que vim do Maranhão, em 1983. É uma coisa que é difícil, porque para você fazer alguma coisa ou você tem um apoio de alguém, ou você tem que ter dinheiro, eu não tinha nem dinheiro, nem tenho ainda, nem apoio de alguma forma, mas tive alguma coisa, por exemplo, a sala aqui, só do rapaz de ter me doado essa sala em um ponto como esse dentro de Bangu, com todo acesso às escolas, já é um grande apoio, então tenho o apoio dele.


IN – Qual é o objetivo das atividades que você desenvolve aqui, como pintura e leitura?

FC - A única coisa que eles fazem aqui ligado à pintura, no momento, é desenho. Eles desenham por conta própria, e coloco um painel aqui para eles exporem. A pintura tem muito pouco interesse. Como o espaço é pequeno, eu não tenho uma grande estrutura, eu não estou desenvolvendo, mas terá em breve. Estou vendo, até o final do ano, um espaço que vai ter muitas atividades, por exemplo, eles vão ter psicólogo pelo menos 2 vezes no mês para aqueles que se interessarem, um professor de história e de filosofia para passar alguma coisa para eles, isso é um projeto para o final do ano, e quero colocar pessoas que queira colaborar voluntariamente para fazer essas funções, agora estruturalmente e financeiramente ainda não sei como vai ser. Eu estou contando com o voluntariado. Porque eu já passei em algumas escolas e já há alguns professores que se prestaram em me dar essa ajuda. Dentro das possibilidades, quero que seja uma ajuda mesmo, para não ser aquela coisa obrigada.


IN - Qual a maior dificuldade do centro cultural?

FC - Maior dificuldade é o tamanho, para desenvolver outras tarefas, dificuldade de manter pequenas coisas como água, copo descartável, as coisinhas do dia-a-dia, tudo inclui dinheiro. Aqui é consumido em tempos quentes 5 galões de água por dia, juntando 4,50 vai dar uma quantia por mês, então nem se fala, se eu não pedisse ajuda da própria farmácia, que é o Evandro que libera para me ajudar, os taxistas que dão um galão de água, então, se não fosse essa parceria indiretamente ficaria muito mais difícil. A dificuldade maior é que não tem nenhuma renda estrutural direcionada diretamente para isso, onde todo mês que tenho os gastos, seja menos seja mais, tendo onde tirar. Todo dia tenho que matar um leão.


IN - E em relação à doação de livro e de material?

FC - A doação de livro a gente recebe com frequência, mas material de pintura já é outra coisa, porque tem que sair de uma loja, essa loja tem que doar uma mercadoria de dentro do comércio, então a dificuldade é bem grande. Por exemplo, a loja que trabalha com material de pintura e desenho, eu tenho mais ou menos 700 alunos cadastrados, nem todo mundo vai poder pintar, nem todos, mas se desenvolvesse trabalho eles teriam que distribuir uma quantidade de material muito grande, para uma loja sem qualquer parceria, para ela é um rombo. Então para essa loja fornecer material de ajuda para essa quantidade de aluno, ela teria que ter uma parceria com o governo, ela teria que ter uma ajuda para que não ficasse só na doação da loja e de onde ela vai tirar o lucro para pagar o funcionário? Enfim, muitos custos de transporte e tudo mais.


IN - Qual futuro você espera dessas crianças, o resultado disso tudo?

FC - O futuro dessas crianças, tendo esse trabalho que estou fazendo, se não tiver uma parceria como falei de mais voluntários, de mais pessoas com vontade de fazer, isso aqui é apenas uma gota no oceano, não vai atingir praticamente nada. Só vai acontecer o seguinte, ela vai lembrar que tinha um “maluco” que fazia alguma coisa ligada à cultura que dizia para elas que aquilo ali era bom, mas não vai atingir muito não. O que eu tenho que fazer aqui é arrumar ajuda, parceria para aprofundar mais o trabalho, arrumar um espaço maior para que essas crianças tenham um esclarecimento de profissionais, um psicólogo, um explicador, um trabalho mais estrutural, para que ela vá até lá e saiba que se ela for naquele dia ela vai acrescentar mais um ponto na vida dela. Porque aqui elas passam todo o dia, eu dou carinho, eu dou atenção, tudo, isso é muito importante o que eu faço para elas, elas aqui conversam comigo e tudo, mas não é o suficiente, tem que ter uma coisa mais estrutural, tem que ter uma coisa mais a fundo para que se sintam seguras. O que estou fazendo é uma espécie de iniciação, para que elas incentivem outras pessoas a fazer essa parceria, não precisa ser aqui não, pode passar a ser só uma iniciativa. Podem ser outras pessoas fazendo, pessoas mais capacitadas peguem a ideia para fazer isso.


IN - Quais os projetos para o futuro do centro cultural “Estação da Cultura”?

FC - Se eu tiver uma colaboração financeira de alguma instituição ou de algum órgão que queira colaborar com a cultura diretamente estrutural, uma coisa fixa, eu acredito que até o final do ano a gente venha a estar com o espaço mais estruturado, com mais parcerias. Eu quero arrumar uma parceria com as próprias escolas, ainda não toquei com o governo, com prefeitura, porque acho que ainda não é o momento.


Cesar Prata

 

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