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Simpatia e preservação da cultura brasileira

Essa matéria foi publicada na Edição 432 do Jornal Inverta, em 27/01/2009

Gilmar Simpatia fala sobre sua experiência no mundo do samba.

Simpatia e preservação da cultura brasileira

Gilmar Simpatia

Simpatia e preservação da
cultura brasileira

 

A cidade do Rio de Janeiro já desde o nascer de 2009 começa a se preparar para o próximo carnaval. Considerado o melhor carnaval do mundo, faz parte da rotina da cidade, seja nos morros, nas periferias em geral ou no centro da cidade, onde está localizado, na Praça XI, o Sambódromo, projeto de Oscar Niemeyer, e construído durante o governo Brizola.

Dos problemas que superficialmente se observa quanto ao carnaval carioca, é que o mesmo está cada vez mais industrializado, formatado para turista ver. Essa visibilidade seria até bom, se aqui também não incidisse a lei capitalista da produção coletiva e apropriação privada do carnaval - os produtores da festa, os verdadeiros artistas, o povo e os apropriadores, a burguesia. A resistência desses artistas é histórica como a existência do samba. Das agruras da vida, das alegrias e dos amores, poesias, sambas, transformados em versos e nos pés de homens, mulheres e crianças desse povo, transformam-se nessa aparição, nesse encantamento próprio das gentes que aqui vivem e que por três dias têm sobre si a atenção e a cobiça do mundo.

Mas o artista do povo vive anos inteiros, pertence a gerações inteiras, em seu cotidiano, nunca está só, e é neste caldo coletivo, denso, quente que se forja e vai resistindo. Um desses talentos é o compositor e intérprete Gilmar Simpatia. Na sede de INVERTA ele chegou, conversou, cantou e nos brindou com um pouco de sua história na qual tem lugar de destaque os seus parceiros de música, de vida, o que sintetizamos, tal a riqueza de detalhes e de acontecimentos. Todos são tratados pelo também bombeiro de profissão, Gilmar, com o carinho, a distinção e a simpatia, epíteto pelo qual ficou conhecido: “Eu tenho bastante estrada, mas quem é não diz, tem pessoas da mídia que graças a deus eu consegui adentrar no coração delas e essas pessoas que têm o nome marcante na nossa MPB me deram um voto de confiança a compartilhar de sua amizade tal qual Luiz Carlos da Vila, esse parceiro que deus o tenha em bom lugar, maravilhoso, foi minha mão amiga, e Serginho Meriti é outro também, Délson Carvalho, Henrique Silva, dispensam qualquer comentário, Bandeira Brasil, os jovens que estão aí no apogeu como Carlos Caetano, meu parceiro também com muito orgulho, e muitas outras pessoas. E parceiros recentes como Jorge Mautner, Paulo César Feital, todos eles grandes poetas, que se for falar de cada um, haja tempo (e realmente ele citou de cabeça dezenas de nome e ainda ficou faltando alguns)”.

O mesmo acontece quando o poeta fala do começo de sua vida no samba: “Eu não posso falar de Gilmar Simpatia no mundo do samba, sem falar de Walcyr do Império, que hoje em dia está na China, ele veio cantando “Pra tudo se acabar na Quarta-feira”, junto com o samba do Martinho da Vila. Eu já era apreciador dele, cantando em roda de samba, sempre super elegante, eu fui crescendo e parei de fazer carreto na feira; já com 18 anos, o Walcyr me convidou para ir ao clube Helênico, na Rua Itaperu, no Estácio, e lá conheci o Milton Massa, o Waldir Camburão, que era apresentador da roda de samba, dali fui para o Olímpico, em Copacabana, e cantei lá. O apresentador que era da Beija-Flor, apresentava também a roda de samba do Clube do Bola Preta, no Centro, cheguei e cantei “Pintura sem arte”, e ele ficou maravilhado. Uma vez fui convidado a cantar o samba-enredo, cantariam 6 ou 8 cantores, Martinho da Vila, João Nogueira, Elza Soares, Moreira da Silva, então entraria uma mini bateria, comandada pelo mestre Macumba, da Mocidade e eu faria o samba-enredo, junto com um colega da Unidos da Tijuca, aproveitei e chamei também o Vantuí, o último ano que ele veio cantando na Estácio de Sá, que era Unidos de São Carlos e passou a se chamar Estácio de Sá, então no ano seguinte ele já veio pela Porto da Pedra cantando sozinho, o Haroldo de Oliveira me colocou para cantar, eu fiz a apresentação lá. E assim foram outros anos também, depois participando do Terreirão do Samba.”

O Carnaval de hoje já mereceu uma letra do Gilmar Simpatia. Defensor do Terreirão, na Praça XI, que na época de carnaval atrai muita gente, fez a letra "O que diriam nossos ancestrais" quando o terreirão foi cercado e passou a ser cobrado ingresso. Sua militância cultural deu certo, embora no terreirão continue a ser cobrando entrada, ela não é nem de perto o que seria se o valor do ingresso fosse o que se pretendia. Aliás, carnaval é o que há por estes tempos e Simpatia concorda que ele seja parte da cultura proletária e que deveria ser além de produzida, consumida pelo povo sem empecilhos, principalmente os financeiros: “Tenho uma composição em que eu retrato muito bem a correria de barracão, os ensaios; têm sido um sucesso total os ensaios na Marquês de Sapucaí antecipando o carnaval das escolas de samba, essa oportunidade tem sido dada ao povo carente. Tudo aquilo que é feito para dar felicidade ao menos favorecidos, daqui a pouco tomam uma proporção, e eles passam a visar lucros, daí vem a faca no pescoço e corta-lhe a cabeça. Antigamente, você descia para curtir o carnaval e vinha para a Avenida Rio Branco ou para a Presidente Vargas. Ali, no terreirão do samba, se reuniam todos os foliões, os blocos Cacique de Ramos e Bafo da Onça, disputavam na avenida, mas quando chegava no Terreirão do samba, você via o índio agarrado com uma oncinha e assim era aquela troca de amor entre os foliões, as pessoas se perdiam no tempo, tinha roda de capoeira na barraca do Cazuza, ficávamos eu, Mestre Beiçola..., tinha roda de samba, cada um fazia seus versos, juntava a Doris, a Duca, juntava aquela turma toda ali do Sargentelli, todos em prol da felicidade mútua que era o melhor do carnaval, a preservação da nossa cultura e da nossa arte”.

Quando fala de sua família biológica, lembra-se também do Sr. Arthur: “Meu avô, Arthur Vicente Teixeira, era motorista do prefeito Mendes de Morais, trabalhou também como motorista da ambulância do Hospital Souza Aguiar, coincidência ou não, ele tocava violino, tocou no Catuca na Virilha, Flor do Abacate, tocou na Estudantina e seu parceiro de ambulância era o Kid Morengueira, O Moreira da Silva, que morava no Catumbi, mas morou também na Salvador de Sá, quando eu morava na casa da Sandra, que depois se tornou porta-bandeira da Estácio de Sá, a mãe dela, Dona Irene era fundadora do Unidos do Larguinho, então eu sempre respirei essa harmonia, não tem como se respirar e não erguer uma gratidão, não comigo, mas para com Deus dizer assim “eu não tenho nada a ver com samba, eu não tenho nada a ver com a música”.

Uma de suas composições mais apreciadas é “Pérolas de minha Vila”, na qual enaltece a Vila da Penha, localidade em que, das dificuldades próprias das comunidades proletárias, nasceu e nasce a cada dia um homem e uma mulher de fibra e coragem, de muito talento, de vontade de fazer um Brasil melhor e firme na decisão de não deixar o samba morrer jamais, e preservar a cultura brasileira de modo geral, tal é a diversidade desses artistas que nascem no seio da classe trabalhadora. Das manchetes dos jornais às vezes, contrariando a poesia, aparece só a dor da gente, mas Gilmar vem lembrar das alegrias que se tem em viver na Vila da Penha, e o seu povo considera como jóias preciosas, verdadeiras pérolas” “todo aquele povo é realmente perolas. É um local voltado para cultura, descontração, onde se busca felicidade, das crianças aos mais velhos”.


Almeida Rodrigues e BJ

 

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