Testemunho Ocular
Essa matéria foi publicada na Edição 436 do Jornal Inverta, em 02/06/2009A escola de hoje é o reflexo da nossa sociedade, quadro que aterroriza a população. Em 2006, a Apeoesp realizou uma pesquisa que assustou a todos, concluiu que 700 professores da rede estadual de ensino, cerca de 80%, disseram que a violência física é o constante nas escolas. E que em 2008, só em Campinas, interior de São Paulo, de um total de 580 docentes um em cada quatro sofre algum tipo de agressão por parte dos educandos.
Testemunho Ocular
A escola de hoje é o reflexo da nossa sociedade, quadro que aterroriza a população.
Em 2006, a Apeoesp realizou uma pesquisa que assustou a todos, concluiu que 700 professores da rede estadual de ensino, cerca de 80%, disseram que a violência física é o constante nas escolas. E que em 2008, só em Campinas, interior de São Paulo, de um total de 580 docentes um em cada quatro sofre algum tipo de agressão por parte dos educandos.
As instituições de ensino não acompanharam as transformações, por isso passaram a não formar essas crianças para a realidade em que estão inseridas. Daí a desqualificação das escolas por parte dos educandos que acabam transformando em agressão.
A escola ainda carrega a imagem de detentora de conhecimento, mas hoje este pode ser obtido em vários espaços, como meios de comunicação. E mesmo a nova tecnologia, que deveria ser fonte de pesquisa, torna-se instrumento de uma relação entre a violência social e é a praticada dentro dos muros escolares.
Há diversos problemas de violência nas comunidades que são reproduzidas nas escolas e influenciam diretamente no ambiente escolar. Todos são consequência de uma política educacional organizada de cima para baixo, não havendo participação popular. Há falta de referência de autoridade, de carinho e afeto dentro de casa, gerando famílias sem estruturas.
Ao mesmo tempo, não há instrumentos pedagógicos nas instituições escolares, falta de formação de professores que trabalham horas a fio para melhorar o salário e ter uma vida com conforto, deixando para trás sua profissão. Alguns trabalham 13 a 14 horas por dia, sem que exista uma preparação das aulas.
Baixos salários, rotina estressante, professores desiludidos e desanimados, são vitimas frequentes de agressões físicas e ofensas. Trabalham tanto para obterem um salário digno e são agredidos, humilhados e violentados física e moralmente, deixando suas profissões e seguindo outras por medo e por falta de opção.
Ainda segundo a Apeoesp, a política de progressão continuada, posta em prática a partir de 1998 na rede estadual no ensino fundamental, permite que o aluno siga seu desempenho independentemente de estar apto ou não, deixando de lado a importância do professor na sala de aula, sem participação dos pais na vida escolar ou nos conselhos de escola, que seria fundamental se os pais não largassem seus filhos e não se responsabilizassem por eles, deixando a cargo da escola.
Os professores esgotados têm muita dificuldade de compor o nível salarial e passam a lecionar em várias escolas para sobreviver, comprometendo a qualidade do ensino, sendo alvo de violência, insultos, todos os dias, de alunos, sendo cada vez mais comum este quadro nas salas de aula.
A desigualdade social e descaso com o ensino nas escolas que deveria ser responsabilidade do poder público é tratado com descaso, jogando para o professor a responsabilidade de resolver problemas sociais, desestruturação familiar, falta de emprego, moradia, alimentação e outros que acarretam problemas que são levados diretamente para as salas de aula. Só 1% da população adulta mundial detém 40% de toda a renda e riqueza mundial. Dessas pessoas, 64,3% vivem nos EUA e Japão, segundo os estudos das Nações Unidas.
Os professores, esgotados, aparecem na mídia todos os dias. São exemplos dos conflitos que existem nas escolas, sendo que muitos professores são silenciados pelo medo de represálias por parte dos pais de alunos e também da instituição de ensino.
Em Ribeirão Preto, interior paulista, no ano passado uma professora foi espancada agredida a chutes e por alunos da sétima série, após ter pedido a um aluno que saísse da sala de aula, pois atrapalhava o decorrer da aula. A professora foi afastada durante dez dias de suas funções, com diversos ferimentos na face e perdeu a visão de um olho.
O fato é que não há participação dos pais nos conselhos e na educação dos filhos, além de existir falta de planejamento e a desvalorização dos professores, que ganham salários baixos, vivem esgotamento físico e mental, estresse diário. Todos esses problemas acarretam danos irreparáveis, sobrecarregando os professores, fazendo com que abandonem suas salas de aula e procurem funções mais prazerosas.
A saída seria: mudar o conceito da representação do professor, não pendendo para que atue como pais na sala de aula, e sim professor, psicólogo, faxineiro e mesmo “saco de pancada”, sendo seu papel o de educador, agente transformador e que intermediar e dá condições para a busca do conhecimento, dando instrumentos para isso e transformando a realidade do aluno, mostrando outra saída, para que mudem essa sociedade autoritária, onde o ser humano é reconhecido pelo o que tem e não pelo o que é.
Na escola, quando eu era criança levei diversas reguadas na cabeça, palmatórias, humilhações com castigos intermináveis, ajoelhava em grãos ou tendo que decifrar uma determinada tabuada, algo que era torturante. Hoje ocorre o inverso, os professores apanham em sala de aulas e são humilhados.
Hoje tenho muitos traumas de algumas disciplinas devido aos maus tratos.
A escola funciona como dois extremos, nos dois casos não há respeito nem cidadania.
Precisamos de valores culturais, como dizia o velho Raul Seixas “ter cultura para cuspir na estrutura”.
A criação do FUNDEB - Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação, e do piso nacional, verdadeiro cavalo de tróia, exigem ainda mais do professor, com salas lotadas e mais tempo de serviço.
Nas escolas particulares também há casos de violência de alunos contra professores. No Rio de Janeiro, no ano passado uma professora universitária foi agredida violentamente por uma aluna que não concordou com a sua nota. Ela foi afastada de suas atividades, enquanto a aluna foi apenas advertida, sem que nem fosse cogitada a expulsão.
Maria Arleide Alves
Professora, trabalha na rede de ensino da prefeitura de São Paulo há 18 anos e no estado há 12 anos não efetiva






