Pacote de Barack Obama não resolverá a crise
Essa matéria foi publicada na Edição 433 do Jornal Inverta, em 27/02/2009No dia 16/02, Obama lançou, sem apoio republicano, o maior pacote de estímulo fiscal da história dos EUA, de US$ 787 bilhões, ou o equivalente a 5% do PIB do país em 2 anos. O Pacote deverá somar-se ao plano de auxílio ao Sistema Financeiro anunciado no final de janeiro e, apesar de seu fundamento keynesiano – de incentivo ao investimento e à economia real – pode cair no pecado original da bolha: verter moeda fiduciária na economia sem corresponder ao valor real, ao trabalho humano efetivamente acrescentado à sociedade.
Pacote de Barack Obama não resolverá a crise
No dia 16/02, Obama lançou, sem apoio republicano, o maior pacote de estímulo fiscal da história dos EUA, de US$ 787 bilhões, ou o equivalente a 5% do PIB do país em 2 anos. O Pacote deverá somar-se ao plano de auxílio ao Sistema Financeiro anunciado no final de janeiro e, apesar de seu fundamento keynesiano – de incentivo ao investimento e à economia real – pode cair no pecado original da bolha: verter moeda fiduciária na economia sem corresponder ao valor real, ao trabalho humano efetivamente acrescentado à sociedade.
Até agora, apenas a bolha do setor de crédito de longo prazo (hipotecário) dos EUA estourou de fato, manifestando a crise de superprodução no mercado imobiliário. Foi suficiente, no entanto, para impactar a economia mundial mais que a crise de 1929. As ações continuam a cair – as do Citibank foram de US$ 56 a US$ 3,65 – e a economia real despenca. Nos EUA, o desemprego atingiu os 7,2%, com 2,6 milhões de postos perdidos em 2008, principalmente na indústria; as previsões são de queda de 4,6% do PIB no 1º trimestre e de pelo menos 1,5% no 2º, configurando recessão. Nos últimos meses, o Tesouro transferiu quase 1,5 trilhão de dólares para as instituições financeiras, sem resultado. A economia dos EUA chega beira a “armadilha da liquidez” proposta por Keynes, quando nem as taxas de juros próximas do zero são suficientes para reanimá-la: a política monetária já não funciona. O pacote fiscal tenta, portanto, conter os danos e evitar a generalização da crise para mais setores da economia e outras esferas da formação social.
Do total de US$ 787 bilhões, 36% serão usados para corte nos impostos associados à compra de, por exemplo, casas e veículos, e 64% para “gastos sociais”: US$ 240 bilhões para benefícios fiscais, US$ 140 bi para a saúde, US$ 100 bi para a educação e US$ 48 bi para o transporte, em especial a construção de estradas. O pagamento de policiais também deverá ser priorizado, junto à limitação dos bônus anuais de executivos do mercado financeiro – após o escândalo Madoff. Segundo Obama, deve-se criar ou manter 3,5 milhões de empregos, mantendo a taxa em 7%. Apesar da queda nas bolsas ter persistido após o anúncio do plano, o mesmo provavelmente só terá impacto na economia ao final do ano.
O Plano financeiro, por sua vez, consiste basicamente na capitalização dos bancos, após auditoria, na criação de fundo público-privado para comprar ativos podres e na ação do Fed para solventar dívidas. Ignora, portanto, o mercado hipotecário, e socializa as perdas do sistema financeiro dos EUA com os trabalhadores do país e com os demais povos do mundo. Ressaltamos que apesar de defender o neoliberalismo para nossos povos, em terras ianques os gringos aplicam o protecionismo. Os planos priorizarão a cláusula “Buy American”, que incentiva a compra de produtos estadunidenses.
Muitos pontos são criticáveis no pacote fiscal: o corte de impostos, por exemplo, responderia apenas ao jogo político, para agradar os republicanos, uma vez que os indicadores mostram que apenas um terço do novo dinheiro disponibilizado dessa maneira para pessoas e famílias retorna à economia na forma de consumo. Até o economista de direita, Paul Krugman, acredita que “o governo poderia usar o dinheiro para aumentar os benefícios aos desempregados e para a expansão do sistema de saúde”.
Principalmente, não se sabe como os EUA financiarão o Pacote. Apesar do movimento de compra de títulos estadunidenses (vistos como “mais seguros”) deflagrado pela crise – que chegou a aumentar a cotação do dólar no Brasil –, a venda de títulos é limitada, principalmente com a diminuição das reservas em dólar anunciada pela China. O aumento dos juros para incentivar essa venda potencializaria a dívida pública dos EUA, já quase impagável. Aliás, a própria venda de títulos e a valorização do dólar já aumentam a dívida. Outra saída seria a simples emissão de dólares, receita certa para criar inflação e ampliar a bolha de crédito prestes a estourar nos EUA e no mundo.
Obama foi eleito diante de um vácuo de poder resultante da crise intrínseca à economia dos EUA, generalizada para todas as esferas da vida social neste país, em especial a política, que não poderia ganhar fôlego neste momento com nada menos que a eleição de um negro ou de uma mulher. É uma situação de ganho inevitável (win-win) para a burguesia dos EUA: Se Obama conseguir empurrar a crise com a barriga, sua imagem ressaltará as falsas “liberdade” e “democracia” capitalistas. Se os pacotes falharem, será o bode expiatório.
Em menos de um mês, seu governo já sofreu derrotas, como as quedas no gabinete (enfraquecendo o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, peça-chave para a resposta à crise, e dificultando a “barganha política” nas câmaras, com a queda de Tom Daschle –saúde– e de Bill Richardson e Judd Gregg – ambos indicados para o Comércio). Por hora vai fracassando, portanto, o anunciadíssimo apoio bipartidário. Segundo o presidente, “temos uma oportunidade única de transformar a adversidade em oportunidade e usar a crise para transformar nossa economia para o século XXI. Estes são os objetivos principais do pacote que enviei ao Congresso”. São objetivos demasiado ambiciosos.
O Plano de Obama assemelha-se ao New Deal de Roosevelt, no pós-crash de 1929, ao priorizar o investimento estatal como forma de ação anticíclica – fórmula que remonta aos pressupostos keynesianos e reflete a agudização das contradições fundamentais do capitalismo provocadas, no início do século XX, pelo liberalismo e, ao fim do XXI, por sua ampliada edição neoliberal. Ironicamente, o próprio neoliberalismo, possibilitado pela queda da URSS, foi necessário para superar justamente a crise do keynesianismo e do Estado do Bem-Estar Social, que não foram capazes de solucionar de fato a crise capitalista, fundamentada na contradição irreconciliável entre produção social e apropriação privada, mas apenas de adiá-la.
No entanto, apesar das semelhanças, o pacote de Obama é mais tímido. Enquanto o New Deal propôs o controle sobre bancos e instituições financeiras, a construção de obras de infra-estrutura, a concessão de subsídios e crédito agrícola a pequenos produtores familiares e o embrião de um Estado corporativista de controle dos trabalhadores e aumento da mais-valia, ao estilo de Vargas no Brasil (criação da Previdência Social, do salário mínimo e incentivo ao aparelhamento de sindicatos), a ação do Pacote de Obama sobre a economia será muito menor. Além disso, por enquanto recusa-se terminantemente a prosseguir com a talvez inevitável estatização de parte do Sistema Financeiro, política que poderá precisar ser revista.
Não podemos, porém, esquecer-nos de que a crise reflete profundas contradições econômicas e não é apenas um jogo de “pacotes” e “politicagem”. A verdadeira recuperação da economia dos EUA deveu-se mais à II Guerra Mundial que ao New Deal, com o aumento da produção de armas e a reconstrução da Europa com o Plano Marshall. Ao fim da guerra, 70% de todo o ouro do mundo estava concentrado nos EUA. Obama deve ter isso claro. Por isso, recebeu durante a campanha somas vultuosas dos setores vinculados ao sionismo israelense, concordou com a retirada de tropas do Iraque apenas para deslocá-las para o Afeganistão e discursou enfaticamente em sua posse “contra o comunismo e os terroristas”. Toda crise é a ante-sala da guerra, e o número de desempregados no mundo poderá ultrapassar 50 milhões. Os próximos tempos serão tempos de mudanças.






