Adeus, General Motors, diz Michael Moore
Essa matéria foi publicada na Edição 436 do Jornal Inverta, em 02/06/2009A gigante estadunidense da indústria automotriz, General Motors, deu o seu adeus no dia 1/06 em Nova Iorque devido à bancarrota. Esta é a maior quebra industrial da história dos Estados Unidos e a quarta maior do mundo. Nesta edição um artigo do cineasta Michael Moore, diretamente de Michigan, antes o berço da GM, hoje, seu leito de morte, em que os habitantes da cidade, que girava em torno da indústria, estão desesperados diante do estrago cometido pela empresa ao longo de décadas. As demissões já vem atingindo aos operários da GM em todo o mundo. O governo Obama corre em socorro a outrora poderosa GM, mas questiona Moore: Será que a solução agora é colocar o dinheiro público para salvar essa máquina de moer gente?
Adeus, General Motors, diz Michael Moore
Escrevo isto na manhã do fim da outrora poderosa General Motors. Ao meio dia o presidente dos Estados Unidos fará o anúncio oficial: a General Motors, como a a conhecemos, chegou ao fim.
Sentado aqui no berço da GM, Flint, Michigan, estou rodeado por amigos e familiares cheios de ansiedade sobre o que passará com eles e com a cidade. Quarenta por cento das moradias e dos negócios na cidade foram abandonados. Imagina o que seria viver numa cidade onde para cada casa uma outra esta vazia. Qual seria seu estado de espírito?
É uma triste ironia que a empresa que inventou a “obsolência planejada” - a decisão de construir carros que cairiam em pedaços depois de pouco tempo de uso, de maneira que o cliente então teriam que comprar um outro novo - agora tenha se tornado obsoleta. Ela recusou-se a construir automóveis que o público queria, carros que rodariam uma grande quilometragem por litro, que fossem tão seguros quanto poderiam ser, e era extremamente confortáveis de conduzir. Ah - e que não começassem a se despedaçar após dois anos. A GM teimosamente lutou contra regulações ambientais e de segurança. Seus executivos arrogantemente ignoraram os “inferiores” carros japoneses e alemães, carros que se converteram no padrão ouro para os compradores de automóveis. Ela foi firme em castigar seus trabalhadores sindicalizados, mandando para a rua milhares de trabalhadores sem nenhuma outra boa razão além de “melhorar” em curto prazo os resultados financeiros da empresa. No início dos anos 80, quando a GM estava anunciando lucros recordes, transferiu inúmeras vagas para o México e outros lugares, destruindo com isso as vidas de dezenas de milhares de operários norte-americanos. A cobiça e a estupidez desta política era que, quando eliminaram os rendimentos de tantas famílias de classe média, quem eles pensaram que seria capaz de comprar seus carros? A História gravará este erro da mesma maneira como agora escreve sobre o francês que construiu a linha Marginot ou como os romanos, sem ter a menor idéia, envenenaram seu próprio sistema de água com chumbo pesado nos encanamentos.
Aqui estamos no leito de morte da General Motors. O corpo da empresa ainda não está frio, e encontro-me cheio - ouso dizer - de alegria. Não é a alegria de vingança contra uma empresa que arruinou minha cidade e trouxe miséria, divórcio, alcoolismo, falta de moradia, debilidades físicas e mentais, e vícios em drogas às pessoas com as quais cresci. Evidentemente, tampouco sinto qualquer alegria em saber que 21.000 ou mais trabalhadores da GM serão avisados que eles também estão sem emprego.
Mas eu e o resto da América agora possuímos uma empresa de carro! Eu sei, eu sei, quem na face da terra quer dirigir uma empresa de carro? Quem quer que 50 bilhões de nossos dólares pagos em impostos sejam jogados no ralo para tentar salvar a GM? Deixemos claro isto: A única maneira de salvar a GM é matar a GM. Porém, salvar nossa preciosa infra-estrutura industrial é outro assunto e deve ser prioridade máxima. Se permitirmos o fechamento e o desmanche de nossas fábricas de carro, com certeza sentiremos falta delas quando percebermos que essas fábricas poderiam construir os sistemas de energia alternativa que agora necessitamos desesperadamente. E quando percebermos que a maneira melhor de transportar-nos é através de trens leves, trens balas e ônibus mais limpos, o que faremos se tivermos permitido que nossa capacidade industrial e sua força de trabalho qualificado desapareça?
Assim, quando a GM é “reorganizada” pelo governo federal e o tribunal de falência, aqui está o plano que espero que o Presidente Obama implemente para o bem dos trabalhadores, das comunidades da GM, e da nação como um todo. Há vinte anos quando fiz “Roger & Me”, tentei advertir as pessoas sobre que futuro esperava a General Motor. Se a estrutura de poder e a classe política tivesse escutado, quiçá muito disto poderia ter sido evitado. Baseado em meu registro, peço uma consideração sincera das seguintes sugestões:
1 – Assim como o Presidente Roosevelt fez após o ataque em Pearl Harbor, o Presidente tem que dizer a nação que estamos em guerra e nós imediatamente temos que converter nossas fábricas de carro em fábricas que construam transportes de massa e dispositivos de energia alternativa. Após alguns meses em Flint, em 1942, a GM tinha parado toda produção de carros e imediatamente utilizado as linhas de produção para construir aviões, tanques e pistolas. A conversão foi imediada, todos trabalharam para isso. Os fascistas foram derrotados.
Estamos agora em um tipo diferente de guerra - uma guerra contra o ecossistema que tem sido dirigida por nossos próprios executivos corporativos. Esta guerra atual tem duas frentes. Uma tem quartel-general em Detroit. Os produtos construídos nas fábricas da GM, Ford e Chrysler são algumas das maiores armas de destruição em massa responsáveis pelo aquecimento global e o derretimento das calotas polares. As coisas as quais chamamos “carros” podem ter sido divertidas de dirigir, mas são como um milhão adagas no coração da Mãe Natureza. Continuar construindo-os somente levaria à ruína de nossa espécie e de boa parte do planeta.
A outra frente nesta guerra está sendo levada pelas empresas de petróleo contra você e eu. Elas são inclinadas a nos extorquirem enquanto podem, e têm sido terríveis governantas da finita quantidade de óleo que está localizada abaixo da superfície da terra. Elas sabem que estão chupando até secar o osso E como os magnatas da madeira do início do século XX, que não deram a mínima para as gerações futuras que destruíram cada bosque que suas mãos podiam alcançar, estes barões do petróleo não estão dizendo ao público o que sabem de verdade – daqui a poucas décadas acabará o petróleo disponível neste planeta. E quando o dia do fim do petróleo se aproximar, esteja certo que pessoas desesperadas mataram e serão mortas apenas para conseguir colocar as mãos em um galão de gasolina.
O Presidente Obama, que tomou agora controle da GM, precisa converter essas fábricas para novos e necessárias utilizações imediatamente.
2. Não coloque mais 30 bilhões de dólares nos cofres da GM para construir carros. Ao invés disso, use esse dinheiro para manter a força de trabalho, e muitos dos que foram demitidos, empregados, para que eles possam construir os novos transportes do século XXI. Que eles possam começar o trabalho de conversão imediatamente.
3. Anuncie que teremos trens bala cruzando esse país nos próximos cinco anos. O Japão está celebrando o 45º aniversário de seu primeiro trem bala. Agora eles têm dezenas deles. Velocidade média 265 quilômetros por hora. Tempo médio de atraso dos trens: 30 segundos. Eles tem esses trens de alta velocidade há aproximadamente cinco décadas e nós ainda não temos nenhum! O fato de que existe a tecnologia para irmos de Nova Iorque até Los Angeles em 17 horas por trem, e que nós não a tenhamos usado ainda é um fato criminoso. Vamos contratar os desempregados para construir essas novas linhas de alta velocidade por todo o país.
4. Iniciar um programa para colocarmos linhas de trens leves em todas nossas cidades médias e grandes. Construir esses trens nas fábricas da GM. E contratar a população local em todas as partes para instalar e operar esse sistema.
5. Para as pessoas nas áreas rurais, onde não haja esse trens leves, a GM deve produzir ônibus eficientes e limpos.
6. Com o tempo, todas as fábricas devem construir carros híbridos ou totalmente elétricos (e baterias). Ainda levará alguns anos para as pessoas se acostumarem com os novos meios de transporte, então se teremos que ter carros, que tenhamos alguns mais simpáticos e gentis. Podemos começar a construí-los já no mês que vem (Não acredite se alguém lhe disser que levaria anos para adaptar essas fábricas – isso não é verdade).
7. Transforme algumas das fábricas vazias da GM em fábricas de moinhos de energia eólica, painéis solares e outras formas de energia. Necessitamos de dezenas de milhões de painéis solares agora mesmo. E temos uma força de trabalho habilidosa e ávida para fazê-los.
8. Criar incentivos de taxas para aqueles que viajam em carros híbridos ou ônibus ou trem. Além disso, créditos para aqueles que converterem suas casas para o uso de energia alternativa.
9. Para ajudar a pagar por isso, criar uma taxa de dois dólares para cada galão de gasolina. Isso vai ajudar as pessoas a escolherem carros mais econômicos e a usarem os novos trens que os antigos trabalhadores das montadoras construam para eles.
Bom, esse é um começo. Por favor, por favor, não salve a GM para que uma versão reduzida da mesma continue a construir Chevettes e Cadillacs. Essa não é uma solução em longo prazo. Não jogue dinheiro em uma companhia, cujos escapamento não defeituosos, fazendo com que um cheiro estranho entre no carro.
Há 100 anos atrás, os fundadores da General Motors, convenceram o mundo a abandonar os cavalos, as celas e os chicotes para tentar um novo meio de transporte. Agora é hora de dizermos adeus ao motor de combustão interna. Ele parece ter nos servido bem até agora. Nos gostávamos dos carros saltando nos estacionamentos das lanchonetes. Fizemos amor nos bancos da frente e de trás. Assistimos filmes em grandes telas ao ar livre, assistimos as corridas NASCAR por todo o país e vimos o Oceano Pacífico pela primeira vez através da janela abaixada de um carro. E agora acabou. É um novo dia e um novo século. O presidente, e o sindicato dos trabalhadores das montadores devem aproveitar esse momento para criar uma grande jarra de limonada deste amargo e triste limão.
Ontem (31/05) a última pessoa que sobreviveu ao naufrágio do Titanic faleceu. Ela escapou da morte certa naquela noite e viveu por mais 97 anos.
Da mesma forma poderemos sobreviver ao nosso Titanic em todas as Flint Michigans do país. 60% da GM é nosso. Eu acho que podemos fazer um melhor trabalho.
Michael Moore






